E de repente, quase sem aviso, a autobiografia de Woody Allen viu mesmo a luz do dia nos EUA. Foi nesta segunda-feira, noticiou a agência Associated Press, com uma primeira tiragem de 75 mil cópias e chancela da editora independente Arcade, do grupo Skyhorse Publishing. O livro intitula-se Apropos of Nothing (“A Propósito de Nada”, em tradução livre) e tinha sido rejeitado no início do mês pelo grupo editorial Hachette por pressão dos próprios funcionários.

Alvo de críticas e de um quase apagamento social e profissional – num fenómeno que os americanos têm vindo a classificar como “cancel culture” –, o realizador norte-americano, de 84 anos, consegue assim publicar a autobiografia maldita e contornar a hostilidade que sobre ele se abateu a partir do verão de 2018, no contexto do movimento Me Too e da campanha Time’s Up, de denúncia de assédio e abuso sexual nos EUA.

Num sinal de que a edição foi totalmente inesperada, na Amazon americana e no britânico Book Depository, duas das mais conhecidas livrarias online (pertencentes à mesma empresa), Apropos of Nothing continuava a aparecer sem capa a meio da tarde de segunda-feira, e com edição prevista para maio através do grupo  Hachette. No site da Arcade e nas respetivas páginas nas redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter) nem uma referência ao livro.

A capa de “Apropos of Nothing”, a autobiografia de Woody Allen

Dylan O. Farrow, filha adotiva de Woody Allen e da atriz Mia Farrow, acusa o realizador de ter abusado sexualmente dela em agosto de 1992, quando tinha apenas sete anos, uma acusação reiterada em 2016 por Ronan, irmão de Dylan, e novamente 2018 pela própria Dylan, com descrição de pormenores numa entrevista à CBS.

Woody Allen sempre negou as acusações. Perícias médicas levadas a cabo em 1993 não demonstraram que o alegado abuso tivesse alguma vez acontecido. No entanto, também não ficou provada em tribunal a suposta “lavagem cerebral” a que Dylan terá sido sujeita por Mia Farrow no sentido de acusar o pai.

No contexto do escândalo de abusos sexuais protagonizado pelo empresário e produtor de cinema Harvey Weinstein – caso revelado em outubro de 2017 através de investigações jornalísticas em que também participou Ronan Farrow enquanto repórter –, Woody Allen foi uma das personalidades da indústria americana do cinema votadas ao ostracismo. Mas a editora Arcade, com sede em Nova Iorque, acaba de furar esse bloqueio.

O New York Times já fez notar que a publicação do livro surge num momento em que o mundo está paralisado face às medidas de contingência para lidar a novo coronavírus e sugeriu que a editora terá decidido avançar na esperança de obter lucros imediatos que a ajudem a contornar as perdas económicas do panorama atual. Os montantes envolvidos no negócio não foram imediatamente revelados, desconhecendo-se igualmente se a obra terá edição europeia e se Woody Allen dará entrevistas promocionais, segundo a Associated Press.

Afinal, o que diz a autobiografia?

Um comunicado da Arcade, citado por vários órgãos de comunicação, descreve a autobiografia como “um relato pessoal com imparcialidade e profundidade acerca da vida de Woody Allen, desde a infância em Brooklyn à consagrada carreira no cinema, no teatro, na televisão, na imprensa e na standup comedy, passando pela relações familiares e de amizade.”

Uma responsável da editora, Jeannette Seaver, citada pelo New York Times na segunda-feira, disse que a Arcade comprou os direitos de autor do livro não só pela qualidade do conteúdo como também para marcar posição face aos críticos do realizador.

“Nesta estranha época em que a verdade é muitas vezes rejeitada como se fosse fake news, nós, editores, preferimos dar voz a um artista credível e não àqueles que o querem silenciar”, afirmou Jeannette Seaver. “Acreditamos plenamente no direito à liberdade de expressão”, acrescentou.

Com nada menos que 400 páginas, Apropos of Nothing é dedicado a Soon-Yi Previn, mulher do realizador e filha adotiva com Mia Farrow. O livro adota um tom irónico e descreve as paixões do autor, incluindo a atriz Diane Keaton, com sentido de nostalgia e angústia existencial, relatou a Associated Press. Num registo mais sombrio e defensivo, Woody Allen aborda a relação com Mia Farrow e as alegações de abuso sexual da filha Dylan.

“Nunca toquei com um dedo em Dylan, nunca lhe fiz nada que pudesse sequer ser interpretado como abuso, trata-se de uma fabricação, do princípio ao fim”, escreve o realizador. Sobre o dia em que a violação terá acontecido, acrescenta: “Não lhe fiz nada de indecoroso, estive numa sala cheia de gente a ver televisão.”

Ainda de acordo com as informações fornecidas pela Associated Press, Woody Allen escreve sobre a exclusão que tem conhecido nos últimos dois anos. “Não nego que as minhas fantasias mais líricas incluem ser um artista cujo trabalho não é visto no próprio país e que é obrigado, fruto da injustiça, a procurar público noutros países.” Com a habitual ironia que se lhe conhece, compara-se a Henry Miller, D.H. Lawrence e James Joyce. “Vejo-me perante eles, numa atitude de desafio, e é nesse momento que a minha mulher me acorda e diz que estou a ressonar.”