Há muitos anos, a propósito de uma das milhentas querelas em que se envolvia, Eduardo Prado Coelho proferiu uma sentença que jamais esqueci: dizia o cronista que os gostos e desgostos são irracionais – e que as razões que damos para gostar de X e não gostar de Y são sempre um raciocínio que conduzimos a posteriori. O emocional impõe-se – e o raciocínio que o justifica é uma pífia tentativa de racionalização da emoção, o equivalente a um homem vendado procurar a saída de um labirinto mal iluminado.

Recordei a crónica a meio de “Alright”, o quinto tema de Gigaton, décimo primeiro e recém-lançado álbum dos Pearl Jam que a imprensa americana descreve como um violento ataque à administração Trump, aos políticos, enfim: ao estado das coisas que aborrecem a vida de milionários brancos de 55 anos.

“Alright” teve o condão de iluminar as razões obscuras pelas quais nunca aderi por completo ao fenómeno Pearl Jam / Eddie Vedder – entre elas, não gosto de profetas de sabedoria do género senso comum. Por entre um ritmo calminho, num tom sépia inesperado em roqueiros, Eddie Vedder vai proferindo sentenças poéticas:

“You can’t hide the lies
In the rings of a tree
If your heart still beats free
Keep it for yourself”

Ou então, e esta é a minha parte preferida:

“It’s alright, to be alone
To listen for a heartbeat, it’s your own
It’s alright, to quiet up
To disappear in thin air, it’s your own”

Embora tenha duríssima competição desta quadra:

“It’s alright, to say no
Be a disappointment in your own home
It’s alright to turn it off
Ignore the rules of the state, it’s your own”

E, já agora, desta:

“It’s alright, to shut it down
Disappear in thin air, it’s your home
It’s alright, to be alone
To listen for a heartbeat, it’s your own”

Trocando as metáforas mais ou menos conseguidas por palavras corriqueiras, o que Vedder nos está a dizer é que não há mal sermos quem somos, sentirmo-nos isolados no meio da multidão, que é normal querer fugir disto tudo. Esta figura existe há muito no rock: é o profeta que compreende o seu rebanho, e fala diretamente ao coração de cada um, legitimando os seus sentimentos, enquanto previne para os perigos exteriores, as autoridades, os pais, que não os compreendem e fizeram da seita o alvo a abater.

A capa de “Gigaton”, o novo álbum dos Pearl Jam

Não gosto de profetas mas como tudo isto é demasiado irracional, como os seres humanos não são máquinas, adoro o Nick Cave que vai desde os Birthday Party até Boatman’s Call, e se alguém adota o comportamento de profeta (e o domínio sobre as multidões de um) é Saint Nick. Mas Cave desde cedo foi obcecado pelo Velho Testamento, colecionava figurinhas religiosas, iconografia religiosa. Na sua raiva adolescente e jovem, que o levava a chutar heroína e roubar carros, o domínio da linguagem foi a salvação de Nick e permitiu-lhe a criação de um mundo vingativo, em que o crime era, tantas vezes, um recurso abundante – Nick, o santo, compreendia os piores dos pecadores.

Podia acrescentar outros a esta lista: o Bill Callahan profeta do hiper-realismo das relações humanas, por exemplo. O Jason Molina profeta da incapacidade humana de encontrar paz, por exemplo (para quem só a morte traria redenção). O David Berman profeta da incapacidade humana de comunicar e entender o absurdo que comanda as nossas vidas.

Mas há um caso que espelha inversamente o que falha em “Alright”: é o caso de “You are never alone”, de Vic Chesnutt:

Agora atentem no que Chesnutt está a cantar:

“It’s okay, you can take a valtrex
And it’s okay, you can get an abortion
And then keep on keepin’ on”

Valtrex é uma droga usada contra o herpes e aborto, toda a gente sabe o que é – de modo que o que Chesnutt nos está a dizer é que podemos pecar e continuar a pecar. Mais à frente chegamos ao refrão, que é:

“You are never alone
You are never alone
You are never alone”

Mais à frente, e parece-me que ele está a referir-se a drogas, ele canta:

“It’s okay cuttin’ down
It’s okay, you can quit tomorrow
But for now, keep on keepin’ on

But for now, keep on keepin’ on
It’s okay, you can take the bible
And it’s okay, you can be saved
And it’s okay, you can be forgiven
And for now, keep on keepin’ on
For now, keep on keepin’ on”

Antes de surgiu novo coro de “You are never alone / You are never alone / You are never alone / You are never alone”.

