A marca francesa anunciou esta segunda-feira que deixará de integrar o calendário da Semana da Moda de Paris, na sua edição dedicada ao pronto-a-vestir feminino. Numa mensagem veiculada nas redes sociais, a maison justificou a decisão com a atual conjuntura e demonstrou o desejo de estabelecer seu próprio ritmo de apresentações.

“Consciente das circunstâncias atuais e desta vaga de mudança radical, a Saint Laurent decidiu assumir o controlo dos seus passos e redefinir a sua agenda. Agora mais do que nunca, a marca vai dirigir o seu próprio ritmo”, pode ler-se na publicação. Respeitando uma nova noção de tempo e na procura de uma relação de maior proximidade com o seu público, a marca de luxo toma assim a decisão de deixar de participar em “calendários pré-definidos em 2020”.

Muito provavelmente, a adaptação poderá passar por apresentar as coleções mais tarde, logo, mais perto da sua chegada às lojas, contornando assim o habitual compasso de seis meses entre desfile e compra. O evento em questão acontece duas vezes por ano, em Paris, regra geral, com edições no início de março e no final de setembro.

Há quatro anos sob a direção criativa do belga Anthony Vaccarello, a Saint Laurent tem sido responsável por alguns dos momentos mais memoráveis das últimas estações, sobretudo pelos célebres desfiles noturnos com vista para a Torre Eiffel. Esta foi também a marca que deu projeção a Maria Miguel. Em setembro de 2017, com apenas 16 anos, tornou-se a primeira manequim portuguesa a desfilar para a marca. Nesse mesmo ano, Maria já tinha assinado um contrato de exclusividade com a Saint Laurent.

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Fundada por Yves Saint Laurent, em 1961, a marca tem sido, ao longo de décadas, um dos nomes mais fortes da moda parisiense, mesmo após ter deixado de apresentar coleções de alta-costura, em 2002. O criador morreu em junho de 2008, momento em que as coleções da marca já haviam passado pela mãos de Tom Ford. Atualmente, a Saint Laurent faz parte do grupo Kering, detentor ainda das marcas Gucci, Balenciaga, Bottega Veneta e Alexander McQueen.

O anúncio feito esta segunda-feira é uma baixa de peso na Semana da Moda de Paris, que continua a ser o mais prestigiado evento de moda a nível global, ao agregar os desfiles de marcas como a Chanel, a Christian Dior e a Louis Vuitton, entre outras. Para a capital francesa, decisões deste tipo são pouco frequentes, contudo outras semanas da moda internacionais têm experimentado profundas flutuações nos seus programas — foi o caso da última edição da Semana da Moda de Nova Iorque.

Imagem do último desfile da Saint Laurent, em Paris © AFP via Getty Images

Ainda sem alterações anunciadas no que diz respeito ao calendário de pronto-a-vestir feminino, esperado no final de setembro. A Fédération de la Haute Couture et de la Mode anunciou logo no final de março o cancelamento das edições de moda masculina e de alta-costura, inicialmente marcadas para decorrerem entre os dias 23 e 28 de junho e 5 e 9 de julho, respetivamente.

Os próximos meses dirão que se a retirada da Saint Laurent é, ou não, um caso isolado. Os eventos isolados, muitas vezes noutras localizações geográficas e com conceitos de apresentação próprios parecem seduzir cada vez mais as marcas de luxo, que procuram momentos e cenários que as tornem únicas. Os franceses tiveram uma amostra do poder da exceção quando a Jacquemus trocou o habitual desfile durante a semana da moda por uma passerelle cor-de-rosa num campo de lavanda, na região da Provença. Depois desse dia, seguiu-se um interregno na participação da marca no calendário oficial.