10 de janeiro de 1988. Há mais de 33 anos, num encontro da 16.ª jornada da Zona Sul do Campeonato Nacional da II Divisão, aquele que era na altura o segundo escalão do futebol português, o Estoril empatou em casa com o Barreirense. O golo dos estorilistas foi marcado por Paulinho, que mais tarde chegou a jogar pelo Benfica, enquanto que o empate apareceu por intermédio de Jorge Ferreira, que foi internacional português quando representava o V. Setúbal. No meio de tudo isso, do lado do Estoril, estreava-se um treinador: Fernando Santos.

Foi nesse dia de janeiro de 1988 que Fernando Santos se estreou enquanto treinador principal de uma equipa sénior. Foi o primeiro de 999 já realizados — o número mil acontecia este sábado, em Belgrado, ao comando da Seleção Nacional e contra a Sérvia. Ao longo de 33 anos, acumularam-se experiências: Estrela da Amadora, FC Porto, AEK, Panathinaikos, Sporting, novamente o AEK, Benfica, PAOK, Grécia e Portugal. Ao longo de 33 anos, acumularam-se títulos: um Campeonato, duas Taças de Portugal, duas Supertaças, uma Taça da Grécia, um Campeonato da Europa e uma Ligas das Nações. Mas nunca, nem ao fim de 33 anos, faltou ambição.

Ficha de jogo

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Sérvia-Portugal, 2-2

Qualificação para o Campeonato do Mundo 2022

Estádio Rajko Mitic, em Belgrado (Sérvia)

Árbitro: Danny Makkelie (Holanda)

Sérvia: Dmitrovic, Milenkovic, S. Mitrovic, Pavlovic, Lazovic (Maksimovic, 45′), Milinkovic-Savic, Gudelj, Tadic (Djuricic, 81′), Kostic (Ristic, 72′), Vlahovic (Radonjic, 45′), Mitrovic (Jovic, 88′)

Suplentes não utilizados: Rajkovic, Nikolic, Petkovic, Spajic, Zivkovic, Krsticic, Grujic

Treinador: Dragan Stojkovic

Portugal: Anthony Lopes, João Cancelo (Nuno Mendes, 72′), José Fonte, Rúben Dias, Cédric, Danilo, Sérgio Oliveira (Renato Sanches, 72′), Bruno Fernandes (João Palhinha, 90+1′), Bernardo Silva, Diogo Jota (João Félix, 85′), Cristiano Ronaldo

Suplentes não utilizados: Rui Silva, José Sá, Luís Neto, Domingos Duarte, André Silva, Rafa, Rúben Neves, Pedro Neto

Treinador: Fernando Santos

Golos: Diogo Jota (11′ e 36′), Mitrovic (46′), Kostic (60′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Bruno Fernandes (53′), a José Fonte (54′), a Maksimovic (56′), a Cristiano Ronaldo (90+4′); cartão vermelho direto a Milenkovic (90+2′)

“Não sabia, não tinha nenhuma noção disso. Eu não contabilizo nada (…) Se tivesse seguido a carreira natural de treinador de clube teria muitos mais, porque nos últimos 10 anos fiz por volta de 150/160 jogos a nível das seleções, quer na Grécia quer aqui. Ora se eu tivesse feito 10 anos normais ao serviço de um clube, teria feito 600 (…) Aquilo que eu gostava de cumprir como objetivo era levar Portugal a ser campeão do mundo, obviamente. Porque, de resto, acho que a Liga dos Campeões, mas não sei se lá chegarei ou se vou estar numa equipa que me possa proporcionar isso. Não sei, o futuro a gente nunca sabe”, explicou o selecionador nacional, numa antevisão onde teve de responder novamente ao facto de ser um alegado “resultadista”, que dá prioridade às vitórias e não às exibições.

“Não acho nada disso. Obviamente que é uma coisa que os treinadores têm sempre presente, que o resultado é o fundamental. Não conheço nenhuma forma no futebol em que os treinadores não queiram ganhar ou não achem que o resultado é importante. Agora, não me caracterizo nunca por ser um treinador que só pensa no resultado. Penso no resultado em primeiro lugar, mas depois penso que a equipa jogue bem e que ofereça bons espetáculos às pessoas. Eu acho que somos todos iguais”, concluiu Fernando Santos, que este sábado voltava a Belgrado, o sítio onde realizou o primeiro jogo como selecionador da Grécia, há mais de 10 anos.

