“Não tenho a mesma opinião do que você. Também é natural que você não saiba o que é muita qualidade sobre o que é futebol mas pronto…”. A primeira declaração de Jorge Jesus em resposta a uma jornalista da Sport TV na flash interview após a vitória na Madeira frente ao Marítimo, que travou uma série de duas derrotas consecutivas na Primeira Liga, motivou várias reações entre as acusações do CNID, a defesa do Benfica e um sem número de comentários nas redes sociais. “Essas são críticas injustas. Respondia a um jornalista, não se é branco, preto, se é senhora ou um cavalheiro. Respondi dizendo que não estava de acordo com a pergunta. Não foi por machismo, não sei o que é isso. No Brasil trabalhei com muitas jornalistas, essa carapuça não me entra. Sei que hoje as sociedades são muito mascaradas e essa é uma notícia mascarada”, atirou. Fechou o assunto. Abriu outros.

Benfica goleia Lech Poznan por 4-0 e consegue apuramento para a próxima fase da Liga Europa

“Depois do jogo na Polónia, destaquei a forma atrevida e posicional do Lech Poznan. Por isso fizemos quatro golos. Não se consegue fazer tudo ao mesmo tempo, tudo a atacar e tudo a defender. Não sei se amanhã é igual, poderão ter estratégia diferente. Utilizar três centrais? De momento ainda não. Ainda não nos organizámos num processo muito forte em linha de quatro para poder passar já para linha de três. Nos meus primeiros dez anos de treinador jogava assim. Passaram 30 anos e eu já andava à frente há muito tempo. É um sistema de jogo difícil de se trabalhar. Ainda não o trabalhei tanto como gostava. Outra coisa é poderes alterar durante cinco ou dez minutos mas para começar ainda não tenho a equipa preparada para isso”, referiu sobre a possibilidade de ter um plano B para estabilizar a defesa, acrescentando ainda que entraria com “Otamendi e mais dez” para o jogo.

Nas conferências ou na forma de estar, Jorge Jesus não mudou. Foi evoluindo, sobretudo depois da passagem pelo estrangeiro na Arábia Saudita e no Brasil, mas não mudou. Mas isso não é aplicável à maneira como se comporta na área técnica durante os jogos, que mudou com o facto de não haver adeptos. “Sou um menino, sou um jovem no futebol. Tento-me cuidar para isso. Por muito que se queira, a emotividade e ansiedade dos jogos não é a mesma coisa sempre. Não é igual. Não deixo de ser participativo mas tenho tido mais cuidado, sei que qualquer palavra pode trazer discussão e polémica. Tento, não é esconder-me, mas conter-me mais”, assumiu.

Próximo objetivo? Carimbar a passagem à próxima fase da Liga. Mesmo sabendo que o calendário esta temporada é particularmente denso, com os grupos das competições europeias a serem jogados em três semanas consecutivas de dois períodos entre os encontros do Campeonato e da Taça de Portugal. Esse contexto dificultava também a preparação do jogo, onde houve mais treino de recuperação do que outra coisa. Mas era também um contexto que possibilitava uma outra gestão caso a qualificação ficasse desde já garantida, abrindo uma oportunidade para nomes menos utilizados poderem defrontar depois o Standard Lìege na Bélgica, na próxima quinta-feira.

“Quem está no topo tem de estar agradecido e contente por estar no topo. Se me dissessem que só daqui a uma semana é que tinha jogo era sinal que só estávamos numa competição, não quereria isso. No Brasil jogava de dois em dois dias, com viagens enormes, e isso nunca foi problema para as minhas equipas. Não será um problema no Benfica jogar de dois em dois dias ou de três em três dias”, assegurou. Das palavras aos atos, Jorge Jesus não fez nenhuma poupança na equipa mas tornou-a melhor ao trocar em relação ao encontro na Madeira Chiquinho por Luca Waldschmidt, o que permitiu a Pizzi avançado no terreno e brilhar na companhia do regressado Darwin Núñez. Mais uma vez, o internacional português, além do golo e das duas assistências, mostrou que é ali que mais rende e que mais faz render a equipa. E numa altura em que a contratação do central Lucas Veríssimo está presa por detalhes, fica a questão: com um 8 de outras características, que fosse capaz de ajudar Gabriel no meio-campo e permitisse que Pizzi jogasse mais na frente, o atual eixo recuado e os próprios laterais não iriam melhorar?

