Dia 11 de dezembro de 2018. Este foi o dia do último jogo de Adrien Rabiot pelo Paris Saint-Germain (PSG). O médio francês de 23 anos jogou sete minutos frente ao Estrela Vermelha de Belgrado, na capital da Sérvia, num jogo a contar para a última jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões que os parisienses venceram por 4-1. Desde então passaram mais de três meses desde que Rabiot não joga no estádio dos parisienses – o Parque dos Príncipes. O “príncipe” foi afastado pelos responsáveis do clube após as constantes recusas para renovar o contrato, que termina no dia 30 de junho. Esta quarta-feira, a mãe, Véronique Rabiot faz capa no L’Équipe, dizendo que o filho é “prisioneiro” no clube.

O médio chegou ao clube da Cidade Luz em 2010, com apenas 15 anos, e o seu percurso não está livre de incidentes. Rabiot estreou-se pela equipa principal em 2012, frente ao Bordéus, na terceira jornada da Ligue 1. Depois de nove jogos, foi emprestado ao Toulouse para ganhar os minutos que pretendia e, por conseguinte, continuar a sua evolução. Rabiot tornou-se indiscutível na equipa do sul de França e regressou a Paris. Mas o seu lugar não estava garantido visto que o meio-campo dos parisienses continuava a ser comandado pelo capitão Thiago Motta, o internacional francês Blaise Matuidi e promissor Marco Verratti. Em 2014, descontente com a falta de jogos, foi recusando renovar contrato com o PSG até que, em outubro, finalmente rubricou a renovação até 2019, fazendo juras de amor ao clube e com o dono – Nasser Al-Khelaïfi – a congratular-se pela “assinatura mais importante do futuro do clube”.

Quatro anos volvidos e a caneta para rubricar a renovação voltou a pesar. No início desta temporada – a última prevista no contrato – os parisienses encetaram conversações com vista a prolongar o vínculo do médio. O assédio de verão do Barcelona, aliado à possibilidade dos parisienses verem o jogador sair sem a entrada de mais-valias nos cofres, fez crer que o negócio avançaria, como o Mundo Deportivo chegou a avançar. O negócio não avançou no verão e Rabiot foi recusando as várias investidas do PSG para renovar contrato, acabando por ser afastado da equipa principal em dezembro. O Barcelona voltou à carga no mercado de inverno já com a premissa de um pré-acordo com vista a uma transferência no verão. A meio ano do término do contrato com o clube parisiense, Rabiot era livre de se comprometer com outro clube. O alegado assédio do Barcelona provocou uma reação do PSG e motivou um comunicado dos catalães a desmentir o interesse no jogador. De acordo com o The Guardian, a proposta do Barça pode manter-se, mas depois de o clube blaugrana ter contratado Frenkie de Jong ao Ajax, não existem certezas.

Adrien “no campo” e a mãe com “tudo o resto”

A primeira protagonista desta novela é Véronique Rabiot que, para além de mãe, também é agente do francês. Desde muito cedo que Véronique evidenciou ser dura no que toca à gestão da carreira do filho. Em 2008, Adrien foi para as camadas jovens do Manchester City, com apenas 13 anos. A experiência nos citizens durou apenas seis meses. A revista FourFourTwo aponta as saudades de casa, a falta de apoio linguístico nas aulas, as rendas altas e a casa que nunca estava “abastecida” como as causas alegadas por Rabiot para ter saído de Inglaterra. Mas, à mesma revista, Barry Payton, o olheiro inglês que descobriu Rabiot, aponta para a exigência maternal como uma das principais causas. “Ela queria uma escola como Harvard e uma casa como a de Jorge V [rei inglês no início do século XX]”, diz Payton.

Rabiot foi emprestado ao Toulouse pelo PSG em 2012

A entrevista de Véronique Rabiot ao L’Équipe não é a primeira. Já em 2015, meses depois da renovação com o PSG, a mãe de Rabiot dava a conhecer a complexa relação que tem com o filho. “Ele está em campo e eu fico com tudo o resto”, dizia ao jornal francês. Ainda assim, Véronique garante saber separar as águas e traçar os limites da sua atuação como mãe e agente. “Não tenho medo da minha alegada reputação. Apenas estou interessada na minha relação com o Adrien”, diz Véronique. Certo é que essa “reputação” já valeu retratos caricaturescos dos média franceses, de entre os quais um do L’Équipe que sugeria que a mãe não queria que o filho jogasse pela seleção frente à Irlanda, correndo o risco de “ficar constipado”.

