Já ouvimos falar de treinos de condição física, de cursos de línguas, de concertos e de DJ sets, mas workshops personalizados de restauro de móveis não. É verdade que a necessidade aguça o engenho e a atual clausura que fez parar o país leva muita gente a explorar as potencialidades das redes sociais e de outras ferramentas de comunicação. Porque é que com a marcenaria havia de ser diferente?

Depois de um workshop de Dia do Pai (que ao que parece é também Dia do Marceneiro) cancelado, a Marcenaria Criativa Pereira lançou o desafio no Instagram: quem tiver peças para restaurar ou modificar pode receber orientações gratuitas à distância. “Sempre quisemos manter uma política de oficina aberta, para que possam ter aceso aos métodos de produção, às técnicas. Neste momento, pensámos que as pessoas também estariam mais em contacto com as peças que têm em casa”, resume Margarida Cunha, uma das proprietárias da oficina.

Tiago Pereira e Margarida Cunha têm 28 anos e há quase dois criaram a Marcenaria Criativa Pereira © Divulgação

Então e de onde vem o Pereira? Tiago Pereira, o marido, é o segundo mentor deste negócio com cerca de dois anos. Do avô, também ele já descendente de uma longa linhagem de marceneiros, herdou a oficina e o respetivo ofício. Depois de passar pela Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra, esteve na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, de onde saiu como marceneiro entalhador.

Daí o casal seguiu para o Reino Unido — ele para continuar a formação na área, ela para fazer uma pós-graduação em gestão. “Começámos a perceber que as técnicas mais artesanais e o uso de madeiras maciças estavam a votar ao mercado e que a marcenaria portuguesa, em particular, estava a ganhar bastante nome”, recorda Margarida. No regresso a Portugal, não pensaram duas vezes e reavivaram a velha oficina do avô de Tiago.

A Marcenaria Criativa Pereira fica em Sintra e conta, atualmente, com dois marceneiros, um deles é o dono. Em período de quarentena, Tiago é o único que continua a trabalhar na oficina © Divulgação

Atualmente, há já um segundo marceneiro a laborar na casa — entre peças encomendadas por arquitetos e designers e projetos de restauro, o contemporâneo e o antigo convivem sobre as mesmas bancadas. Margarida garante que a Marcenaria Criativa Pereira continua a não ter mãos a medir. Entre as empreitadas em curso está o restauro de um automóvel de coleção, de 1932, cuja estrutura é em madeira. Ainda assim, abre-se espaço na agenda para atender os habilidosos instagrammers. À ideia de aconselhar à distância deram o nome de “Vamos bater na madeira”.

“Pedimos que partilhem connosco uma imagem da peça, através das stories, identificando a nossa página e com o hashtag #vamosbaternamadeira, e que nos expliquem o que querem fazer”, afirma Margarida. Tomada a iniciativa, através de mensagem no caso dos perfis privados, a marcenaria responde dentro de dois ou três dias com um resumo dos passos necessários para levar a missão a bom porto. Mas há casos excecionais. “Apercebemo-nos de que alguns casos vão precisar de acompanhamento mais próximo. Aí combinamos com as pessoas e damos as orientações através do Zoom”, esclarece. O serviço será sempre gratuito.

Uma das peças produzidas na oficina © Divulgação

Quanto ao material necessário, a marcenaria predispõe-se a enviar a quem precisar. “Se forem só algumas lixas, cedemos sem custos” — noutras situações, o envio é feito para casa e o cliente paga os materiais e as despesas de transportes. “A maioria das pessoas está bastante entusiasmada e parece-me que quem pede ajuda já tem uma aptidão natural para fazer este tipo de trabalho em casa. Além disso, ninguém precisa de ter imenso jeito, basta um bocadinho de paciência e gosto”, remata.

Pintar móveis antigos é, até agora, o desafio mais frequente. Tarefa simples, em nada comparável com o ambicioso desafio que chegou há dias: o restauro de um piano. Infelizmente, nem tudo pode ser feito em casa.

100% português é uma rubrica dedicada a marcas nacionais que achamos que tem de conhecer.