Primeiro foram os três anos de Cesário Bonito naquela que foi a terceira passagem pelo cargo, a seguir os cinco anos de Afonso Pinto de Magalhães, por fim os dez anos de Américo Sá. Até à década de 50, a liderança do FC Porto era mantida entre um a três anos, havendo depois alguns casos de quem mais tarde voltava como aconteceu com Eduardo Drumont Villares, presidente na primeira vitória na I Liga, e com Júlio Ribeiro Campos, criador do jornal O Porto. Cesário Bonito, esse, liderou nos anos 40, nos anos 50 e nos anos 60 – e é a principal inspiração.

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Foi no reinado de Afonso Pinto de Magalhães, o senhor Sonae, que Pinto da Costa assumiu responsabilidades de maior peso nas modalidades, nomeadamente no boxe e no hóquei em campo, entre outras. E foi no reinado de Américo de Sá que Pinto da Costa assumiu o departamento de futebol, criando com o técnico José Maria Pedroto a génese do que viria a ser a metamorfose portista a partir dos anos 80. No entanto, a maior inspiração para a figura que liderou os destinos do clube nos últimos 38 anos foi mesmo César Bonito, alguém que descreveu como “um homem de grande carácter, leal, destemido, inteligente, sem papas na língua e um verdadeiro líder”. “Foi o primeiro dirigente capaz de se levantar contra o despotismo do poder central”, destacou.

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O perfil dos presidentes mais marcantes do clube antes de Pinto da Costa, de José Monteiro da Costa até Américo de Sá, passando por Cesário Bonito, Abílio Urgel Horta e Afonso Pinto de Magalhães.

José Monteiro da Costa, o guardião que deu nome ao primeiro troféu

Para alguns ainda continua a ser o fundador do FC Porto, para outros é na verdade o “refundador” do FC Porto. Em qualquer uma das versões, José Monteiro da Costa, nascido em 1881 e que morreu com apenas 30 anos em 1911, foi o primeiro líder dos azuis e brancos, tendo sido também jogador do Grupo do Destino e do FC Porto. O que se conhece hoje dos dragões começou nele: as cores, as mesmas da bandeira da Pátria de Portugal; o nome, que coincidia com o da cidade. Peso e halteres, luta, atletismo, patinagem, ténis de campo e natação foram as primeiras modalidades do clube mas entretanto estava em construção aquele que seria o primeiro campo, na Rua da Rainha.

Em 1893, altura em que a aristocracia inglesa tinha trazido o desporto para a cidade, António Nicolau d’Almeida tinha fundado do Foot-ball Club do Porto que acabou por não ter grande continuidade até pela associação feita aos britânicos, mal vistos após o ultimato de 1890. José Monteiro da Costa, administrador de uma empresa ligada à floricultura que passara por Inglaterra e ficara encantado com o jogo, quis criar um clube e foi então que Nicolau d’Almeida lhe falou do projeto que iniciara antes. O Grupo do Destino passou então para o FC Porto, com Monteiro da Costa a ser o primeiro guarda-redes da equipa azul e branca. Depois de falecer, foi criada uma taça com o seu nome e seria esse o primeiro título de sempre conquistado pelos dragões, ainda no ano de 1911.

Cesário Bonito, um doutor na luta contra o “despotismo do poder central”

Três eleições, um total de quase dez anos e um sem número de histórias que ficaram na história do FC Porto. Nascido em Peso da Régua, Cesário Bonito chegou a passar pelas camadas jovens do futebol azul e branco, foi vice de Luís Ferreira Alves e chegou pela primeira vez à presidência do clube em 1945 para um período inicial de quatros anos que se repetiria entre 1955 e 1957 (sendo que pelo meio ainda passou pela Assembleia Geral – e depois passaria também pela liderança do Conselho Fiscal e Disciplinar) e, mais tarde, entre 1965 e 1967. Pelo meio, na condição de médico cirurgião de renome que era, fez uma delicada cirurgia à vista de Miguel Arcanjo que permitiu que o defesa angolano fizesse 15 anos de carreira nos azuis e brancos nas décadas de 50 e 60. “Foi o primeiro dirigente capaz de se levantar contra o despotismo do poder central”, comentou anos depois Pinto da Costa, que o viria a distinguir em 1983 como Presidente Honorário (em 1952 foi feito Sócio Honorário).

Ao longo dos três reinados, e entre os títulos conquistados (nomeadamente um que quebrou um longo jejum de 16 anos sem ganhar o Campeonato), o “doutor Bonito” teve três grandes coroas: a forma como batalhou e conseguiu estabelecer o novo estádio na zona das Antas e não da Vilarinha, tendo mesmo assinado a escritura definitiva da compra dos terrenos; a inauguração do Lar do Jogador nos anos 50, uma obra importante no contexto em que foi criado; e uma suspensão de três anos aplicada pela Federação, que meses depois seria revogada, num episódio que ainda hoje é recordado por Pinto da Costa. Em 1955/56, o clássico com o Sporting foi adiado depois de Travassos, um dos Cinco Violinos dos leões, ter ficado retido em Madrid após um jogo da Seleção, o FC Porto protestou, o presidente foi castigado mas os dragões do brasileiro Dorival Yustrich, conhecido por ser um dos treinadores mais “autoritários” no futebol nacional até essa fase, ganharam e seriam mesmo campeões.

