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Bem-vindos ao "Porque Senão é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar dos sete maiores erros dos pais. Olá, Eduardo. Diga-nos, por favor, quais são.
Olá, Judite. Ora bem, vamos lá ver. Deixe-me só fazer esta parte, que é uma parte que eu acho que ainda assim é muito importante. Eu tenho medo que, às vezes, se fala destes erros e os pais são tão ciosos das coisas que fazem e, na verdade, tentam se envolver com tamanha paixão, que depois quando sentem alguém a chamar a atenção de um ou outro pormenor que não corre bem, ficam às vezes sensibilizados, como se a intenção fosse: "ora, aqui está toda a gente de dedo esticado para as coisas que nós não fazemos bem". A intenção não é essa. É exatamente o contrário, é: fazem tantas coisas bem, que é quase pecado que depois haja meia dúzia delas que compliquem tudo o resto. Portanto, fechado o parêntesis, Judite, primeiro erro: a dificuldade com que dizem "não". É uma coisa quase geracional, esta ideia de que dizer que não traumatiza as crianças, que dizer que não, de alguma forma, impõe e, portanto, lhes tira a liberdade. Eu gostava que ficasse muito claro que quando os pais não dizem que não, criam muitas dores de cabeça aos filhos e aos pais. Primeiro, porque os filhos se tornam muito mais inseguros do que era suposto. Crianças tão mimadas a quem não é dito "não", era suposto que fossem uma locomotiva e, pelo contrário, ficam muito capazes de mandar no jogo em casa e depois quando chegam a um jardim de infância, a uma escola, encolhem-se todos e parecem duas versões da mesma criança. Portanto, por favor, sempre que a mãe e o pai entendam que têm que dizer que não, lembrem-se da Rádio Observador e digam, porque é o óbvio, que os pais são supersensatos e quando decidem dizer que não, é não. Segundo: a autonomia, porque quem é contra os mimos de mãe, nomeadamente? Eu não sou, de certeza. Eu acho uma delícia que as mães deem mimo, mesmo que o mimo às vezes seja cortar a fruta, independentemente da idade e tudo mais. Nada contra. Mas a fórmula é esta: tudo aquilo que as crianças saibam fazer sozinhas, a mãe ou o pai estão proibidos de fazer com elas ou por elas, porque senão as crianças vão se acomodando, deixam-se andar, desastre total e depois dá no que dá. Terceiro, que é uma coisa que me deixa muito preocupado, Judite, porque é mais uma tendência do momento, é: as crianças não sabem brincar sozinhas. E as mães, muitas vezes na sua bondade, dizem: "Mas se eu não estiver, ao fim de cinco minutos, temos ali uma criança a reclamar, quando é que vens brincar?" Ora bem, as crianças não aprendem a brincar sozinhas se de alguma forma não tiverem que brincar sozinhas. E brincar sozinhas faz com que elas aprendam a conversar com os seus botões, que aprendam a formular as coisas que existem na imaginação, a elaborar brinquedos e brincadeiras. E, portanto, é tão importante, que, por favor, as crianças têm que brincar sozinhas as vezes que os pais entenderem, isso só as faz crescer. Depois, paciência. Aquela tendência: "Eu quero muito os cromos e tem que ser agora" e têm um desejo e tem que ser agora. E, portanto, aquela expressão que as pessoas mais velhas, tipo a Judite, não eu, evidentemente, sempre ouviram: "Saber esperar é uma virtude". É mesmo uma virtude, e eles têm que aprender a esperar, que é para depois lutarem pelas coisas com tenacidade, como não podia deixar de ser, pelas coisas que fazem sentido para eles. A frustração, Judite. Eu gosto que as crianças não acham graça nenhuma quando são frustradas, mas é em como é que nós andamos. Agora, o que é muito importante que os pais percebam é que quando as crianças são frustradas, ficam ali com um bocadinho de raiva, nada de mais. Mas às vezes os pais tremem todos, porque quando as crianças põem a raiva cá para fora, já temos uma mãe ou um pai a dizer: "Por favor, não fiques nervoso, controla-te" e outras coisas do gênero. E não! Quando uma criança passa dos limites, quando se trata de estar a protestar, cá temos a mãe e o pai a chegar à frente a dizer: "Olha, protesta, mas com maneiras", porque isso ajuda dentro e fora de casa. Depois, vamos já claro, a maneira como às vezes os filhos não cuidam dos pais, e os pais têm que educar os filhos até para isso. Portanto, dar um beijinho à mãe ou dar um beijinho ao pai é uma coisa que não se negocia, independentemente de termos um adolescente mal-humorado em casa. Quando a mãe ou o pai estão cansados, que uma criança se chegue à frente e os proteja e cuide, nada de mais. Pelo contrário, é básico, independentemente da idade, e os pais ficam sempre magoados quando não são objeto de cuidados, mas depois não falam. E finalmente, é muito importante que os pais não cometam este erro, que também é muito frequente, de quando ficam um bocadinho desiludidos, magoados com uma coisa que uma criança faz, um parvoíce fora do sítio, mas que não deixa de doer um bocadinho, os pais estão proibidos de ficar magoados em silêncio. E, portanto, nessas circunstâncias, cheguem-se à frente e Tudo, menos ficarem magoados em silêncio. Ficar magoados em silêncio significa que se vão separando um bocadinho dos filhos, por mais que os amem loucamente, e separarem-se por coisas que não se dizem, mesmo que sejam pequeninas, tem que ser proibido em todas as famílias. Pronto, já me calei.