Chesnutt está a fazer um exercício semelhante ao de Vedder: está a dizer-nos que podemos errar, pecar, drogar-nos, falhar, que tudo isso faz parte da vida, e continuar a errar não é errado, mas (e esta é a parte de redenção da canção) convém que saibamos que não estamos sós: outros também pecam, drogam-se, abortam. O que significa que há uma saída e “you can be saved / And it’s okay, you can be forgiven”.

A versão de Chesnutt é muito mais dura, antes de mais porque ele rejeita a poesia em favor de detalhes reais: drogas, abortos, ações; ele não inventa um inimigo exterior, nem nos diz para parar – só nos diz que não estamos só e podemos ser salvos, apesar de todos os nossos erros e falhas. Que somos dignos.

Não menciono Chesnutt por acaso: aos 18 anos ficou quadraplégico do pescoço para baixo, na sequência de um acidente de automóvel, após ter estado a beber. Em 1990, aos 26 anos, editou o seu primeiro disco, Little, produzido por Michael Stipe dos R.E.M., que por sua vez o mostrou a Kurt Cobain. Chesnutt tornou-se num herói para Cobain, que o mencionou várias vezes em entrevistas, para indiferença do mundo em geral.

[“Quick Escape”:]

Se calhar não devíamos, no ano de 2020, estar a falar em Kurt Cobain a propósito de um disco novo dos Pearl Jam, mas a nossa relação com estas figuras remonta a essa época. Costumo dizer que nos tempos do grunge eu estava do lado dos Nirvana e contra todos os outros, mas não é verdade: ouvi Ten, o disco de estreia dos Pearl Jam, com prazer, embora notasse uma tendência para o canto gutural e teatral e um excesso de solos desnecessários; gostei ainda mais do segundo disco, Vs., repleto de temas monumentais: a linha de baixo de “W.M.A.”, o espantoso funk de “Rats”, o rock quase R.E.M. de “Glorified G”.

Com o tempo fui-me afastando do grunge, descobrindo novas bandas e cada vez que olhava para trás tinha cada vez mais certeza que estava do lado de Cobain e contra todos os outros (o que, acima de tudo, era uma provocação aos amigos que defendiam bandas como os Soundgarden e os Bush). Tornou-se-me claro que uma parte do grunge vinha do hardcore (os Nirvana) e a outra parte vinha do metal (Pearl Jam, Soundgarden). Os segundos tinham uma certa tendência para cantar de forma gutural e teatralizada e para exagerarem nos solos de guitarra; os Nirvana, como banda que vinha do hardcore mas com uma vertente melódica, eram minimais em tudo: Cobain pouco teatralizava a voz (aquele tom era-lhe natural, mas ampliado pela heroína) e quando havia um solo não era cá para subir e descer escalas, era para criar ruído que os magoasse.

Cobain morreu em 1994, ano em que os Pearl Jam editaram Vitalogy, um disco que aprecio de forma irregular; o primeiro verdadeiro disco da banda num mundo pós-Cobain é No Code, de 1996, em que por momentos – como em “Smile” – eles pareciam ter adotado um som algures entre os Creedence Clearwater Revival e os Crazy Horse, de Neil Young – sabem, aquela música rural sofisticada, que partia do blues e da folk mas era devolvido num som gritty de guitarras, que moía.

No Code tinha boas canções (“Who you are”, meio beatlesca, “In my tree”, a já mencionada “Smile”, a acústica “Off he goes”) mas os Pearl Jam nunca se desenvolveram realmente numa banda à Creedence Clearwater Revival ou Neil Young com os Crazy Horse, em parte porque falta aos Pearl Jam um certo lado parolo rural de terra pequena (que Cobain tinha), mas também porque a Vedder falta zanga na voz. A voz de Vedder é quase sempre um lamento pelo que os outros (normalmente os pais) fizeram.

