João Almeida, deputado e candidato derrotado nas últimas eleições internas do CDS, entende que a decisão de Adolfo de Mesquita Nunes de avançar com um pedido de eleições antecipadas só pode ser vista como positiva para o partido.

Em declarações ao Observador, o antigo secretário de Estado é cristalino: “Nunca vi a disponibilidade de alguém como um facto negativo para o partido.”

João Almeida tem sido um crítico assumido da direção de Francisco Rodrigues dos Santos. No último Conselho Nacional do CDS, o democrata-cristão disse que o partido estava “muito pior” desde que a nova direção tomou posse e que não se revia no caminho escolhido. “Este não é o meu caminho, não só porque não tenha sido o que apresentei, mas porque sinceramente não acredito”, chegou a dizer.

Agora, Almeida não esconde que considera “positivo que haja esperança no futuro do partido” e que sublinha que o partido terá no próximo Conselho Nacional uma oportunidade “para escolher a melhor forma de devolver essa esperança e confiança aos militantes”.

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O caminho de Adolfo Mesquita Nunes

Na entrevista que deu esta quarta-feira ao Observador, e apesar de ter dito que “não tem medo rigorosamente nenhum” de ir a votos, Francisco Rodrigues dos Santos pôs o ónus no seu adversário político. “Nada impede que Adolfo Mesquita Nunes seja consequente com o artigo que escreveu e reúna as assinaturas necessárias para, com um quinto dos membros, convocar um Conselho Nacional que possa deliberar a convocação de um Congresso.”

Ou seja, se quiser ser consequente com o que defendeu, Adolfo Mesquita Nunes terá de reunir cerca de 30 assinaturas para forçar o Conselho Nacional — órgão máximo entre congressos — a discutir a eventual convocação de um Conselho Extraordinário para eleições internas antecipadas. O que deverá conseguir sem grande dificuldade dada a composição do Conselho Nacional que resultou das últimas eleições e que tem várias elementos críticos da atual liderança.

A partir daí, é que a coisa complica para quem pretende derrubar Francisco Rodrigues dos Santos. Será o Conselho Nacional, onde o atual líder tem maioria, a decidir se há ou não Congresso extraordinário. A exigência de mobilização é muito maior.

Depois do artigo de opinião publicado no Observador, Adolfo Mesquita Nunes tem mantido o tabu sobre se avança ou não com uma candidatura contra Francisco Rodrigues dos Santos. Mas é já para todos, apoiantes e não apoiantes de Mesquita Nunes, evidente que o antigo secretário de Estado está mesmo disposto a ir a votos.

Francisco Rodrigues dos Santos: “Não tenho medo rigorosamente nenhum de ir a votos”

Lobo e Melo: o que farão?

Resta saber com que tropas. Há uma parte relevante do aparelho que do que resta do portismo que estará disposta a apoiar Adolfo Mesquita Nunes. Uma das chaves é saber o que fará Filipe Lobo D’Ávilla, que, no último congresso, apresentou uma candidatura alternativa e acabou a apoiar Francisco Rodrigues dos Santos. Caindo esse apoio, o líder do CDS ficaria numa situação muito mais fragilizada.

Até ao momento, Lobo D’Ávilla mantém o apoio a Rodrigues dos Santos. Na última entrevista que deu ao Observador, no programa Vichyssoise, o vice-presidente do CDS acabou a sugerir: “Sou institucionalista e acho que todos os presidentes devem ter oportunidade de ir a votos. Foi assim que sempre entendi no passado, não querendo provocar quedas de ninguém. E portanto, enquanto acreditar que é possível essa mudança com Francisco Rodrigues dos Santos ele conta com a minha solidariedade total, no momento em que eu entender que esse caminho não representa a mudança que foi prometida…”.

Até ver, não há sinais concretos sobre se esse momento chegou ou não — em dezembro, Lobo D’Ávilla aproveitou o Conselho Nacional do partido para reiterar o apoio a Rodrigues dos Santos.

Ainda assim, não passou despercebida a aparente dessintonia entre Rodrigues dos Santos e Lobo D’Ávilla sobre a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais. Na noite eleitoral, o líder do CDS foi lesto a celebrar o resultado do atual Presidente da República; dois dias depois, no programa “É ou Não É”, da RTP, Lobo D’Avilla foi bem mais recuado e atribuiu a vitória exclusivamente a Marcelo.

O candidato que ganha, Marcelo Rebelo de Sousa, é um candidato que não precisa dos partidos, que até prescinde dos partidos. E o candidato que surpreende é um candidato contra os partidos. Alguma coisa está mal. E o CDS tem de olhar para dentro, tem de olhar para si. Acho que a vitória é de Marcelo Rebelo de Sousa. Não é de mais ninguém”, disse.

Entre alguns dos críticos de Francisco Rodrigues dos Santos, estas frases foram interpretadas como um primeiro sinal de descolar em relação a atual liderança do CDS.

Aguardada com grande expectativa no interior do partido é também a posição de Nuno Melo. O eurodeputado do CDS dará uma entrevista esta quinta-feira e espera-se que venha a clarificar se está com Francisco Rodrigues dos Santos, com Adolfo Mesquita Nunes ou disposto a correr em pista própria.