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Os elogios chegavam de todos os lados, incluindo ou sobretudo no plano internacional, mas aqueles resultados que todos consideravam ser um exemplo no combate à pandemia iriam ter a médio/longo prazo outros reflexos que começavam a ser preparados por várias entidades. Ainda no confinamento, em conversa com o Observador, um responsável da Liga de Clubes explicava que tudo o que estava a ser feito era o que devia ser feito mas que, em paralelo, o “achatar da curva” em comparação com vários outros países europeus traria consequências também para o futebol, que deveria ser uma das últimas atividades a regressar à “normalidade”. Mais de seis meses após o início da pandemia, tinha razão. Mas o trajeto até essa inevitabilidade foi diferente do esperado.

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A parte 1 do plano foi cumprida: o futebol regressou. Não o futebol não profissional, muito menos as modalidades de pavilhão ou ao ar livre (só a ideia do preço de todos os testes que teriam de ser feitos a atletas, treinadores e demais responsáveis “abortou” a possibilidade), mas a Primeira Liga – sendo que a Segunda Liga, também ela profissional, acabou de forma precoce a temporada mas com a Federação e a Liga, com a aprovação dos clubes, a desbloquearem fundos para que as 18 equipas desse escalão não fossem prejudicadas no plano financeiro, ficando salvaguardada essa situação apesar da vontade de vários clubes em retomar a competição como aconteceu em países como Espanha, Inglaterra ou Alemanha. A prioridade era concluir o primeiro escalão e, sobretudo, poder chegar às receitas dos direitos televisivos, que no limite representavam 70% do orçamento de um clube.

Alguns exemplos práticos do que estava em causa: só entre Benfica, FC Porto e Sporting, numa conta aritmética tendo em conta o encaixe anual que têm via TV, ficariam a perder em conjunto quase 28 milhões de euros caso não realizassem os respetivos encontros até ao final da prova como visitados. Juntando Sp. Braga e V. Guimarães, os dois clubes que se encontram a seguir entre os que mais recebem de direitos televisivos, a verba subia para os 33,5 milhões, quase metade dos 70 milhões contratualizados que falhariam nas contas caso o Campeonato fosse suspenso, como aconteceu em França, na Holanda ou na Bélgica. As últimas dez jornadas foram mesmo realizadas cumprindo um escrupuloso manual de orientações preparado pela DGS.

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A evolução da pandemia, com os números a terem uma significativa descida até agosto, abria a porta para voltar a haver público nos estádios. Aquilo que se passava lá fora, com a UEFA a decidir fazer a Final Eight da Champions em Lisboa (bem como a Final Eight da Liga Europa, na Alemanha) à porta fechada mas a permitir a presença de adeptos na Supertaça Europeia na Hungria, com menos de metade da lotação na Puskas Arena, também. A realização de eventos como a Feira do Avante, a Feira do Livro em Lisboa ou algumas touradas, mais outra. Era na junção de todos estes pontos que se concentravam as esperanças da Liga de Clubes em trazer os espetadores de volta, tendo mesmo havido a informação às equipas de que esse cenário poderia ser uma realidade em breve. No entanto, uma conjugação de fatores acabou por adiar nos próximos tempos essa intenção.

O nosso comportamento no cinema ou no teatro é muito diferente do nosso comportamento no futebol. E isso impõe restrições de público nos estádios de futebol e outros recintos desportivos”, destacou o primeiro-ministro, António Costa, após o Conselho de Ministros.

O que mudou no interregno entre final da Taça de Portugal, a 1 de agosto, regresso das provas profissionais de futebol, esta quinta-feira na Segunda Liga e na próxima semana para o escalão principal? 1) foi exatamente nesse hiato de tempo que começou a haver um regresso das pessoas à atividade do quotidiano com respetivos reflexos no aumento a pique no número de novas infeções e de casos ativos; 2) a própria DGS, através da Diretora-Geral da Saúde, Graça Freitas, destacou que o mais importante nesta fase – que vai abranger as próximas semanas, até outubro pelo menos – é o regresso às aulas e não haver públicos nos estádios, pela inexistência de margem para aquilo que foi descrito como “testes”; 3) ficou provado entre junho e julho que o mais importante para o futebol profissional, numa ótica financeira, é haver competição, com ou sem espetadores. E isso, como se percebeu nas decisões tomadas em maio, acaba por ser o que mais desequilibra a balança.

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O Observador falou com dois clubes para perceber o que estava a ser preparado e o que terá de ficar na gaveta. Basicamente, e depois de uma primeira fase onde eram estudas soluções que apontavam para 10% a 20% da lotação num eventual regresso, as equipas da Liga tinham desenvolvido projetos que preparavam o regresso de 30% dos adeptos aos estádios, algo confirmado por Pedro Proença, presidente da Liga, na última semana.

