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“Tenho lutado desde que era criança. 
Não sou um sobrevivente.
Sou um guerreiro extraordinário”

Como o FC Porto recordara esta terça-feira, numa mensagem forte de apoio ao filho pródigo que chegou de Cuba com apenas 21 anos para escrever uma história sem paralelo no clube e na Seleção Nacional, Alfredo Quintana era mais do que um simples guarda-redes andebol. Era grande mas arriscou ser maior. Era gigante mas queria crescer. Era enorme mas queria esticar. Era diferente. O luso-cubano era sobretudo diferente, dentro e fora de campo. Uma pessoa diferente, um atleta diferente. Que lutou desde que era criança, que aos 32 anos ainda continuava lutar sem encontrar um obstáculo ou um adversário que achasse impossível de superar. Esta segunda-feira, quando estava à conversa antes de acabar o treino no ginásio, sofreu uma paragem cardiorrespiratória. E não resistiu.

“O Hospital de São João comunicou ao FC Porto que Alfredo Quintana faleceu às 12h00 de hoje. O guarda-redes luso-cubano da equipa de andebol, de 32 anos, tinha sido internado na segunda-feira depois de ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória quando se preparava para iniciar um treino no Dragão Arena”, anunciou o clube.

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Desde março de 211 no Porto, onde chegou ao abrigo do protocolo de cooperação assinado entre as federações de Cuba e de Portugal, Quintana acabou por surpreender até mesmo aqueles que achavam que não podiam ser surpreendidos. Porque se o guarda-redes mostrava grande potencial, cresceu a fazer-se um número 1 ainda melhor. Como factor decisivo de centenas de jogos. Como líder. Como referência. Como um dos maiores da atualidade entre os postes, mesmo resistindo a mudar-se para uma outra liga europeia mais competitiva como teve oportunidade de fazer. A partir de 2014, tornou-se no Cartão do Cidadão aquilo que já sentia como tal: português. E também aqui fez com que a sua história fosse histórica, contribuindo de forma decisiva para as melhores participações da Seleção no Campeonato da Europa (sexto lugar, 2020) e no Mundial (décima posição, 2021).

No FC Porto, ganhou seis Campeonatos, uma Taça de Portugal e três Supertaças. Mais do que isso, tornou-se uma figura incontornável do Dragão Arena, das modalidades e do próprio clube. Pela boa disposição, pela capacidade humana de ajudar o próximo, até pela ginga para dançar os ritmos cubanos que de vez em quando levava para os balneários e para os estágios. Depois, entrava em campo e tornava-se um monstro. A encher a baliza, a puxar pelas bancadas, a não vacilar perante os ambientes mais hostis que o tentavam pressionar – aliás, foi essa forma de ser que mereceu ainda mais respeito por parte de adversários e rivais, incluindo adeptos mais ferrenhos.

Ao todo, realizou 504 jogos e marcou 48 golos, mais um feito atípico tendo em conta a posição e a modalidade. Um feito atípico mas quase natural perante as características enquanto guarda-redes: alto (2,01m), elástico, explosivo, com grandes reflexos que lhe permitiam vezes sem conta somar defesas consecutivas quando o primeiro ressalto sobrava para adversários, com uma enorme rapidez que lhe dava vantagem para visar a baliza contrária quando o opositor atacava com guarda-redes avançado, para lançar ataques 1×0 e até para fazer substituições defesa/ataque sem que a equipa fosse apanhada desprevenida. Características como nunca um guardião nacional teve, já para não falar dos 102kg sendo esguio e uma envergadura assustadora numa pessoa sempre descrita como dócil.