Depois da vitória discreta contra o Azerbaijão, com um autogolo, Portugal deslocava-se à Sérvia para defrontar aquele que é, em teoria, o adversário mais complicado do Grupo A deste apuramento para o Mundial do Qatar. Contra a seleção de Dragan Stojkovic, que na primeira jornada derrotou a Irlanda e por isso tinha os mesmos três pontos que a Seleção Nacional, Fernando Santos não podia contar com João Moutinho. O médio do Wolverhampton, que foi titular contra o Azerbaijão, sentiu dificuldades físicas ao longo dos últimos dias e era substituído nas opções por Danilo Pereira, que tinha ficado de fora nessa partida.

Ora, Danilo era precisamente uma das novidades do onze inicial português contra a Sérvia e era uma das seis alterações que o selecionador fazia face à equipa que defrontou o Azerbaijão. Domingos Duarte dava o lugar a José Fonte ao lado de Rúben Dias, Cédric aparecia na direita da defesa, com Cancelo substituir Nuno Mendes do outro lado, Danilo rendia então o indisponível Moutinho, a dupla Bruno Fernandes e Sérgio Oliveira aparecia em vez de Rúben Neves e Pedro Neto e Diogo Jota era o eleito para completar o trio de ataque, em conjunto com Ronaldo e Bernardo e na posição que na quarta-feira foi de André Silva. João Félix, de forma ligeiramente surpreendente, começava no banco. Do outro lado, o selecionador sérvio fazia cinco mexidas e lançava o ex-Sporting Gudelj no onze, com os ex-Benfica Jovic, Zivkovic e Djuricic a começarem na condição de suplentes, assim como Grujic, médio do FC Porto. O destaque, naturalmente, ia para o capitão Dusan Tadic, jogador do Ajax, para Milinkovic-Savic, uma das referências da Lazio, e ainda Kostic, companheiro de André Silva no Eintracht Frankfurt.

A Sérvia apresentava-se com três centrais e defendia com cinco elementos mais recuados, ou seja, dificilmente existiria um encaixe entre as duas equipas, já que Portugal atuava num 4x3x3 clássico onde Cristiano Ronaldo era a referência no corredor central. A seleção sérvia desenhou o primeiro lance mais perigoso, com Kostic a rematar contra Cédric (7′), mas Ronaldo respondeu de imediato ao atirar por cima da trave na sequência de uma assistência de Bernardo (8′). Os minutos iniciais da partida revelaram que dificilmente o jogo seria controlado, de uma forma clara, por qualquer um dos lados: a bola discutia-se principalmente no meio-campo e o ritmo mantinha-se elevado, entre jogadas da Sérvia pelos corredores e lances de Portugal a procurar a influência que Bernardo e Bruno Fernandes, principalmente eles, podiam ter no setor ofensivo.

Logo depois dos primeiros 10 minutos, a Seleção Nacional colocou-se em vantagem. Numa jogada pela direita, quando Cristiano Ronaldo tentou driblar um adversário mas ficou sem espaço, Bernardo recebeu e cruzou de imediato para o segundo poste; a solicitação do jogador do Manchester City foi perfeita e Diogo Costa, nas costas do defesa sérvio, cabeceou para abrir o marcador (11′). Após o golo, de forma natural, Portugal tentou gerir a vantagem com mais posse de bola, oferecendo alguma iniciativa à Sérvia: a equipa de Dragan Stojkovic explorava principalmente as alas, onde tanto Cédric como Cancelo ofereciam alguma margem de manobra e não eram muito apoiados pelos médios mais próximos dos corredores. Nesta fase, Vlahovic rematou por cima (31′), numa jogada em que teve muito espaço em zona de finalização, e Mitrovic igualou toda a equipa portuguesa em relação às ações na grande área adversária.

A eficácia da Seleção, porém, era diametralmente oposta à demonstrada contra o Azerbaijão. Num lance muito semelhante ao do primeiro golo, Portugal voltou a marcar por intermédio de Diogo Jota e aumentou a vantagem em Belgrado: Cédric recebeu na direita de Bernardo e tirou outro cruzamento bem medido para a grande área; o avançado do Liverpool, na passada, apareceu em posição frontal para a baliza de Dmitrovic e cabeceou para o poste mais distante (36′). Até ao fim da primeira parte, Cristiano Ronaldo ainda cobrou um livre direto, que passou por cima da trave (44′), mas já pouco mais aconteceu.

