Entre as vagas que foram lançadas a concurso em setembro para contratar médicos recém especialistas nas áreas hospitalares e de saúde pública para o Serviço Nacional de Saúde, ficaram por preencher mais de um terço (37,6%), escreve o jornal Público nesta terça-feira, segundo dados da Administração Central do Sistema de Sáude (ACSS). Dos 950 lugares abertos, apenas 593 deram lugar a contratos efetivos (62,4%).

Também na medicina geral se verificou o mesmo cenário, das 435 vagas abertas, 120 ficaram por preencher (27,6%). No total, apenas se celebraram 908 contratos das 1385 vagas disponíveis, o que significa que um terço dos lugares ficou por preencher.

De acordo com dirigentes sindicais citados pelo Público, nada tem sido feito para inverter a tendência apesar desta já não representar uma surpresa para ninguém. “Todos sabem disto. O ministério da Saúde sabe, a ACSS sabe, mas não têm feito nada para ultrapassar este problema”, acusa Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos.

Entre os fatores que tornam o SNS pouco atrativo para os médicos, a demora no lançamento de concursos para assistentes graduados séniores ocupa o topo da lista, com o acréscimo de que há 10 anos que os salários dos clínicos não são aumentados, apontou Jorge Roque da Cunha ao jornal. A situação é ainda agravada pelos “muitos recém especialistas que acabam por preferir sair do SNS, tendo em conta que as vagas mais interessantes são ocupadas por médicos aposentados que regressam transitoriamente”, indicou.

Já o presidente da Federação Nacional dos Médicos, Noel Carrilho, falou em “desperdício de formação” e considerou ainda que o facto de ficarem tantas vagas por preencher “demonstra de forma inequívoca o desinvestimento nas condições de trabalho”.

Em declarações à Rádio Observador, Jorge Roque da Cunha lembrou também que entre março e novembro deste ano reformaram-se 519 clínicos e, desde o início da pandemia, o Serviço Nacional de Saúde perdeu mais de 800 médicos, entre eles médicos especialistas.

Roque da Cunha. “Há 10 anos sabíamos que em 2020 se iam reformar estes médicos”

Situação que, na opinião do dirigente sindical, o Governo devia ter acautelado, acreditando que o problema vai persistir nos próximos anos.