O chefe da Agência de Medicamentos dos Estados Unidos da América (EUA) anunciou este domingo ser possível autorizar uma futura vacina contra a Covid-19 sob procedimento de emergência, antes do fim dos ensaios clínicos que confirmam a segurança e eficácia. Mas insistiu que não o faria para agradar ao presidente dos EUA.

Em entrevista publicada este domingo pelo Financial Times, o diretor da Food and Drug Administration (FDA), a agência federal que supervisiona a comercialização de medicamentos nos Estados Unidos, disse que qualquer pedido de autorização terá que ser feito por quem está a desenvolver a vacina.

“Se eles fizerem isso antes do final da fase 3, podemos considerar isso apropriado, podemos achar inapropriado, faremos uma avaliação”, afirmou Stephen Hahn.

Ainda assim, Hahn defendeu-se da pressão do Presidente norte-americano, Donald Trump, para autorizar uma vacina antes das eleições presidenciais de 3 de novembro, dizendo que vai ser uma “decisão baseada em ciência, medicina e dados, e não uma decisão política”.

Donald Trump, FDA e plasma convalescente: ciência ou política?

Três fabricantes ocidentais de vacinas estão bem avançados e em fase 3 de testes clínicos, que vão incluir dezenas de milhares de participantes: a AstraZeneca (parceira da universidade britânica de Oxford e a quem Portugal já encomendou 6,9 milhões de vacinas), Moderna (parceira dos institutos norte-americanos de Saúde) e a aliança Pfizer/BioNTech. Porém, pela própria natureza desses ensaios, é difícil prever quando vão aparecer os primeiros resultados.

Metade dos participantes recebe a vacina experimental e outra metade um placebo. O processo normal é que os responsáveis pelos testes clínicos esperam, possivelmente meses, para ver se aparece uma diferença estatisticamente significativa no número de pessoas infetadas com o vírus entre os dois grupos.

Por outro lado, a China e a Rússia anunciaram que autorizaram duas vacinas antes da conclusão de todas as fases dos testes. Mas foram alertadas de que tal poderia ser perigoso.

A evolução das vacinas contra a Covid-19: Itália e Cuba entram na corrida

De acordo com Stephen Hahn, uma autorização de emergência pode ser concedida para uma determinada categoria de pessoas, mas disse que só o faria se os benefícios ultrapassarem as desvantagens. “Uma autorização de urgência não é a mesma coisa que autorização completa”, afirmou.

Ao Financial Times, Hahn insiste ainda que não iria acelerar o processo da vacina para agradar a Donald Trump, apesar de notícias que dão conta dos desejos do presidente norte-americano em conseguir uma vacina antes das eleições de novembro. Aliás, numa entrevista recente, Trump frisou mesmo que uma vacina poderia chegar “mais cedo do que no final do ano”. “Poderá ser muito mais cedo”, disse. Também o vice-presidente Mike Pence defendeu, na convenção do Partido Republicano, que os EUA estavam “no caminho” para ter a primeira vacina para a Covid-19 “no final do ano”.

Tão diferentes, mas tão iguais: como Pence tomou o palco para fazer o elogio público de Trump

O chefe da FDA é cada vez mais criticado pela comunidade médica e científica, que suspeita que se tenha curvado para satisfazer o Presidente norte-americano. No final de março, a FDA autorizou a hidroxicloroquina como uma emergência para tratar os pacientes com Covid-19, depois de o Presidente ter divulgado o medicamento, mas a autorização foi retirada em junho, devido a efeitos colaterais negativos.

Na semana passada, Trump criticou a FDA, acusando-a de “dificultar” a aprovação de novos tratamentos contra o novo coronavírus para prejudicá-lo nas eleições presidenciais.

Segundo o The Washington Post, depois dessa publicação, Stephen Hahn terá ligado imediatamente aos seus contactos na Casa Branca para perceber por que razão estaria Trump incomodado. Num desses contactos, terá dito que a FDA estava prestes a aprovar a autorização urgente de plasma convalescente para pacientes com Covid-19. Numa conferência de imprensa, Trump terá dito que essa era uma “descoberta histórica”.

Hahn, por sua vez, chegou a dizer que o tratamento poderia salvar 35 em cada 100 pessoas, mas foi criticado por vários especialistas e acabou por reconhecer o erro (os números mais prováveis apontam para uma eficácia de 5%).

“Acelerar qualquer processo de autorização de uma vacina SARS-CoV-2 é ultrajante, não importa o quão subserviente Stephen Hahn seja a Trump”, criticou na plataforma Twitter Eric Topol, diretor do Scripps Research Translational Institute. As críticas têm subido de tom, colocando em causa a independência da FDA.

Os EUA são o país com mais mortos (182.785) e também com mais casos de infeção confirmados (mais de 5,9 milhões).