A substituição de Rafa por Cervi já tinha merecido alguns assobios soltos, como que se houvesse uma espécie de consciência coletiva de que o internacional português pode ser um dos melhores mas o argentino tem justificado também minutos na equipa de onde saiu quando estava num bom momento. A troca de Taarabt por Jota, que foi explicada no final pelo cansaço do médio, aumentou e muito os mesmos assobios. O apito final de Tiago Martins, após um período de descontos com mais de dez minutos, motivou a maior assobiadela de todas. Se o Benfica-Moreirense fosse um filme, a banda sonora estava escolhida. Imagem? As lágrimas de Pizzi.

Um gajo pode ter muita alma mas isso não dá uma saúde de Ferro (a crónica do Benfica-Moreirense)

O capitão encarnado apontou o 25.º golo da temporada, ficando mais perto do registo do companheiro de Seleção e amigo Bruno Fernandes na última época, mas falhou pela primeira vez duas grandes penalidades num só jogo, naqueles que foram o quarto e quinto castigos máximos não concretizados (no caso do segundo, antes de surgiu a recarga vitoriosa) desde que chegou à Luz. No entanto, esse 1-1 no primeiro minuto de compensação acabou por ser curto para segurar a liderança, num encontro marcado também pelo lance do golo anulado a Rafa por mão de Pizzi num desvio ao segundo poste antes do toque para a baliza do avançado.

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As contas são fáceis de fazer: nos últimos sete encontros, contando com a segunda mão da meia-final da Taça de Portugal e com a eliminatória com o Shakhtar nos 16 avos da Liga Europa, o Benfica conseguiu apenas um triunfo e pela margem mínima, em Barcelos frente ao Gil Vicente. Olhando apenas para o Campeonato, os números da queda a pique adensam-se: se é verdade que Bruno Lage tinha ganho 36 dos primeiros 38 jogos em que comandou os encarnados na prova (mais um empate e uma derrota, num total de 109 pontos em 114 possíveis), agora leva uma série de um triunfo, uma igualdade e dois desaires nos últimos quatro compromissos (quatro pontos em 12 possíveis). E foram esses oito pontos perdidos que deram a liderança ao FC Porto esta noite.

“Isto não é um empate, é uma derrota. Tínhamos que ganhar os jogos todos, dependíamos só de nós. Não sei o resultado do outro jogo [Santa Clara-FC Porto, que os dragões venceram por 2-0] mas também não me interessa. O mais importante é o Benfica ganhar e infelizmente isso hoje não aconteceu. Acho que o maior culpado somos nós. Não quero tirar mérito ao Moreirense mas acho que podíamos ter marcado mais golos e não conseguimos. Não sei se o empate nos tira o primeiro lugar…”, referiu Samaris na zona de entrevistas rápidas da BTV, antes de saber que os azuis e brancos tinham cumprido a sua parte nos Açores e eram líderes da prova.

“Onde está a solução? Está no Seixal, nos jogadores e na equipa técnica. Temos de dar a volta a isto. Estávamos com sete pontos de avanço, dependíamos só de nós, era uma vantagem que desperdiçámos por demérito nosso. Agora é ganhar os jogos todos, sabendo que não dependemos só de nós”, acrescentou o grego.

“Não conseguimos vencer, estamos a um ponto do primeiro classificado e temos de urgentemente voltar às vitórias, é nesse sentido que trabalhamos. Criámos oportunidades, falhámos um penálti, cometemos um erro defensivo, o Moreirense praticamente fechou-se na baliza, com muita gente atrás, uma linha de seis a condicionar a nossa forma de jogar. Tivemos muitas oportunidades, muita posse de bola mas depois no momento em que temos de mexer começámos a perder algum equilíbrio, damos oportunidade para o Moreirense sair em contra-ataque. É um resultado pesado, que nos tira a liderança. Agora temos de recuperar e vencer”, resumiu Bruno Lage na flash interview do canal do clube, antes de abordar também os assobios após a saída de Taarabt.

“Quando fazemos alterações as reações podem ser positivas ou negativas. É a nossa vida. Temos de as tomar. Achei que era essa a decisão, porque senti o Adel cansado, a agarrar-se demasiado à bola. O Pizzi podia ir por dentro para dar mais decisão. Mas são decisões que temos de tomar…”, comentou, antes de deixar o mote para a recuperação da equipa nesta fase menos conseguida da época: “Temos de voltar ao foco. Faltam onze jogos e não podemos olhar para trás, como também não adianta olhar muito em frente. Temos de resolver urgentemente aquilo que vai acontecer e isso só se faz com muito trabalho”.

“O momento mais difícil em termos de resultados? É um facto, não nos podemos esconder disso. Não vejo o que já conquistámos, é sempre a olhar para a frente. O jogo ficou fechado, agora é trabalhar no próximo, olhar para o futuro, são 33 pontos que temos para conquistar. Não vale a pena pensar no que quer que seja. O Luís Castro [treinador do Shakhtar] fez uma análise fantástica ao que foi o jogo [da Liga Europa], o Ricardo [Soares, treinador do Moreirense] hoje [segunda-feira] fez uma análise em que disse que o Benfica criou muitas oportunidades. Não podemos esconder que perdemos a liderança e que temos de voltar a vencer”, referiu mais tarde na conferência de imprensa na sala de imprensa do Estádio da Luz.

“Saio sempre à frente, ainda não reparou? O que fiz foi agradecer o apoio dos adeptos. São os primeiros a manifestar a tristeza, sei que são também os primeiros a ajudar a levantar a equipa. É uma hora difícil, podem-me julgar à vontade, mas eles são os verdadeiros adeptos. Sei que amanhã ou depois são os primeiros a dar ânimo à equipa para que vença o próximo jogo”, concluiu, comentando o facto de ter sido o primeiro a sair do campo.