E destes sete erros, qual é que o Eduardo vê com mais frequência?
O primeiro de todos.
O do "não", não é?
Ó Judite, o primeiro de todos. É uma coisa que me inquieta tanto. E o que é mais grave é que num primeiro momento, quando nós chamamos a atenção, os pais ficam quase melindrados. E eu percebo, eles não dizem que não, não é para estragar, é pelo contrário, porque têm a ideia que assim são mais bondosos, mais fofos, mais sofisticados. Mas eu gostava muito que percebessem que quando dizem que não, estão a ensinar as crianças a conviver com a humildade humana. Elas são amadas desmedidamente, não podem fazer tudo. E obviamente que isto é uma orientação para as crianças perceberem que o desafio na vida é poderem ser como são, dentro de um conjunto de regras, sendo os outros da mesma maneira, porque assim tudo fica mais fácil para elas.
O mais difícil de alcançar será a paciência e a frustração? Lidar com isso.
A paciência, sim. Até porque, como sabes, Judite, os pais não têm este desabafo. Os pais são muito mais sofisticados, Judite de França. Mas as mães têm um desabafo que eu acho que é uma ternura, que é: "Ele tira a paciência a um santo". Ou seja, nem os santos têm paciência para ser capazes de lidar com o lado gingão, habilidoso, de quem é capaz de dar cabo da paciência de qualquer pessoa. E eu gosto muito que as mães percebam, sempre as mães, que eu gosto que as mães não tenham toda a paciência do mundo, porque quando não têm toda a paciência do mundo, muitas vezes estão a ensinar as crianças no que há de melhor. É que as pessoas bondosas têm um coração enorme, mas não têm que aceitar tudo. Agora, evidentemente, que as crianças quando levantam um dedo, têm uma mãe imediatamente ao dispor. Essa mãe pode ser a pessoa mais bonita do mundo, mas com esta generosidade, sem querer, está a educar um pequenino ditador, se ela for por ali adiante, sempre ao dispor de tudo na hora, e isso não é razoável. Não é razoável quando se é pequeno e muito menos quando se cresce.
Este tipo de aprendizagem também se ensina. Na prática.
Só se ensina, Judite de França. E os pais que tenham a noção de uma coisa: já fizeram o mais difícil, que é criar uma criança com o coração enorme, inteligente, sensível, acutilante, malandra quando é preciso. Portanto, o trabalho todo está lá. É um trabalho magnífico. Agora o resto ensina-se. Mas agora os pais têm que perceber que também se aprende por ensaio e erro, e às vezes os pais querem aprender sem ter que errar. E eu não me canso de dizer que os bons pais precisam de errar pelo menos uma vez de 8 em 8 horas, porque a partir daí já começam a ter algum traquejo, fazem a mão, apanham o jeito, como se diz, que é uma expressão tão bonita, para serem melhores pais.
Eduardo, hoje ficamos por aqui com os sete maiores erros dos pais. E amanhã voltamos com mais um tema. Amanhã não, voltamos só na segunda-feira, hoje é sexta.
Exatamente.
Portanto, bom fim de semana, Eduardo.
Bom fim de semana pra vocês, Judite.
Até segunda.
Um beijinho.