Era mais uma aula da telescola, desta vez de História e Geografia de Portugal para o 2.º Ciclo, e ia falar-se sobre a “expansão marítima do século XV” e a “manutenção do Império Colonial no século XX”. Mas a lição veio com uma polémica: um vídeo transmitido nessa aula era do historiador Rui Tavares, fundador do partido Livre.

Agora, o CDS quer explicações do Governo sobre a “escolha dos professores do projeto #EstudoEmCasa”, afirmando que o módulo de História tinha sido “parcialmente dado pelo historiador e político Rui Tavares, fundador do partido Livre e publicamente reconhecido como seu líder e porta-voz”.

No documento enviado esta segunda-feira ao presidente da Assembleia da República para ser reencaminhado para o ministro da Educação, o CDS colocou três perguntas a Tiago Brandão Rodrigues:

Considera aceitável a escolha de um político, independentemente do partido a que pertença, para ministrar aulas neste projeto? Não considera que as aulas, nomeadamente as aulas de História, devem ser dadas de forma politicamente isenta? Que medidas vão ser tomadas no sentido de corrigir esta situação, de modo a que não se repita?”, pode ler-se no documento a que o Observador teve acesso.

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O pedido de explicações surge depois de Nuno Melo ter publicado nas redes sociais uma mensagem que criticava a “escolha” de Rui Tavares “para a telescola”: “Entre tantos, Rui Tavares foi escolhido para a telescola, destilando ideologia e transformando alunos em cobaias do socialismo. Nem disfarçam. Uma aviltante e ignóbil revolução cultural em marcha que pais sem recursos não podem evitar. Política travestida de educação. Miséria”, dizia o tweet.

Acontece que Rui Tavares não deu qualquer aula no projeto #EstudoEmCasa, nem foi “escolhido para a telescola”. As imagens em que o porta-voz do Livre fala sobre a “expansão do mundo português” não são novas e o conteúdo está disponível desde dezembro de 2018 na RTP Play.

Aliás, de acordo com a apresentação feita num vídeo introdutório durante a aula da telescola, o programa foi retirado do serviço RTP Ensina. “Vamos ver um vídeo do site RTP Ensina, que a partir de fotografias nos mostram um pouco dessa Exposição”, disse Franklin, a personagem criada pela Escola Virtual e pela Leya para conduzir estes conteúdos.

Apesar disso, o momento suscitou uma polémica nas redes sociais. “Estão a usar a telescola para propaganda ideológica e a introduzir no ensino das crianças propaganda ideológica marxista de extrema-esquerda”, acusou um internauta no Twitter, sugerindo que Rui Tavares se havia referido ao Império Português como um “período negro”.

Mas a expressão “período negro” não foi usada numa referência ao Império Português pelo historiador, que respondeu ao comentário também no Twitter: “O episódio não é sobre o Império, mas sobre a Exposição do Mundo Português. A expressão ‘período negro’ não aparece. Porque mente? Porque usa um screenshot [captura de ecrã] e não o link aberto, para que todos possam ver que são contextualizados argumentos do regime, oposição e observadores? Não vale tudo”.

Noutras mensagens publicadas no Twitter, Rui Tavares esclareceu que não deu aulas na telescola: “As professoras da telescola decidiram usar um episódio de um programa meu. Está aqui, veja por si se não equilibra e contextualiza os argumentos de regime, oposição e observadores externos“, escreveu, publicando a seguir o episódio original da RTP Play.

Em declarações ao Observador, Rui Tavares sublinha que “as professoras têm direito a buscar conteúdos onde quer que seja, desde que usem esses conteúdos de acordo com a deontologia, o que, aliás, fizeram”: “As aulas eram de contextualização da utilização da Historia de Portugal pela propaganda do regime do Estado Novo. E foi nesse contexto que o programa foi utilizado”, defendeu.

O fundador e membro da Assembleia do Livre afirma que o CDS parece querer “imiscuir-se na escolha de professores” e acusa o partido de pretender “impedir alguém de desempenhar a profissão por mero facto de exercer cidadania e ter opiniões políticas”.

Tentativa essa acompanhada de um ato de difamação contra a integridade de alguém que respeita a profissão e a deontologia própria de um historiador. A questão não tem a ver com o conteúdo; tem a ver com criar um ambiente de condicionamento das escolhas, em que de hoje para amanha um professor não pode escolher os conteúdos que quer transmitir”, acrescentou.

Rui Tavares sublinhou ainda que o programa de divulgação histórica, que foi transmitida na RTP2 em 2018, contém “apenas factos verificados, contextualizados e equilibrados”. “Apliquei ao Estado Novo o mesmo crivo crítico que apliquei à Primeira República”, garantiu o historiador.

Também David Justino, antigo ministro da Educação e militante do PSD, defendeu Rui Tavares nas redes sociais, esclarecendo que “basta rever a ‘aula’ para perceber que o alarido é desonesto, manipulador e próprio de uma direita trauliteira sem escrúpulos”. “Eu não teria a paciência do Rui Tavares para responder a estes ataques. Por muito que discorde dele, neste caso tem toda a razão”.

Artigo retificado às 20h01m