– Com estas máscaras há garantia de que duramos até aos 100 anos.

Aos 82 anos, Pinto da Costa voltou este domingo a alcançar mais um mandato histórico na liderança do Futebol Clube do Porto – o 15.º na sua carreira. Não promete que tudo vá durar até aos 100 anos – como a máscara que um adepto lhe ofereceu à saída dos camarotes e que, em tom de brincadeira, disse que duravam até essa idade –, mas quem, este fim de semana, passou pelo Dragão Arena mostrou que o quer continuar a ver na presidência dos Dragões, com 68,85% dos votos a seu favor e numas eleições que se tornaram históricas por ser a primeira vez que Pinto da Costa teve dois adversários na corrida à liderança. José Fernando Rio ficou em segundo lugar, com 24,44% dos votos, e Nuno Lobo em terceiro, com 4,91% da votação.

Foi na zona dos camarotes do Dragão Arena que Pinto da Costa passou a tarde deste domingo (depois de ter estado algumas horas no espaço no sábado), num entra e sai para cumprimentar adeptos e ver o cenário cá fora até que as urnas fechassem. O atual líder portista dizia estar tranquilo com o que poderiam vir a ser os resultados e satisfeito com o número de adeptos que foram às urnas. Pelo meio, tirava fotografias com os sócios e ia ouvindo alguns cânticos. Do outro lado do pavilhão, a fila de sócios continuava num rodopio, entre os mais jovens equipados a rigor aos mais velhos que, com o cachecol ao pescoço, liam o jornal enquanto a fila avançava.

Numa das vezes em que Pinto da Costa saiu da zona dos camarotes levou uma máscara oferecida por um adepto (Ana Catarina Peixoto/Observador)

Durante o fim de semana, das 10h às 19h de sábado e domingo, 8.480 sócios votaram para a presidência dos Dragões, um valor que superou o recorde do maior número de votantes este século, ficando apenas atrás do sufrágio de 1988, quando votaram 10.780 sócios. “Isto só revela a vitalidade do FC Porto e toda esta massa adepta que está aqui é sinal de um clube vivo”, refere ao Observador Torcato Sousa, sócio do clube há mais de 50 anos, que espera na fila, acompanhado da sua mulher, para poder votar ainda antes das 19h. Pelo meio, era cumprimentado por vários portistas.

Oficial: Pinto da Costa reeleito para o 15.º mandato como presidente do FC Porto com 68,65%

“Isto ainda não parou”, comentava-se à entrada, enquanto cada vez mais sócios se dirigiam para o pavilhão. O movimento junto ao Estádio do Dragão foi, aliás, visível durante os dois dias de votação: as filas eram constantes e chegavam a passar a estação do metro, houve motorizadas que passavam a reproduzir cânticos de apoio ao clube e penduravam-se no estádio faixas com o rosto de Pinto da Costa e a palavra “eterno”. Para Torcato Sousa a esperança será sempre que “o FC Porto saia deste fosso financeiro”, seja quem for o presidente.

“É um caos e não encontro uma justificação razoável para que isto esteja a acontecer e espero que melhore substancialmente e que algumas mordomias acabem aqui dentro do clube. Sou sócio do FC Porto há mais de 50 anos, já vi muita coisa, tenho lugar anual com a minha mulher e os meus filhos e, como tal, sou contribuinte do clube porque amo o FC Porto e entendo que as coisas não estão tão bem como seria desejável”, desabafa o adepto enquanto espera para entrar.

A caneta que Torcato vai utilizar para votar será uma sua, tal como foi recomendado pela mesa da Assembleia Geral devido à pandemia de Covid-19, outra das razões para tornar estas eleições ainda mais diferentes, uma vez que houve regras de segurança e higiene específicas. “Estava à espera que estivesse bastante gente porque o FC Porto é muito grande. E numa instituição como esta, com mais de 125 anos, era de esperar isto. É o Porto, na sua essência e que nós amamos”, sublinha ainda o adepto.

Máscaras, caneta, distanciamento e uma afluência recorde este século. O primeiro dia de eleições do FC Porto durante a pandemia

Também Agostinho Santos, sócio do FC Porto há mais de 30 anos, espera que o que venha “seja bom”. É a primeira vez que vem votar, está acompanhado de máscara junto à estação de metro e aproveitou uma altura de menor afluência (depois de passar pela fila duas vezes durante o dia) para vir exercer o direto ao voto. O grande número de adeptos que apareceram no fim de semana, refere, é também um sinal de que Pinto da Costa também tem opositores.

Temos um passado com um brilho extraordinário e, qualquer que seja o resultado, o FC Porto vai brilhar e vai continuar. É evidente que nós todos estamos um pouco desgostosos com os tempos em que o FC Porto vive, com alguma dificuldade económica que nós não conseguimos entender, mas de qualquer maneira esta vitalidade diz-nos que o Porto é muito grande”, acrescenta Agostinho Santos.

À medida que as 19 horas, momento de fecho das urnas, se aproximavam, também a organização começava a fazer algumas alterações para que tudo ficasse tratado. A certo ponto, a fila de entrada para o Dragão Arena dividiu-se em dois para facilitar a entrada:do sócio número 1 ao 50.000 e do 50.001 para a frente. De fora  temporariamente ficavam muitos que ainda tinham de pagar as quotas para conseguirem ir votar – e que o aproveitavam para fazer com membros da organização ali no local. “A bicha estava muito até lá abaixo”, comenta um adepto que passa pelo Dragão.

A fila de adeptos foi longa durante os dois dias de votação (Ana Catarina Peixoto/Observador)

Já Agostinho Santos acrescenta: “Esta é uma prova evidente do contrário daqueles que diziam que o Porto não tinha democracia, não tinha liberdade e que isto era uma ditadura. Aqui cada pessoa é um voto, o que é muito importante”. Dez minutos antes das 19h, já a fila tinha terminado e cada adepto que aparecia ali entrava de imediato. Fernando Madureira, líder da claque dos Super Dragões, ia ajudando na entrada e esperava pelo fecho oficial das urnas.

Às 19h, as forças de segurança colocaram as grades para encerrar a entrada no Dragão Arena, ainda que já não estivessem adeptos à espera. Estavam encerradas as urnas. Ao mesmo tempo, dezenas de portistas juntavam-se na zona dos camarotes para saber os resultados das eleições, que só chegariam cerca de três horas depois, quando Pinto da Costa, sob grandes aplausos e cânticos, saiu para falar aos jornalistas ainda antes de os números oficiais serem revelados. “Para quem pôs em dúvida como poderia correr, para quem levantou suspeitas da seriedade que iria ter, foi uma resposta que a massa associativa deu de uma maneira extraordinária”, referiu o reeleito presidente do FC Porto.

Pinto da Costa prometeu que fará “tudo pelo FC Porto” e deixou em aberto se este será ou não o seu último mandato. “Só faço previsões a três anos, daqui a quatro não lhe posso dizer nada”, respondeu aos jornalistas. Enquanto Pinto da Costa volta à liderança, Agostinho Santos, o adepto que também foi votar, tem uma certeza, independentemente de quem está no cargo de presidente: “O que vier é bom para o FC Porto”. 

Um dicionário para perceber os 13.925 dias de Pinto da Costa na liderança do FC Porto, do Apito Dourado ao Zé do Boné