Ficha de jogo

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Benfica-Lech Poznan, 4-0

5.ª jornada do grupo D da Liga Europa

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Srdjan Jovanovic (Sérvia)

Benfica: Vlachodimos; Gilberto, Otamendi, Vertonghen, Grimaldo; Gabriel, Chiquinho (Weigl, 60′); Rafa (Cervi, 77′), Pizzi (Waldschmidt, 60′), Everton Cebolinha (Pedrinho, 70′) e Darwin Núñez (Seferovic, 60′)

Suplentes não utilizados: Helton Leite, Jardel, Ferro, João Ferreira, Nuno Tavares, Diogo Gonçalves e Gonçalo Ramos

Treinador: Jorge Jesus

Lech Poznan: Bednarek; Butko, Satka, Dejewski, Puchacz; Muhar, Marchwinski (Moder, 82′); Skoras (Czerwinski, 63′), Awwad (Ramírez, 63′), Sykora (Kravets, 63′) e Kacharava (Ishak, 41′)

Suplentes não utilizados: Malenica, Rogne e Kaminski

Treinador: Dariusz Zuraw

Golos: Vertonghen (36′), Darwin Núñez (57′), Pizzi (59′) e Weigl (89′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Kacharava (2′) e Marchwinski (72′)

Com Darwin Núñez de regresso às opções e Chiquinho a surgir como principal surpresa nas opções inicias no lugar de Waldschmidt para que Pizzi tivesse outra liberdades nos movimentos ofensivos, o Lech Poznan ainda teve duas boas saídas para o ataque que chegaram ao último terço, uma que terminou com um remate muito desenquadrado com a baliza de Vlachodimos, mas o Benfica cedo assumiu o domínio completo do encontro com um jogo que nem sempre teve a nota artística reclamada por Jorge Jesus mas que conseguiu ser muito estável em termos coletivos, com os polacos a não conseguirem sair com bola controlada perante as boas zonas de pressão feitas pelos jogadores mais ofensivos dos encarnados (Rafa tinha mais do dobro dos desarmes do que todo o resto da equipa aos 27′). Só faltava o golo, que podia ter surgido na oportunidade mais clara na primeira meia hora com Darwin a assistir Pizzi após passe de Grimaldo, Bednarek a defender e o uruguaio a atirar a recarga muito por cima (21′).

Apesar do domínio total, com Gabriel a ter um bom jogo e a controlar o corredor central, faltava sempre algo. Ou o último passe, ou aquela derradeira desmarcação, ou mais uma aproximação para criar desequilíbrio. No entanto, o Benfica teve o mérito de não tentar acelerar algo que se ia percebendo que chegaria com o tempo e acabou por ser de bola parada que Vertonghen marcou o primeiro golo pelos encarnados ao 13.º encontro oficial, com Pizzi a marcar o canto com o arco contrário do lado direito do ataque e o belga a subir mais alto ao segundo poste para desviar de cabeça para o 1-0 (35′), materializando a única oportunidade criada até ao intervalo.

Após o intervalo, Pizzi entrou com a corda toda fazendo um remate de meia distância que passou pouco ao lado (48′), o Lech Poznan teve o primeiro remate enquadrado por Awwad (55′) mas o jogo continuava com as mesmas características mas com outra objetividade ofensiva por parte do encarnados, que apenas num minuto resolveram por completo o encontro dando provas mais uma vez da facilidade que a equipa tem em marcar golos: Pizzi assistiu Darwin Núñez para o remate colocado na área de pé direito após má reposição de Bednarek (57′) antes de marcar ele próprio o 3-0, numa jogada que começou numa recuperação de bola de Chiquinho a meio-campo, passou pelos pés de Rafa e acabou com o número 21 a puxar para o pé esquerdo e a rematar em arco (58′).

O encontro estava resolvido e Jorge Jesus aproveitou para testar outras opções (Waldschmidt em dupla com Haris Seferovic) e promover regressos, neste caso de Weigl e Pedrinho. Everton Cebolinha, numa diagonal da esquerda para o meio com remate de fora da área, ainda obrigou Bednarek a defesa apertada (67′) mas o jogo já tinha entrado de vez numa fase menos característica, sempre com os encarnados no comando mas sem a mesma fluência ofensiva que marcara a reentrada em campo após o intervalo até Weigl ter ainda uma última palavra a dizer, num lance em que conduziu a bola pelo corredor central sem oposição, arriscou a meia distância e marcou o melhor golo da noite, com o remate a sair colocado no ângulo inferior da baliza do guarda-redes polaco (89′).