“Temos tudo preparado para que as competições se iniciem, os planos de contingência relativamente às acessibilidades já foram entregues às entidades competentes e tudo está feito para que as coisas comecem com toda a força. A única coisa que pedimos é que o futebol não seja tratado de forma discriminatória e temos a plena convicção de que teremos muito boas notícias num curto espaço de tempo. Em toda a Europa houve testes-piloto nos estádios. O processo tem de ser gradativo mas algo que seja inferior a 30% para uma fase inicial irá ferir a expectativa dos clubes. Temos a esperança de que na próxima semana isso já possa acontecer porque quando começarem as competições queremos ter os nossos planos de contingência testados”, destacou o líder da Liga, numa ideia que caiu por terra a breve prazo e que deverá ainda demorar até ser uma realidade.

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E qual é a fatura dessa ausência de público? Olhemos para exemplos práticos. O Benfica, que durante o confinamento explicou através do seu CEO, Domingos Soares de Oliveira, que cada jogo à porta fechada fazia com que o clube deixasse de receber uma verba a rondar um milhão de euros (sendo que o impacto da pandemia foi superior a 12 milhões de euros, o que poderia levar a que os rendimentos totais tivessem superado pela primeira vez os 300 milhões), tem em causa um montante total de quase 23 milhões de euros – que poderia ser superior, caso os últimos cinco jogos da Primeira Liga não fossem à porta fechada –, reduzido à dimensão da continuidade ou não dos jogos sem público. No Relatório e Contas do exercício de 2019/20, os encarnados tiveram quase dez milhões de receita em corporate, 7,2 milhões em bilhetes de época (Red Pass) e mais de 4,3 milhões em bilhetes de jogo, além de quase 600 mil euros que são agrupados na rubrica “outras receitas”.

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No caso do Sporting, que foi o primeiro “grande” a apresentar o Relatório e Contas do exercício de 2019/20, o impacto total da pandemia chegou aos 3,7 milhões de euros mas, olhando para as receitas com bilheteira e bilhetes de época estão em causa 12,5 milhões de euros (o valor de bilhetes unitários por jogo desceu um milhão de euros, sendo sempre subjetivo dizer-se a percentagem relativa aos cinco encontros à porta fechada). Ou seja, não havendo bilhetes de época, que renderam na derradeira temporada 4,4 milhões, corporate, que valeu 5,2 milhões, nem bilhética de jogos do calendário nacional e das competições europeias, que deu dois milhões, o rombo é notório, com a agravante de um dos jogos grandes ser logo na quarta ronda, em outubro (FC Porto).

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Com as devidas ressalvas e cada um à sua dimensão, esta é a realidade do futebol profissional em termos de impacto, com a nuance de que em termos de orçamento global os “grandes” têm uma percentagem menor de peso no que toca aos direitos televisivos por terem outras fontes de receita. E uma realidade que é mais agravada no futebol não profissional ou nas modalidades de pavilhão, que além da previsível perda a nível de patrocínios que ajudavam a compor o orçamento ficarão privados das receitas de bilhética nos próximos tempos.

“O futebol teve a capacidade de ser a primeira atividade para, no dia 12 de março, decidir que não havia condições em termos de sustentabilidade de saúde pública para manter as competições. Assumimos isso com um sentido de responsabilidade e porque há valores que não se negoceiam, a saúde pública é um deles. Depois dessa atitude responsável no processo de retoma, que foi elogiado por toda a gente, ninguém consegue perceber que não exista uma coerência, que sendo o futebol uma atividade económica não possa haver público nos espetáculos. Queremos perceber, o futebol exige perceber até pelo que representa no tecido empresarial. O futebol não tem razão de ser sem público, ele é fundamental”, comentou Pedro Proença, em declarações à Sport TV.

“Se é possível fazer um plano para uma tourada, um plano para um espetáculo musical, fazer planos para tudo e mais alguma coisa, é também possível para fazer um espetáculo de futebol. É inadmissível que este cenário se continue a colocar, quando os clubes já se disponibilizaram para dar todas as garantias de segurança. Outros países já o fizeram e Portugal, com os números baixos que tem, podia dar o exemplo ao mundo. Quem decide não percebe nada do fenómeno desportivo e que não sabe o que é uma bola de futebol, prejudicando muito aquilo que é o espetáculo e a vida dos clubes. Infelizmente, estamos a ser comandados por uma pessoa que pouco ou nada sabe sobre o desporto”, comentou Carlos Pereira, presidente do Marítimo, à agência Lusa.