Mário de Araújo Cabral ficará para sempre conhecido como Nicha Cabral. Nascido em Cedofeita, no Porto, filho de uma família abastada e com ligação ao mundo dos têxteis, foi viver ainda novo para Lisboa após o divórcio dos pais. Era um atleta nato, capaz de um dia chegar aos Jogos Olímpicos, mas também se destacava no mundo das artes. Entre sete ofícios onde nunca desafinava, foi no mundo dos motores que se notabilizou, sendo o primeiro português a participar num Grande Prémio de Fórmula 1. Morreu esta segunda-feira, aos 86 anos, vítima de doença prolongada no Hospital São José, em Lisboa, confirmou fonte próxima da família à agência Lusa.

Aos 25 anos, num Cooper-Maserati T51, fez a primeira prova no circuito de Monsanto, perto de Lisboa. Estávamos no Mundial de Fórmula 1 de 1959 e a prova ganha pelo britânico Stirling Moss coincidiu com a única das quatro que começou em que conseguiu acabar, no décimo lugar. Ficou também ligado de forma indireta à corrida de outra das figuras de cartaz da corrida, o australiano Jack Brabham (que se viria a sagrar campeão nesse ano), que o tentou ultrapassar na volta 23 mas que acabou por ter aí uma saída de pista antes de embater num poste elétrico. No ano seguinte, de novo em Monsanto, começou a prova mas foi forçado a abandonar. Mais tarde, já depois de ter estado a cumprir serviço militar em Angola, participou em mais duas provas na Alemanha (1963) e em Itália (1964), a última pela ATS Derrington-Francis, onde também não conseguiu chegar ao fim.

“Ele estava a discutir o primeiro lugar com o Moss. Íamos na autoestrada a entrar em Monsanto, olhei por um dos retrovisores e vi o nariz do carro dele a aproximar-se. Pensei ‘Olha, vai ultrapassar-me nesta reta’ e cheguei-me à direita para ele ter espaço à esquerda. O que é que ele pensou? O contrário! Quando ele percebeu que eu já não ia para a esquerda, era tarde de mais. Sem espaço para entrar por fora naquela curva, foi de frente e bateu no vértice do triângulo. Ficou ali e eu continuei. Nas boxes, terminada a corrida, veio falar comigo. Estava furioso, a protestar. ‘Why don’t you break sooner?’ perguntou-me ele. ‘A culpa foi tua, não saí da minha trajetória. E mais, dei-te o espaço para avançares à vontade. Ninguém tem culpa que tu penses mal’. Sabe uma coisa? Nunca mais se esqueceu de mim. Anos depois, escreveu as suas memórias: ‘Não acabei o Grande Prémio de Portugal em 1959 por causa de um ‘very dangerous local boy’”, contou numa entrevista ao jornal I em 2012.

Em 1965, teve o acidente mais grave da carreira em França, no Grande Prémio de Rouen em Fórmula 2, ficando com vários ferimentos que o afastaram das pistas ao longo de quase três anos, regressando para conduzir vários carros de Sport até 1975, que lhe davam tanto gozo de pilotar como qualquer um da Fórmula 1. Conseguiu dois anos a última vitória da carreira, também em Fórmula 2, no circuito de Benguela, em Angola, já depois de ter terminado o Grande Prémio de Portugal desse ano no oitavo posto. Foi mais tarde convidado para dinamizar a escola de Fórmula Ford, no Estoril onde trabalhou com Manuel Gião, Pedro Matos Chaves ou Pedro Lamy.

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“Fiquei arredado da Fórmula 1 porque tive um acidente grave em Rouen no ano de 1965. Não morri por milagre. Despistei-me, dei duas voltas e fui parar à mata. O carro embateu numa árvore, partiu-se em dois e eu aterrei numa zona de silvas, que me ampararam o golpe. Saí todo picado, com 17/18 fraturas. Estive seis meses num hospital em Rouen, onde uma enfermeira salvou-me da morte com embolia pulmonar. Ela estava sempre ao meu lado e tinha a injeção pronta. Salvou-me a vida às duas e quatro da manhã. Só voltei a correr em 1967 ou 1968, em Monsanto. Ganhei a corrida com um Porsche Carrera. Aí, entusiasmei-me outra vez. Fórmula 1 nunca mais, por falta de verbas também. No fundo, tive sorte e azar. Não levava aquilo a sério. A Fórmula 1 não era o circo de agora e não tinha um manager. Tinha uns amigos e tal. Mas gostei da aventura “, recordou Nicha Cabral.

O presidente da Federação Portuguesa de Automibilismo e Karting, Ni Amorim, falou à Rádio Observador numa “perda lamentável para Portugal”. “Foi um ícone do desporto automóvel português e internacional. Era uma figura incontornável do automobilismo português, é com muita consternação naturalmente que vejo partir uma pessoa que conheci muito bem”, destacou. Já o piloto português, Pedro Lamy, falou em “tristeza” pela morte do amigo: “Agora temos de recordar os momentos bons dele. Perdemos o nosso primeiro piloto de Fórmula 1”.

“Foi durante a madrugada de hoje que partiu Mário de Araújo Cabral, mais conhecido por Nicha Cabral. Um dos melhores pilotos portugueses de automóveis, Nicha chegou aos 86 anos com uma vida repleta de bons momentos, grandes vitórias, uma vida muito bem vivida e com uma enorme legião de fãs e seguidores, mesmo a nível internacional. Os últimos anos não foram fáceis. O Nicha passou por maus momentos de saúde muito débil. Hoje esse sofrimento acabou. Mais informações serão dadas embora possamos desde já adiantar que as cerimónias fúnebres serão muito restritas”, pode ler-se na página do Facebook do antigo piloto, que sempre foi também um apaixonado pela arte, tendo sido co-proprietário de galerias de arte e também um antiquário de referência. Um dos irmãos era um pintor radicado em Espanha na década de 90.

Amigo de Paul Newman ou Sacha Distel, ficou conhecido, além de pioneiro entre os portugueses na Fórmula 1, como uma pessoa de trato fácil e um fascinante contador de histórias. Teve o sonho de ser ator, outra das suas grandes paixões, além de ter terminado com 20 valores o curso de violino do Conservatório Nacional de Música e de ter ficado próximo de se ter tornado ginasta olímpico (o primeiro desporto praticado) antes de fazer uma fratura num pé, como contou a RTP como contexto para uma entrevista do Quarta-feira de Carlos Cruz. “Defendia o regime do chapa ganha, chapa gasta e desmente o ditado ‘Levantar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer’, porque é são como um pêro e raramente se levanta antes das 10h da manhã deitando-se sempre a altas horas da madrugada”, acrescentava essa introdução feita no programa da RTP em 1991.