Rabiot foi dispensado do estágio do PSG no Catar em janeiro por “razões familiares” e foi criticado pelos adeptos. A mãe defende o filho e compara a situação do médio à de Neymar no Carnaval. “Como podem criticá-lo por ter faltado ao estágio quando a avó e o pai morreram com vinte dias de diferença em janeiro? Há jogadores lesionados que podem ir para o carnaval do Rio de Janeiro”. Na entrevista desta quarta-feira, Véronique Rabiot admite que dado o que se tem passado com o filho, o divórcio entre PSG e jogador é inevitável e Adrien ficará livre para assinar com qualquer outro clube no verão. “Com o que está a acontecer, penso que vai haver uma rescisão contratual. É complicado de prever o futuro mas, em todo o caso, o Adrien é livre em junho”.

A relação complicada com o diretor desportivo, Antero Henrique

Outra das personagens intimamente ligadas ao processo é o português Antero Henrique, diretor desportivo do Paris Saint-Germain. Com a recusa de Rabiot em prolongar o contrato, Antero decidiu afastar o jogador por “tempo indeterminado”. Um castigo que deu início a um já longo braço de ferro entre o diretor desportivo e o treinador, Thomas Tuchel.

Antero Henrique mantém a decisão de blindar os relvados a Rabiot e Thomas Tuchel manifestou várias vezes o desejo de manter o jogador. “Perguntem ao Adrien e a quem gere o clube qual a razão para que esta situação se arraste”, disse Tuchel em dezembro. Desprovido de um médio, o treinador alemão viu-se obrigado a utilizar o central Marquinhos como opção mais recuada do miolo, posição habitualmente ocupada por Rabiot. O castigo ao francês e a contratação gorada do médio Frenkie de Jong são duas razões para o duelo entre o treinador e Antero Henrique. O diretor desportivo tem sido fortemente contestado e há quem atribua culpas ao português pelo insucesso desportivo dos parisienses.

Adrien e a falta que faria um mea culpa

“Não me escondo e estou disponível para o clube. Não é uma escolha minha e se pudesse jogar, eu jogava”. Foi esta a reação de Rabiot a todo este processo. Depois da tenacidade negocial da mãe/agente e da mão pesada do diretor desportivo, resta perceber o grau de responsabilidade de Adrien Rabiot. São vários os episódios em que a culpa pode ser imputada ao médio de 23 anos. Os sucessivos descontentamentos e pedidos de tempo de jogo, as recusas em renovar e, finalmente, alguma da atividade nas redes sociais podem ser razões suficientes para o descontentamento dos adeptos parisienses.

Ainda antes da pré-época no PSG, Rabiot envolveu-se em polémica. O selecionador francês Didier Deschamps colocou o jogador na lista das reservas para o Mundial 2018, algo que faria com que Rabiot apenas fosse chamado caso alguém se lesionasse, por exemplo, e o médio pediu para ser retirado dessa lista. Numa carta enviada à RTL, Adrien alegou critério desportivo duvidoso por parte do treinador. “Considero que a convocatória não obedeceu a nenhuma lógica desportiva porque em todos estes anos a mensagem foi clara: é a performance nos clubes que abre as portas para a seleção”, esclareceu. Sem jogar no PSG, Rabiot também já parte atrás na corrida ao Euro 2020, cuja qualificação começa já no final desta semana.

Rabiot integrou a seleção francesa na fase de qualificação para o Mundial 2018

Ausente do Mundial e da conquista do troféu por parte dos compatriotas, era tempo de voltar ao clube… e a mais polémica. Com a chegada de Thomas Tuchel ao comando técnico, Rabiot terá recusado encontrar-se com o treinador no início da pré-temporada, segundo avançou a rádio francesa RTL. O francês queria ver a transferência para o Barcelona concluída e a recusa do PSG em dar luz verde ao negócio precipitou o conflito. A situação chegou ao limite quando o médio ameaçou avançar para tribunal caso o PSG não resolvesse a situação, de acordo com o diário Sport.

Com quase dez anos e mais de 200 jogos ao serviço do Paris Saint-Germain, o percurso de Rabiot pode prosseguir longe da capital francesa. O AS noticia que esta quarta-feira haverá uma reunião de emergência entre o clube, o jogador e a mãe. De acordo com o jornal catalão, não haverá fumo branco e o desfecho é inevitável: a rescisão contratual. Com apenas 23 anos, Adrien Rabiot já conta com 17 títulos no currículo e todos ao serviço do clube do Parque dos Príncipes. O caminho de Rabiot pode estar traçado e o “príncipe” pode ver-se livre do parque brevemente.