Benfica e FC Porto numa Taça de Portugal é uma equação que tem na vitória dos encarnados uma regra (foi assim em 1953, 1959, 1964, 1980, 1981, 1983, 1985 e 2004) e que conheceu uma única exceção (1958). E houve resultados para todos os gostos, das goleadas (5-0 ou 6-2) aos triunfos no prolongamento (2-1), passando pelas vitórias pela margem mínima. Uma delas, a de 1980, teve um gosto especial depois do jejum de títulos nas duas temporadas anteriores, até pela forma como foi conseguido num encontro quezilento, com agressões e entradas duras que não foram sancionadas, e um único golo do brasileiro César na primeira parte a decidir um jogo de casa cheia. Mas foi essa, a de 1980, que precipitou aquilo que ainda hoje é o FC Porto, com Pinto da Costa a liderar os dragões.

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Puxemos o filme atrás. Rewind até 1969. Pinto da Costa começou a habituar-se a ir a jogos do FC Porto ainda antes de ter dez anos, entre futebol e hóquei em patins. Com 20, passou pela secção de hóquei em campo, que chegou até a liderar, foi depois para o boxe, subiu mais um pouco e foi convidado por Afonso Pinto de Magalhães para integrar os órgãos sociais, ficando responsável por todas as modalidades ditas amadoras dos azuis e brancos. Três anos depois, nas eleições, foi convidado por Américo de Sá para continuar no clube e nas suas listas mas aconselhou aquele que seria até então o líder com mais tempo seguido no cargo a renovar por completo todo o elenco. Assim foi. Mas não conseguiu aguentar apenas como adepto, sobretudo depois de uma conversa de amigos, como o próprio admitiu na autobiografia a propósito da ida de Albertino para o Bessa. Voltou e para um cargo que nunca tinha ocupado, com a “bênção” de Américo de Sá. E trabalhou logo no regresso de José Maria Pedroto.

Até esse regresso, o FC Porto não ganhou nenhum título no futebol. A conversa dos amigos não lhe caiu bem mas também esse longo jejum mexia com Pinto da Costa, que considerou ter no Zé do Boné o segredo para acabar de vez com a falta de títulos. Acertou, a todos os níveis: em 1977 os azuis e brancos ganharam a Taça, no ano seguinte reconquistaram o Campeonato que não venciam há 19 anos, em 1979 foram bicampeões, em 1980 falharam um inédito tricampeonato entre muitas críticas em relação aos poderes da capital que não queriam que o FC Porto voltasse a ganhar. Pedroto era descrito por companheiros e rivais como um homem à frente do seu tempo, Pinto da Costa deu a organização que faltava ao departamento e juntos tinham um discurso muito focado nos “inimigos externos”, bem mais do que Américo de Sá, bem mais “polido” nessa matéria. E foi essa final da Taça de Portugal no Jamor que cravou a desavença total da dupla com o presidente portista.

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A 7 de junho de 1980, o Estádio Nacional assistiu a fenómenos que seriam hoje impensáveis. Exemplos: um cartaz dedicado apenas a Pedroto que dizia “Oh Bocas, querias mas nem Campeonato nem Taça, José Maria Maroto”; uma bandeira do Sporting e outra do Belenenses no meio de dezenas de adereços dos encarnados; um cartaz com o símbolo do Sporting onde estava escrito “Avante Benfica, o Porto para a Taça das Barracas”. Mais do que uma batalha entre FC Porto e Benfica, o Jamor parecia ser palco de uma luta entre Norte e Sul, entre Porto e Lisboa. E o próprio ambiente criado à volta deste encontro decisivo acabou por potenciar também os excessos em campo.