Abílio Urgel Horta, o padrinho das Antas (ou da “obra feita”)

Nascido em Torre de Moncorvo mas radicado na cidade do Porto, onde estudou medicina antes de se especializar em oftalmologia em França (sendo também vital na recuperação de Arcanjo), Abílio Urgel Horta, que mais tarde viria a ser deputado da Assembleia Nacional liderou o FC Porto em dois momentos, nos anos 20 (1928-29) e no início dos anos 50 (1951-1954). Foi sobretudo no segundo mandato que se destacou, inaugurando o estádio das Antas num ano onde os dragões celebraram também a primeira vitória no Campeonato de basquetebol e de hóquei em campo, além de outros triunfos nas modalidades como andebol de 11 ou na Volta a Portugal.

Ficou conhecido como o “presidente da obra feita”, por ter concluído as obras do novo recinto num período mais complicado em termos financeiros, onde conseguiu fazer reajustes sem perder competitividade nas modalidades dos azuis e brancos que permitiram um outro equilíbrio nas contas do FC Porto no início da década de 50. Além de ter trabalhado no Hospital de Santo António e de ter sido secretário da Associação Médica do Porto, esteve em três legislaturas, com os pelouros de “Trabalho, Previdência e Assistência Social” e “Ultramar”.

Afonso Pinto de Magalhães, o senhor Sonae que deu património

Nascido na freguesia no Burgo, Afonso Pinto de Magalhães foi sobretudo reconhecido por ter sido o fundador da Sonae, um dos grupos económicos mais poderosos do país, e um dos fundadores da Casa Bancária Pinto de Magalhães (mais tarde Banco Pinto de Magalhães), entre outras grandes empresas na área dos hipermercados, mas esteve também cinco anos na liderança do FC Porto, o seu clube de sempre, no seguimento do terceiro período de vigência de César Bonito, entre 1967 e 1972 – sendo que antes já tinha feito parte também dos órgãos sociais, como presidente do Conselho Fiscal e Disciplinar, com Césario Bonito no comando da Direção do clube.

Já depois de ter ajudado o FC Porto numa altura mais complicada em termos financeiros a meio da década de 60 (o passivo já passava os 11 mil contos e as dívidas vencidas avolumavam-se), o empresário e banqueiro que antes tinha estado na contratação do brasileiro Yustrich teve vários marcos ao longo dos cinco anos no cargo e que foram muito além do futebol (onde não foi além da conquista da Taça de Portugal em 1968, na primeira época no clube): conseguiu aumentar num terço o número de sócios pagantes dos dragões no primeiro ano de mandato, iniciou a construção de património importante para as modalidades como pavilhões, as piscinas das Antas ou a sala de troféus e conseguiu também festejar o primeiro título de sempre do voleibol. Foi também no seu reinado que Pinto da Costa assumiu outras responsabilidades os azuis e brancos, neste caso no hóquei em campo e no boxe.

Américo Sá, da aposta em Pinto da Costa ao Verão Quente

De forma inevitável, Américo Sá, nascido em 1931 na Póvoa de Varzim, fica associado ao que se viria a apelidar de Verão Quente no FC Porto, quando em 1980 os azuis e brancos não conseguiram o terceiro Campeonato consecutivo, Pinto da Costa e José Maria Pedroto apontaram o dedo aos poderes instalados no Sul e acabaram por sair e 15 jogadores entraram em greve enquanto trocavam comunicados duros com a Direção antes de voltarem (quase todos, porque Gomes, Octávio e Oliveira saíram) aos treinos. A derrota na final da Taça de Portugal com o Benfica e o comportamento do líder na Tribuna do Jamor funcionaram como gatilho para tudo o resto, sendo que, sem a dupla que regressaria às Antas anos depois, a equipa ganhou apenas uma Supertaça até 1982. Ainda assim, além de ter sido o presidente com mandato mais longo, teve vários pontos relevantes na história do clube.

Depois de já ter feito parte de algumas listas de órgãos sociais, Américo de Sá, que foi deputados pelo CDS na Assembleia da República e passou pela Câmara Municipal do Porto, ficou como o líder que construiu a zona da Arquibancada das Antas e também o Pavilhão Gimnodesportivo durante anos a fio utilizado pelas modalidades do clube (que ali foram campeãs no basquetebol, no andebol e no hóquei em patins), que ganhou o seu nome. Foi dele a aposta em Pinto da Costa para chefe do departamento de futebol dos dragões, em 1976, com a equipa a ganhar uma Taça de Portugal e dois Campeonatos em anos consecutivos (neste caso a quebrar um jejum de quase duas décadas sem vitórias na principal competição nacional) além ter ainda alcançado a primeira vitória de sempre fora na Taça dos Clubes Campeões Europeus e logo contra o AC Milan, em 1979, com golo de Duda. Receberia anos depois a distinção de Presidente Honorário, além de ser galardoado com um Dragão de Ouro.

O Observador vai escrever todos os dias um artigo sobre as eleições do FC Porto, a 6 e 7 de junho