Os profissionais de saúde pública “fliparam”. Ou seja, estão “muito cansados e esgotados” porque trabalham, desde o início da pandemia, 24 sobre 24horas, sete dias por semana. A expressão foi usada por Mário Durval, delegado de saúde pública da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, esta quinta-feira, durante a reunião no Infarmed, que reuniu especialistas e políticos para analisar a situação epidemiológica da Covid-19 em Portugal.

Ao Observador, Mário Durval explica que, naquele contexto, lhe pareceu apropriado utilizar a expressão “fliparam” — sem imaginar que seria, depois, reproduzida pelo médico e deputado do PSD, Ricardo Batista Leite, à saída da reunião. Batista Leite revelou preocupação com a “sobrecarga de trabalho” a que os profissionais de saúde pública de Lisboa e Vale do Tejo estão sujeitos e comentou com os jornalistas que a “vigilância epidemiológica é critica”, acrescentando, ainda, que o responsável pela saúde pública da região deixou “muito explicito” que alguns desses profissionais “atingiram o esgotamento”. “Usou o termo fliparam”, concluiu o deputado.

Mário Durval, o autor da expressão, não retira uma vírgula às declarações do deputado Batista Leite (nem ao verbo “flipar”) e acrescenta que, apesar do seu “desabafo” na reunião do Infarmed, ninguém na sala lhe colocou alguma questão sobre o assunto. “Mas todos se mostraram preocupados”, assume o especialista em saúde pública, uma vez que o tema principal era a avaliação dos surtos na Região de Lisboa e Vale do Tejo.

No entanto, para Mário Durval esta chamada de atenção era fundamental, ao mesmo tempo que reconhece que muitos dos problemas, como a falta de médicos de saúde pública (assim como de médicos de família) não surgiram agora, mas agravaram-se com a Covid-19. Já Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, realça os “problemas” no processamento das compensações dos médicos pelas “horas extraordinárias” realizadas durante a pandemia.

Sem tempo para a vigilância ativa

Os dois concordam que a “manta é curta”, como diz Mário Durval, o que significa que os “recursos humanos não são suficientes” para continuar a dar resposta ao trabalho necessário para “estudar a doença”, o que obriga à realização de inquéritos epidemiológicos e de uma vigilância ativa. E se alguns inquéritos podem demorar dez minutos, “outros chegam a levar duas ou três horas”. É uma tarefa minuciosa, quase como um “detetive” de bata branca, sempre agarrado ao telefone, a entrevistar os doentes confirmados, a refazer o caminho que estes percorreram nos dias antes do resultado da análise, e ao mesmo tempo a acompanhar os seus contactos próximos. Mas é assim que se “apanha o fio à meada”, de forma a olhar para a doença como um todo. O problema, reconhece Mário Durval, é que essa falta de meios e recursos humanos faz com que o trabalho se atrase — situações ainda “pontuais”, mas que também se devem ao facto de os delegados de saúde não terem “mãos a medir”.

Expostas as fragilidades da saúde pública, resta agora saber se vão ser ultrapassadas a tempo de responderem ao pico de casos ativos de Covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo, que deverá ocorrer na terceira semana de junho, de acordo com um estudo da Cotec e da Universidade Nova de Lisboa.

Para já fica a garantia, dada por Mário Durval, de que na próxima semana se vai proceder a uma “melhor divisão” das tarefas, de forma a libertar os médicos e profissionais de saúde pública do que “não é essencial”, para que se possam “concentrar nos inquéritos epidemiológicos”. Avança ainda com a possibilidade de ter de se recorrer a outras áreas da saúde, como já acontece com a enfermagem, para reforçar o serviço.

E se durante os meses de confinamento, que coincidiram com o estado de emergência, os profissionais de saúde pública tiveram o apoio dos médicos de família em algumas tarefas administrativas, também é verdade que essa colaboração tem vindo a perder força à medida que os centros de saúde retomam as consultas e a relação com os utentes. Uma ajuda que Mário Durval reconhece que foi fundamental. “Caso contrário, tínhamos rebentado.”

No caso da vigilância ativa, que consiste no contacto com os doentes (quase sempre por telefone), uma vez por dia, para fazer o ponto de situação relativamente aos sintomas — assim como informar o doente de algumas medidas a tomar — é Ricardo Mexia, médico do Departamento de Epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge, quem sugere que seja feita por outro profissional. Por exemplo, um “técnico superior”.

A medida poderia aliviar o “aumento da carga de trabalho” dos últimos meses, segundo o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, porque a tarefa não necessita de ser executada por alguém com competências médicas. Já os inquéritos epidemiológicos têm de continuar a ser da “exclusiva responsabilidade” dos profissionais de saúde.