O ex-Presidente de França Valéry Giscard d’Estaing morreu esta quarta-feira aos 94 anos, depois de ter sido hospitalizado a 15 de novembro no Hospital Universitário de Trousseau, em Tours. Acabou por morrer na sua casa em Authon, vítima de insuficiência cardíaca e, de acordo com a família, já depois de ter tido Covid-19.

Eleito em 1974, Valéry Giscard d’Estaing foi o 3.º Presidente da Quinta República Francesa. Esteve no poder até 1981, ano em que perdeu as eleições para o socialista François Mitterrand.

Das trincheiras para as finanças, com De Gaulle e Pompidou

Valéry Giscard d’Estaing nasceu a 2 de fevereiro de 1926 em Koblenz, localidade atualmente na Alemanha mas que à altura fazia parte dos territórios da Renânia ocupados pelo exército francês. Nasceu numa família ligada à política e à alta administração pública, filho de um diretor de finanças e neto, pelo lado da mãe, de um senador. Durante a Segunda Guerra Mundial, entrou para as fileiras da Resistência em 1944, com apenas 18 anos, e combateu na Alemanha e na Áustria, o que lhe valeu a condecoração da Cruz de Guerra.

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Com a paz estabelecida em 1945, retomou os estudos. Depois de uma passagem pela prestigiada Escola Nacional de Administração, transitou para a inspeção das finanças logo em 1952. Não tardaria a ascender ao topo da máquina administrativa francesa ao ser chamado para ministro da Economia e Finanças por duas vezes.

A primeira passagem pelo governo foi entre 1959 e 1964, era então Charles de Gaulle Presidente, tendo como seu primeiro-ministro Michel e Debré e, depois deste, George Pompidou. Mais tarde, entre 1969 e 1974, Valéry Giscard d’Estaing volta a ser chamado para as mesma funções, tendo como Presidente George Pompidou.

O conservador-liberal que disse a Mitterrand que não tinha “o monopólio do coração”

O caminho de Valéry Giscard d’Estaing foi sempre pelo centro-direita, nas diferentes incarnações partidárias que aquele espaço político teve em França. Foi pela bandeira dos Republicanos Independentes que se fez eleger Presidente em 1974, depois de bater com 50,81% o socialista François Mitterrand, que ficou para trás na segunda volta com 49,19% dos votos. Tinha 48 anos, o que fez dele o homem mais jovem a chegar ao Eliseu — um estatuto que guardou até 2017, ano em que Emmanuel Macron foi eleito com 39 anos.

No debate que marcou as eleições de 1974, François Mitterrand defendeu o princípio da distribuição da riqueza, dizendo que tal se tratava “não só de uma questão de inteligência, mas também de uma questão de coração”. À altura, Valéry Giscard d’Estaing, que apesar de ser bom orador não se escapava às acusações de ser um tecnocrata frio e calculista, respondeu-lhe: “É sempre chocante ver como há pessoas que se arrogam ao monopólio do coração. Vocês não tem o monopólio do coração, senhor Mitterrand. Eu tenho um coração como o seu que bate ao seu próprio ritmo e que é meu. Você não tem o monopólio do coração”.

Apesar de próximo de meios conservadores, a sua presidência abriu caminho a várias reformas de carácter liberal. Conservador no campo fiscal mas tendencialmente liberal no campo social, foi durante o mandato de Valéry Giscard d’Estaing que França despenalizou o aborto e fixou a maioridade nos 18 anos, em vez dos 21. No campo da imigração e da segurança teve punho de ferro, mas nem por isso deixou de fazer História ao ser o primeiro Presidente francês a visitar a Argélia desde a independência daquela ex-colónia francesa, em 1975.

Teve, de qualquer modo, uma presidência difícil, marcada por uma inflação galopante e por desemprego alto, tudo consequências das crises petrolíferas de 1973 (um ano antes da sua eleição) e de 1979, dois anos antes do final do seu mandato. As dificuldades da sua governação levaram-no a incompatibilizar-se com o seu primeiro primeiro-ministro, Jacques Chirac, que viria mais tarde ele próprio a ser Presidente.

Em 1981, voltou a defrontar o socialista François Mitterrand. Encabeçando uma coligação de direita periclitante, e depois de uma governação difícil, não foi capaz de renovar o seu mandato. Perdeu com 48,2%, atrás dos 51,8% conquistados por François Mitterrand na segunda volta.

Europeísta convicto, Valéry Giscard d’Estaing presidiu à Convenção Europeia, órgão provisório criado em 2001 com a função específica de redigir uma constituição europeia. Desse grupo surgiu a tratado constitucional europeu, que foi aprovado em 2004 pelos então 25 estados-membros da União Europeia. Porém, dez destes países submeteram essa constituição a um processo de ratificação por via de um referendo nacional. Foi o caso de França, onde o projeto do ex-Presidente acabou por ser chumbado com 54,67% votos contras e apenas 45,33% a favor.