Há uma imagem que define tudo o resto – e que hoje passa a barreira do impensável supracitada. Aliás, impossível ainda era pouco. Do que falamos? Os repórteres de pista podiam estar próximos dos bancos e bastava o microfone chegar-se ao pé de um dos protagonistas para falarem in loco sobre o que estava a acontecer. Foi isso que aconteceu num lance com o médio benfiquista Carlos Manuel, que agrediu um adversário junto à linha. “O que foi isto? Foi que o juiz de linha viu perfeitamente que o Carlos Manuel agrediu o nosso jogador aqui à nossa frente e confirmou ao árbitro, não sei o que é que ele vai fazer agora”, disse Pinto da Costa no banco. “De momento não foi ninguém mandado para a rua, houve apenas uma chamada de atenção à rapaziada para manter a calma”, explicou em direto também o árbitro, César Correia. O ambiente estava escaldante nas quatro linhas.

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César, com um remate à entrada da área colocado que não deu hipóteses a Fonseca mas que deixou o guarda-redes a reclamar com os seus defesas perante a passividade com que abordaram o lance, fez o único golo do encontro, que terminou com José Maria Pedroto a admitir que era possível que aquele fosse o último jogo oficial pelo FC Porto. Até invasão de campo (essa pacífica) no final houve, entre incidentes com a comitiva dos azuis e brancos. 

A falta de cobertura do presidente à minha luta contra as forças da capital, o vir a saber que, enquanto cercados por uma multidão enfurecida, na Tribuna de Honra do Estádio Nacional, Américo de Sá confraternizava, entre outros, com o dr. Martins Canaverde, influente deputado do CDS e dirigente histórico do Benfica, leva-me a pensar que não valerá a pena continuar, quase sozinho, a luta contra os interesses do centralismo”, declarou no final Pinto da Costa, que sairia do clube nessa altura.

José Maria Pedroto não ficou atrás e, num comunicado assinado com a restante equipa técnica, chamou “traidor” a Américo de Sá, uma figura “que vendia a Lisboa a figura do FC Porto”. O treinador suspenso e saiu a seguir. Já os jogadores mostravam-se solidários com Pinto da Costa e Pedroto e ameaçaram com rescisão coletiva. Nem mesmo as férias acalmaram os ânimos, com 14 jogadores a entrarem em greve e a fazerem a sua preparação à parte do restante plantel, em Santa Cruz do Bispo. Todas as grandes figuras da equipa estavam lá, sendo que Fernando Gomes (vendido ao Sporting Gijón) e António Oliveira (que passou a treinador-jogador do Penafiel), entre outros, não mais voltariam nesse período que ficou conhecido como o Verão Quente dos azuis e brancos.

Três semanas depois, o grupo (ou o que sobrou dele) voltou mas o caminho “normal” da história estava mudado de vez. Pinto da Costa, que se mostrava confortável com a posição de chefe de departamento do futebol, começou a ambicionar mais pelo choque com o então líder, que acusava “de se condicionar ao poder de Lisboa e que queria fazer o FC Porto um quinta do seu partido, o CDS”. Américo de Sá respondeu, dizendo que o antigo dirigente queria ser dono do FC Porto e que a dupla com Pedroto era orgulhosa, vaidosa e com demasiadas ambições para as quais contribuíam com um ambiente de guerrilha que acaba por prejudicar a formação azul e branca.

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Hermann Stessl, austríaco então com 40 anos que passara antes por Áustria de Viena e pelo AEK Atenas, foi o escolhido para suceder a Pedroto. Mais uma vez, o FC Porto entrou num período sem qualquer título e, no final de 1981, quando um grupo de associados desafiou Pinto da Costa a avançar com uma candidatura às eleições de abril de 1982, o antigo chefe do departamento de futebol aceitou, Américo de Sá percebeu de imediato que acabava ali o seu reinado de cinco anos e Pedroto preparou-se para voltar às Antas. Não foi o único regresso, porque Pinto da Costa cumpriu a promessa de resgatar também Gomes à Liga espanhola. O resto é história. Uma história que teria sido diferente se o FC Porto tivesse superado o jogo com o Benfica na final da Taça de Portugal. Faz agora 40 anos. E como ficaram os títulos na prova rainha desde 1982? O Benfica tinha 17, passou para 26. Mais nove. O Sporting tinha 11, passou para 17. Mais seis. O FC Porto tinha quatro, passou para 16. Mais 12.