Quintana, filho de um antigo jogador de voleibol e com um irmão gémeo, tinha muito por fazer. Mesmo muito. E 2021 era um daqueles anos que mais gostava: já depois de ter estado no Campeonato do Mundo, e além de disputar o resto da fase de grupos da Champions para conseguir a melhor posição para os oitavos e arriscar depois mais uma surpresa contra os tubarões da modalidades, queria conquistar o Campeonato que no ano passado ficou “atravessado” por sentir que o FC Porto iria ser o melhor se não fosse a pandemia e, pelo meio, garantir no torneio de qualificação olímpica com França, Croácia e Tunísia aquela que pode ser a primeira participação de sempre de Portugal nos Jogos, que se irão realizar em Tóquio. Era tudo isto que queria, revelando um especial cuidado na preparação para se apresentar no topo de forma e colocando sempre a família à frente de tudo, da mulher Raquel à filha Alicia, nascida em 2019. “O mundo está o caos mas o meu está sorridente”, escreveu nas redes sociais com uma imagem da filha dentro de um carro miniatura. Foi após a paternidade que se mudou para Gaia.

Do nada, tudo mudou. E a forma como aconteceu deixou em choque os companheiros, pessoas próximas dentro e fora de campo, no FC Porto ou na Seleção. Quintana era figura principal de uma verdadeira família.

“Tens uma Nação a lutar contigo, Dragão!”: as mensagens de apoio a Quintana, do FC Porto a Helton, passando por rivais e clubes estrangeiros

Depois de ter participado no domingo na vitória dos dragões frente ao Águas Santas numa jornada em atraso da Liga, que confirmou a liderança dos azuis e brancos com 19 vitórias noutros tantos jogos, o guarda-redes chegou na manhã de segunda-feira ao Dragão Arena para preparar o encontro diante do Meshkov Brest, da Bielorrússia, a contar para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Entre análise de vídeo e trabalho de campo, a sessão iria acabar com recuperação no ginásio mas, havendo ainda algum tempo até à chegada da equipa de hóquei em patins para treinar também (13h45), alguns jogadores foram jogar um pouco de futebol, como era habitual.

Dois golos na Maia, testes Covid, a bola na bancada no futebol, 45 minutos de paragem cardiorrespiratória e a luta pela vida de Quintana

A certa altura, quando uma bola foi para a bancada e o jogo parou, Quintana ficou à conversa com Tiago Cadete, preparador físico do FC Porto. Foi nessa altura que caiu, inanimado. Do nada. Apesar da presença de elementos do departamento médico no recinto, que foram de imediato acudir o guarda-redes, e da rápida chegada do INEM dez minutos após o sucedido, as tentativas de reanimação após a paragem cardiorrespiratória foram-se revelando infrutíferas até ser estabilizado e levado para o Hospital de São João, onde entrou nos Cuidados Intensivos. Ao final da tarde de segunda-feira, em coma induzido, o coração encontrava-se estável mas foi detetado um edema cerebral, que colocou o prognóstico como reservado por parte dos médicos. Não resistiu. E o bom gigante partiu, num desfecho que as pessoas mais próximas viam quase como inevitável perante o quadro clínico.

Alfredo Quintana, guarda-redes internacional do FC Porto, sofre paragem cardiorrespiratória no treino. Próximas horas decisivas

E recordando uma entrevista com questões e respostas rápidas de A a Z feitas pelo guarda-redes por altura do 35.º aniversário do jornal O Jogo, este era o dicionário de Alfredo Quintana, uma página de ouro no andebol do FC Porto e da Seleção que foi e ficará para sempre como muito mais do que isso pelo impacto único que teve não só no clube e na modalidade mas também em balneários com companheiros que não mais esquecerão o amigo.

Andebol. Felicidade
Brincos. Quintana
Caribe. Amor
Dragão Arena. Casa
Europeu. Um sonho tornado realidade
Família. O melhor do mundo
Golos. Importantes
Havana. Paixão
Imprensa. Complicada
José Magalhães. Mestre
Kiel. Colosso
Livre de 7 metros. Atento
Magnus Anderson. Vírus
Naturalizado. Luso-cubano
Olímpicos. Sonho
Portistas. Paixão
Quintana. Meio louco
Remates. Fácil
Super Dragões. Força
Tripeiro. Quintana
União. Equipa de andebol

Vitória. Porto
Xenofobia. Nenhuma
Zero. Um, que é o número