José Sá Fernandes diz que se sente “injustiçado” por ver a decisão de retirar da Praça do Império os arranjos florais que retratavam os brasões das ex-colónias colada a uma posição ideológica — que, garante, nunca teve. No “Nem 8 Nem 80”, o programa de debate da Rádio Observador, o vereador da Câmara de Lisboa insistiu que o seu único objetivo é “arranjar o jardim” e admitiu que não atribui àqueles brasões floridos qualquer valor histórico. Mais do que isso, repetiu, não se opõe a que outros arranjos semelhantes sejam ali colocados, mas sublinha que não é possível recuperar os que lá estão, por estarem já muito degradados.

[Pode ouvir aqui o Nem 8 Nem 80 desta semana]

Brasões das ex-colónias: uma questão ideológica?

Em entrevista ao Diário de Notícias, esta semana, Sá Fernandes tinha explicado que uma das razões para a retirada dos brasões era a falta dos moldes originais, que já não existem. Mas durante o debate na Rádio Observador admitiu que podem ser feitos moldes novos. Recuperar os arranjos que lá está é que não é possível.

O vereador confessa que houve uma mudança de tom em relação ao projeto. Em 2014, a Câmara Municipal de Lisboa explicava que não iria “despender recursos financeiros a recuperar os brasões criados pelo Estado Novo das antigas colónias portuguesas”. A polémica provocou uma mudança na agulha: “Como percebemos que havia várias interpretações daquilo que cada um de nós dizia, dissemos: ‘Bom, o melhor é não entrarmos nesta confusão porque aqui não há nenhum preconceito ideológico’. Da minha parte, a única coisa que eu quero é arranjar o jardim”, assegura Sá Fernandes.

“Noto com apreço que José Sá Fernandes diz que está aberto ao resultado de uma discussão”, disse o historiador João Pedro Marques

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O tema foi debatido também com João Pedro Marques, que contrariou a tese da falta de valor histórico por se tratarem de trabalhos já degradados. O historiador defendeu que é possível retirar o que já não tem recuperação, garantindo que aquela mesma memória é preservada num outro local — como a calçada, por exemplo. “Noto com apreço que José Sá Fernandes diz que está aberto ao resultado de uma discussão”, sublinhou, apesar de antecipar que repor os arranjos no futuro venha a provocar “uma gritaria sem nome” por parte da esquerda.

João Pedro Marques acredita, aliás, que a questão ideológica sempre esteve e continua a estar na ideia de retirar dali os brasões, lembrando que um dos argumentos usados na discussão, ainda em 2016, foi a possibilidade de os arranjos, ao remeterem para a época do Estado Novo, poderem “ofender” algumas pessoas: “Aceito perfeitamente que, para José Sá Fernandes, não exista qualquer preconceito. Mas este esforço de descarregar qualquer carga ideológica deste assunto é inglório, porque isto está carregado de ideologia dos pés à cabeça.”