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“Ele foi contratado para trazer troféus, está na final de uma Taça [Taça da Liga, jogo com o Manchester City em abril]. Como é que se pode despedir alguém que tem a final de uma Taça em Abril? É ridículo. Essa é razão pela qual ele foi contratado. A consistência e outras coisas têm de mudar mas penso que ele ganhou o direito, com o que alcançou na sua carreira, a ter mais tempo. Acho que existem problemas de fundo no Tottenham e acho que vai ser necessária uma reconstrução. Se conseguirão alcançar o sucesso nesse período de tempo é algo que termos de ver. mas o José deve de ser mantido neste momento. O final da época é a altura de olharmos para as coisas”.

Bale em grande, duas bolas no poste, (mais) dois registos negativos: Tottenham de Mourinho sofre sexta derrota nos últimos oito jogos

Na semana onde viu o seu lugar mais ameaçado na imprensa desde que chegou ao Tottenham, José Mourinho teve em Glenn Hoddle, antigo jogador e treinador dos spurs que passou também pela seleção inglesa, um dos principais defensores nesta fase, em declarações ao Evening Standard. No entanto, nem a boa exibição sobretudo na segunda parte frente ao West Ham valeu, com duas bolas nos postes e várias oportunidades falhadas a impedirem a reviravolta. Falam mais alto os números e as seis derrotas consentidas nos últimos oito encontros. E se a meio de dezembro os londrinos discutiam com o Liverpool a liderança da Premier League, agora encontra-se no nono lugar, a sete pontos dos lugares europeus (via Campeonato) e a nove da entrada na Liga dos Campeões. Por isso, o próximo ciclo de quatro jogos seria determinante para o futuro do técnico português, a começar pela partida com os austríacos do Wolfsberger e que terá depois jogos internos com Burnley, Fulham e Crystal Palace.

A tudo isso foram-se juntando outras informações que adensam o cenário. O The Telegraph escreveu que o clube já tem escolhido o sucessor do português e que será o jovem Julian Nagelsmann, atual treinador dos alemães do RB Leipzig e que quando começou no Hoffenheim era conhecido por… Baby Mourinho. Já o The Athletic fala de um desgaste de parte do balneário com as ideias defensivas do técnico, revelando um episódio que terá sido a gota de água quando terão ficado a treinar várias horas os lançamentos laterais do adversário antes da receção ao Liverpool para a Premier League. Mourinho, esse, manteve um registo ainda mais calmo do que é habitual.

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“Claro que não fico feliz quando perco um jogo mas a minha maturidade ajuda-me quando tal acontece. Estou muito confiante e creio que vamos melhorar. Acredito também que vou ficar na história do Tottenham por boas razões. É positivo ouvir dizer que não estou habituado a isto. Gostaria que me dissessem qual é o treinador cuja carreira tenha sido totalmente feita sob um céu azul, que não tenha apanhado dias cinzentos, com nuvens, ou mesmo negros. Se o que estou a passar me deixa feliz? Não! Se me deixa deprimido? De forma alguma! Ainda bem que não sou o treinador que já fui. Provavelmente não estaria tão calmo, confiante e a controlar as minhas emoções perante os acontecimentos”, atirou na antecâmara da segunda mão dos 16 avos da Liga Europa com os austríacos.

“Os meus métodos e da minha equipa técnica não estão atrás dos de ninguém no mundo. Crise? Não sei o que querem dizer com crise. Se crise é a frustração e a tristeza no balneário, direi que ninguém está contente e demonstrámo-lo no jogo. Quando uma equipa luta como nós fizemos até ao último segundo nunca há uma crise no grupo. Nos grupos em crise não há união na busca de um melhor resultado. Por isso, digo que não há crise mas sim uma muito má sequência de resultados. Estamos a perder demasiados jogos”, acrescentou, recuperando ainda a última derrota com o West Ham marcada “pelos erros defensivos” que acabaram por castigar de novo a equipa.

A oposição do Wolfsberger não foi a mais forte, é verdade, mas a equipa (remodelada) deu a melhor resposta que poderia mostrar num encontro com estas características, voltando a vencer os austríacos por 4-0 depois do triunfo da primeira mão por 4-1 e mostrando uma boa atitude competitiva com Lamela e Bergwijn a jogarem por um lugar mais regular na equipa, Sissoko e os laterais Doherty e Ben Davies a mostrarem que estão prontos para voltar e a melhor versão de Dele Alli, o MVP do encontro com um fantástico golo e uma assistência a decidirem o jogo.

Com uma autêntica revolução nas opções iniciais, mantendo apenas Eric Dier em relação à equipa que perdeu com o West Ham, os aplausos de Mourinho eram bem audíveis na transmissão pela atitude dos jogadores sem bola, a serem pressionantes na reação à perda, e ainda mais e melhor se ouviram no primeiro grande momento de classe de Dele Alli, apanhando uma bola de costas na área para marcar de pontapé de bicicleta. “Ganda golo, ganda golo”, dizia o técnico português na área técnica enquanto aplaudia o momento de inspiração (10′). E as chances foram-se sucedendo, sobretudo uma em que Vinícius foi bem desmarcado por Lamela na área, tirou da frente o guarda-redes Manuel Kuttin mas viu Henriksson tirar a bola em cima da linha perto do intervalo (43′).

Os austríacos tentaram depois fazer uma entrada mais forte para o segundo tempo, ficaram a reclamar um lance não considerado onde Dieng apareceu no chão na área após um lance com Eric Dier e sofreram no minuto a seguir o segundo golo, desta vez com Dele Alli a cruzar largo da esquerda para o desvio de cabeça de Carlos Vinícius (50′). Essa tentativa de deixar uma outra imagem por parte do Wolfsberger estava em definitivo arrumada e foi o Tottenham a dominar ainda mais a partida a partir daí, com Lamela e Alli a terem boas oportunidades para irem aumentando a vantagem bem travadas por Kuttin. E a boa entrada de Gareth Bale imprimiu ainda mais ritmo, com o galês a confirmar os bons sinais que tinha deixado frente ao West Ham e a marcar um grande golo num remate ao ângulo de pé esquerdo na área após mais uma assistência de Dele Alli, que esteve nos três golos dos londrinos. A sete minutos do final, em mais um erro defensivo dos austríacos, Vinícius bisou de pé esquerdo e fechou as contas.