Associações e coletividades da região Centro estimam perdas de receitas e problemas na sua atividade atual e futura, devido à pandemia de Covid-19, que resultou no cancelamento de festividades e celebrações previstas.

Na cidade da Guarda, o Centro Social da Póvoa do Mileu, sobrevive com os subsídios atribuídos pela Câmara Municipal e com as receitas das atuações do Grupo de Cavaquinhos, obtidas com a participação na iniciativa “Santos do Bairro” (que inclui marchas populares e tasquinhas) e que este ano foi cancelada.

“Não entra dinheiro [na associação] desde fevereiro. Tínhamos atuações do Grupo de Cavaquinhos em março e abril e não se realizaram. As marcações foram todas canceladas. Costumávamos ter os meses de agosto e de setembro muito preenchidos, mas acredito que este ano não vamos ter saídas, porque as festas populares não se vão fazer”, disse à agência Lusa Rosa Caramelo, da direção do Centro Social da Póvoa do Mileu.

A coletividade está “com as pernas e com as mãos atadas” e vê-se obrigada a adiar o projeto de construção das novas instalações, que inclui valências para a terceira idade e infância, acrescentou.

Em Miranda do Corvo, a participação na Expo-Miranda, feira de promoção do tecido socioeconómico daquele concelho no interior do distrito de Coimbra, era a maior fonte de receita extraordinária dos Bombeiros Voluntários locais, que exploravam uma tasquinha de servir refeições no espaço do certame, que, este ano, não se realiza devido à pandemia causada pelo novo coronavírus.

“Além de promovermos a gastronomia do concelho, era uma boa fonte de receitas, sem investimento, cujas verbas já contribuíram para a aquisição de três ou quatro ambulâncias”, disse à agência Lusa Hermenegildo Santos, adjunto do comando da corporação.

Segundo o bombeiro, que coordena a participação da instituição no certame, a Expo-Miranda era o evento que ajudava a corporação de Voluntários “a respirar melhor”.

O cancelamento da iniciativa, que devia realizar-se entre o final de maio e os primeiros dias de junho, levou também o rancho folclórico “As Tecedeiras dos Moinhos” a ficar privado da sua maior fonte de receita anual.

“Era uma ajuda significativa, que nos proporcionava entre 1.500 a 2.000 euros de receita limpa”, salienta Vítor Antunes, presidente do grupo etnográfico, que também explorava uma tasquinha de refeições no certame.

Com a atividade e as deslocações canceladas, o dirigente do rancho folclórico refere, no entanto, que a situação financeira deverá ficar equilibrada, porque “também não há despesas com saídas” e com a realização do festival que organizavam no início de julho.

Já na Figueira da Foz, município que conta com cerca de centena e meia de associações e coletividades de vária índole, a pandemia de Covid-19 tem afetado a atividade de muitas, como a Sociedade Filarmónica Paionense, que, em março, se viu privada de festejar o seu 162.º aniversário.

“Não houve festa, foi tudo cancelado e agora estamos a viver um dia de cada vez, como se costuma dizer”, desabafa Ana Bela Santiago, presidente da instituição localizada na freguesia de Paião, no sul do concelho litoral do distrito de Coimbra.

A situação, nomeadamente a da banda filarmónica de 45 elementos, “não está famosa”, dado existirem despesas fixas e as receitas, nesta altura, não entram, adiantou.

“A banda não se consegue sustentar a ela própria. Ainda agora investimos num novo fardamento, porque o outro já era muito antigo, estava já com varias cores de várias gerações de uso e ainda não o conseguimos mostrar. Todas as atividades programadas que iam ajudar a casa, a manutenção e o arranjo de instrumentos e o pagamento ao maestro e professores de música [de uma escola com cerca de 30 alunos] foram canceladas”, observou Ana Bela Santiago.

O cancelamento do desfile de marchas populares, previsto para 23 de junho nas festas da cidade, levou, por outro lado, a que as costureiras da Sociedade Filarmónica Paionense, responsáveis pelos fatos, passassem a fazer batas, em regime de voluntariado, para entregar ao hospital distrital da Figueira da Foz.

A própria dinâmica associativa também sofreu com os efeitos da pandemia, já que a instituição “estava aberta todos os dias”, acolhendo, para além da banda filarmónica, um grupo sénior da freguesia, uma charanga de rua, grupo de cavaquinhos, orquestra ligeira e atividades de zumba, dança e teatro.

Para já, a Sociedade Filarmónica Paionense espera a entrada nos cofres do apoio financeiro aprovado em abril pela Câmara Municipal, que corresponde ao adiantamento de 70% do apoio regular, relativo a eventos, parcerias e atividades realizadas em 2019.

“Já enviámos os documentos, mas dinheiro físico ainda não há, estamos à espera”, resumiu Ana Bela Santiago.