Que é bom jogador, ninguém duvida. Que é um dos muitos jovens talentos nascidos nos anos 90, é evidente. Que está a perder-se cada vez em pequenas tricas, episódios sem significado e distrações evitáveis, também já é difícil de negar. Adrien Rabiot tem 25 anos, passou quase seis meses sem jogar na temporada passada por não se entender com a cúpula do PSG, está permanentemente sob a asa da mãe-agente e já abriu outra Caixa de Pandora, agora na Juventus. Pelo meio, já poucos se recordam do Rabiot que parecia ser o futuro da seleção francesa e dos gigantes europeus.

Ora, para contar a história do mais recente conflito do jovem médio, é preciso recuar à passada segunda-feira. A Juventus, assim como quase todos os clubes da Serie A, autorizou os jogadores a utilizarem as instalações do clube desde o início da semana, para que estes comecem um período de trabalho individualizado antes do regresso aos treinos, agendado para a próxima segunda-feira. Dybala, que esteve infetado e testou várias vezes positivo, foi um dos que apareceu; Cristiano Ronaldo, por ter chegado na semana passada da Madeira e ainda estar a cumprir o período de isolamento obrigatório, só está disponível na segunda-feira; Szczesny, De Ligt, Khedira, Matuidi, Alex Sandro, Danilo e Douglas Costa, todos exemplos de atletas que deixaram Itália durante a paragem e regressaram nos últimos dias, juntam-se ao grupo durante a próxima semana.

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Resumindo, só dois jogadores não compareceram em Continassa, o centro de treinos, na segunda-feira e não agendaram qualquer data para o respetivo regresso: Higuaín e Rabiot. Se Higuaín se apressou a justificar aos responsáveis da Juventus que continua na Argentina a prestar apoio à mãe, que luta contra um cancro, e que viaja para a Europa no fim de semana, Rabiot não apresentou qualquer explicação. Não apareceu para realizar trabalho individual, não disse se iria ou não aparecer na próxima segunda-feira para o primeiro treino de conjunto às ordens de Maurizio Sarri e não clarificou quando pretendia deixar França e voltar a Itália.

A imprensa italiana apressou-se a tirar conclusões e a procurar o motivo pelo qual o médio francês ainda não estava em Itália. O Corriere della Sera, um dos primeiros a dar conta da situação, garante que a ausência de Rabiot foi uma espécie de protesto contra os significativos cortes salariais aplicados ao plantel da Juventus — e que representam uma poupança de 90 milhões de euros no orçamento do clube italiano. Ora, o La Stampa, jornal de Turim, acrescenta que a permanência do jogador na Riviera Francesa foi uma “greve pessoal” contra a redução no salário e que terá sido a mãe do médio, Véronique Rabiot, a decidir que o filho não iria viajar para Itália no fim de semana passado.

Juventus Training Session

Dybala, um dos jogadores da Juventus que esteve infetado com a Covid-19, já realizou trabalho individual esta semana no centro de treinos do clube

Verónique, a mãe de Rabiot, é além de progenitora a agente do jogador — e grande responsável pela larga maioria das polémicas em que o francês tem estado envolvido nos últimos dois anos. Foi a intransigência de Verónique que deixou o médio sem jogar durante meses, com o objetivo de rejeitar a renovação com o PSG e forçar uma saída para o Barcelona que não aconteceu, e terá sido a ambição de Verónique a atrasar o regresso do jogador a Itália e à Juventus. Barry Payton, o olheiro inglês que descobriu Adrien Rabiot e o levou ainda adolescente para o Manchester City, explicou em entrevista à revista FourFourTwo que as exigências maternais serão sempre o principal problema do médio. “Ela queria uma escola como Harvard e uma casa como a de Jorge V [rei inglês do início do século XX]”, atirou Payton.

Esta terça-feira ao final do dia, Rabiot chegou a Turim. Terá de cumprir um período de isolamento obrigatório que adia o regresso aos treinos para o final do mês, numa data já muito próxima do provisório reinício da competição, marcado para o dia 13 de junho. Entretanto, nas redes sociais, respondeu à polémica e escreveu, ironicamente, que estava a aproveitar o “último dia de greve”, acrescentando um emoji com um frasco de veneno e a frase “jornais-televisões-comunicação social = não engolir”.

A Juventus não fez qualquer comentário ao episódio, Verónique Rabiot não se pronunciou publicamente e o médio já está em Itália. Certo é que, internamente, o assunto estará longe de estar sanado. Depois de ter chegado a custo zero ao clube italiano no passado verão, após o demorado litígio com o PSG, Rabiot não teve o impacto esperado, está longe de ser um indiscutível para Sarri e tem pouco tempo de utilização. O elevado salário — cerca de 7,5 milhões por época — significa, nas contas da Gazzetta dello Sport, que o jogador custou à Juventus 4.841 euros por cada minuto em campo em apenas oito meses de contrato. Tudo somado e a direção bianconeri, liderada pelo implacável Andrea Agnelli, já começa a ponderar a saída do médio francês: o destino quase certo é a Premier League, onde o Everton e o Manchester United são os principais interessados. Resta saber se Verónique aprova o negócio.