O antigo ministro do ambiente e ex-líder da JSD, Jorge Moreira da Silva, assina esta segunda-feira um artigo de opinião no Público muito crítico da solução governativa encontrada nos Açores e pede que um Congresso extraordinário do partido “bem antes das eleições autárquicas e legislativas” afirmando claramente que se baterá “pela interdição de qualquer tipo de entendimento pré ou pós-eleitoral” porque “não se fazem acordos com partidos xenófobos, racistas, extremistas e populistas”.

É mais uma das vozes dentro do partido incomodada com o acordo entre o PSD e o Chega para viabilizar um governo de direita na Região Autónoma dos Açores. Assumindo que “o assunto é grave e o momento é muito sério”, Moreira da Silva recorda que em 2015 deu voz à primeira reação oficial da PaF na noite eleitoral defendendo que “quem ganha governa” e que mantém a posição contra as coligações “negativas para derrubar o governo liderado pelo partido mais votado”, o antigo ministro passa depois a clarificar a sua posição: “Não se fazem acordos com partidos xenófobos, racistas, extremistas e populistas. Com partidos que, por ignorância ou perversidade moral, propalam propostas incompatíveis com a dignidade humana. Ponto!”

Ainda que admita que “não se pode impedir esses partidos de viabilizar as propostas ou o programa de governo”, já que essa é uma liberdade que têm, diz que “os limites são claros” no que diz respeito a aceitar ou promover acordos com essas forças políticas. “Não se conversa, informal ou formalmente, e muito menos se negoceia com esses partidos”, escreve o ex-ministro de Passos Coelho considerando que esses acordos não só contribuem “para uma legitimação formal de cânones políticos que substancialmente não têm legitimação possível”, como degradam a reputação e credibilidade do PSD. Moreira da Silva questiona mesmo “o que sobra” do partido depois do acordo com o Chega que, considera, é uma questão de identidade da “atual direção” do partido.

No quinto de cinco pontos, Moreira da Silva diz que o que aconteceu nos Açores é uma “alteração radical do posicionamento ideológico e programático do PSD e uma traição ao seu quadro de valores e princípios” (ainda que tenha frisado também a competência de José Manuel Bolieiro para assumir o cargo) e que o efeito desta negociação trará efeitos nos próximos atos eleitorais. Daí que reclame a necessidade de reunir o partido em congresso extraordinário para “definição da política de coligações e entendimentos” e clarificação da “questão de identidade” da direção do PSD. Diz Moreira da Silva que os “eleitores ficaram com legítimas dúvidas quanto à possibilidade de serem celebrados acordos pós-eleitorais nas autárquicas e nas legislativas entre o PSD e o Chega” e que isso “terá um efeito devastador no eleitorado moderado de centro e no eleitorado jovem”.

Como poderá ser o PSD portador desse novo projeto político – aberto, moderno, cosmopolita, inovador, arejado – se, aos olhos dos eleitores, nos aproximamos agora daqueles que são portadores de visões perversas, sectárias, retrógadas e bafientas da sociedade?”, questiona Moreira da Silva.

Recordando ainda as linhas programáticas e ideológicas do PSD, que sofreram a última atualização em 2012, José Moreira da Silva diz que “não se resigna com esta deriva” e que não acredita que “os militantes do PSD partilhem da opção estratégica traduzida no acordo PSD-Chega” já que os valores e princípios do partido “não são, de modo algum, compatíveis com quaisquer vizinhanças políticas (buscadas ou aceites) com o Chega e com as suas grotescas propostas”.