[“Superblood Wolfmoon”:]

Essa visão que percorre a carreira da banda (de um lado os outros, que fazem o mal e nos impõem coisas, e do outro nós, que só queremos ser disfuncionais e fumar ganza à vontade) casa na perfeição com estes tempos: Gigaton é – mais uma vez – um disco sobre não desistir, resistir ao mal feito pelos outros, que – agora – tem um rosto óbvio: Donald Trump e a sua administração.

Em “Quick escape”, um retorno aos tempos iniciáticos do grunge, com riffs razoáveis, alguma guitarrada metálica, uma boa linha de baixo por trás e o ataque a Trump: Vedder está à procura de “find a place Trump hadn’t fucked up yet”. Em “Seven O’clock”, Vedder – que, ao fim e ao cabo, está vivo, tem 55 anos e ainda não passou nem por sobredoses de heroína nem por enfiar carros, bêbedo, na piscina, continua preocupado com o estado do mundo, como a letra denota:

“Then there’s Sitting Bull*** as our sitting president
Talking to his mirror, what’s he say? What’s it say back?

A tragedy of errors, who’ll be last to have a laugh?”

E mais à frente recusa-se a aceitar o estado de coisas e une-nos a todos numa vontade indómita de alterar o curso dos acontecimentos:

“For this is no time for depression or self-indulgent hesitance
This f***ed-up situation calls for all hands, all hands on deck.”

Isto não é propriamente poesia nem profecia, é um tipo de 55 anos que se habituou a ser cool e continua a ser cool. A canção beneficiaria de um hammond e uma guitarra à Creedence, lembra os Counting Crows, que em certos momentos da sua carreira conseguiram não ser tão aborrecidos quanto os Pearl Jam. (Bem sei que neste momento os fãs da banda estão a odiar-me, mas mais para o fim falaremos sobre a importância do perdão.)

Portanto, suspendam o ódio, fazei calma, que há boas canções por aqui: “Comes then goes” é uma bela balada acústica, que soa (adivinharam) meio a Neil Young meio a Creedence, e tem a vantagem de Vedder conter a sua voz; “River cross”, cuja base sonora parte de um qualquer órgão antigo, ao a uma colaboração entre Tom Waits e Michael Stipe, e é um belíssimo tema, quase solene, apropriado aos 55 anos de Vedder.

[“Dance of the Clairvoyants”:]

Os fãs de guitarrada apreciarão mais “Never destination” (seca, agressiva, rock à antiga) ou “Take the long way” (uma rockalhada rasgada para abanar a cabeça) ou mesmo das duas canções de abertura, “Who ever said” (com um solo meio glam pelo meio) e “Superblood wolfmoon” (que inclui a habitual dose de solos de metal). Mais dúbia será a reação dos fãs habituais a “Dance of the clairvoyants”, com os seus synths e guitarra funk, que infelizmente nunca chega a ser funk e podia, com alterações, ser uma boa canção dos Gang of Four.

Jesus Cristo, que tal como Eddie Vedder também era um homem preocupado com o estado da humanidade e dos nossos líderes (embora arrastasse muito menos multidões que Vedder e tivesse tido muito menos êxito comercial), disse:

“E quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe os vossos pecados. Mas se não perdoardes, tampouco vosso Pai que está nos céus vos perdoará os vossos pecados”.

E é esta a minha mensagem para vós, super-fãs dos Pearl Jam que neste momento me odeiam e consideram este texto imperdoável: acredito que para vós, Gigaton, neste momento de distopia que vivemos, signifique muito; para mim tem um par de grandes canções e muita tirada moral não propriamente imaginativa.

O que eu gostava mesmo era que os Pearl Jam fizessem um disco de uma ponta à outra à Creedence ou à Neil Young com os Crazy Horse. Na impossibilidade, que continuem a rockar num mundo cada vez menos livre.