Portugal ia para o intervalo a vencer de forma clara e depois de dar uma resposta séria à exibição pobre contra o Azerbaijão — principalmente no que toca à eficácia, já que a Seleção marcou nos dois remates enquadrados que fez na primeira parte. A Sérvia procurava atacar principalmente através de cruzamentos para a área, solicitando o forte jogo aéreo de jogadores como Kostic, Vlahovic ou Mitrovic, mas Fonte e Rúben Dias mantinham-se praticamente irrepreensíveis na hora de anular esses lances. Já Diogo Jota, que marcou cinco golos nos quatro jogos em que foi titular pela Seleção, ia justificando por inteiro a aposta de Fernando Santos.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Sérvia-Portugal:]

O selecionador sérvio fez duas alterações ao intervalo, ao lançar Maksimovic e Radonjic, e Portugal foi desde logo surpreendido pela redução da desvantagem. Radonjic, acabado de entrar, ganhou espaço no corredor direito e cruzou para o coração da grande área; Danilo ainda tentou o corte, Fonte ficou batido e Mitrovic conseguiu cabecear para dentro da baliza (46′). No primeiro lance da segunda parte, a Sérvia chegou ao golo através da estratégia que procurou desde o apito inicial: cruzamentos para a área.

Na sequência do golo de Mitrovic e com ainda 45 minutos para jogar, a Sérvia tentou de imediato chegar ao empate, com um grande remate de Tadic para uma boa defesa de Anthony Lopes (54′) e um cabeceamento ao lado de Milinkovic-Savic (55′). O meio-campo português, que tinha estado em bom plano durante a primeira parte, entrou dormente para o segundo tempo e estava a ser totalmente rasgado por Radonjic, que teve uma entrada extraordinária em campo. Os sérvios tinham muito espaço para construir e desenhar, principalmente a partir da ala direita — onde João Cancelo não estava a viver uma das suas melhores noites. A transição defensiva da Seleção parecia chegar sempre atrasada, face à movimentação adversária, e foi precisamente depois de uma sequência de atrasos que a Sérvia conseguiu chegar ao empate.

Após um lance de ataque de Portugal, a seleção sérvia lançou um contra-ataque letal: Tadic abriu em Radonjic na direita e o jogador do Hertha Berlim, com um grande pormenor técnico, desmarcou Kostic; o avançado do Eintracht Frankfurt, só com Anthony Lopes pela frente, rematou para marcar (60′). Mesmo depois de perder a confortável vantagem que tinha conquistado na primeira parte, a Seleção Nacional não conseguiu reagir e até ficou perto de sofrer o terceiro golo, com Rúben Dias a intercetar um remate de Maksimovic (64′) e Anthony Lopes a defender um pontapé de Radonjic (65′). A cerca de 20 minutos do apito final, passava a ideia de que Portugal ainda não tinha regressado do intervalo.

Foi nesta altura que Fernando Santos decidiu mexer pela primeira vez. Logo depois de Ristic entrar para o lugar de Kostic, Nuno Mendes substituiu João Cancelo (que estava claramente a ser o elemento ‘menos’ da equipa) e Renato Sanches rendeu Sérgio Oliveira. Cristiano Ronaldo perdeu uma gigantesca oportunidade, ao falhar o remate à boca da baliza depois de um cruzamento de Bruno Fernandes (74′), e a Sérvia ia dominando a partida de uma forma geral — até porque tinha o controlo do meio-campo, algo que Portugal nunca permitiu até ao intervalo.

Nuno Mendes equilibrou as movimentações no corredor esquerdo, algo que permitiu à Seleção atacar com maior confiança, e os últimos 10 minutos trouxeram um ascendente ligeiro por parte de Portugal, que tentava chegar ao último terço principalmente através de Bruno Fernandes e Diogo Jota. João Félix ainda entrou para o lugar de Jota (numa altura em que Ronaldo até parecia ser o favorito a sair, já que sempre mostrou pouca disponibilidade física para poder desequilibrar, Milenkovic foi expulso com vermelho direto depois de uma entrada muito dura sobre Danilo mas a polémica ficou guardada para os descontos. Cristiano Ronaldo antecipou-se ao guarda-redes depois de um cruzamento de Nuno Mendes e desviou para dentro da baliza: a bola pareceu entrar mas a equipa de arbitragem considerou que o golo não existiu (sendo que, nesta qualificação, o VAR não está disponível). O capitão da Seleção viu cartão amarelo por protestos e abandonou o campo ainda antes do apito final, atirando a braçadeira para o chão.

A Seleção fez este sábado um jogo totalmente dividido em dois: entre uma primeira parte bem conseguida, com uma eficácia acima da média e um meio-campo forte que controlava as ocorrências; e uma segunda parte muito pobre, sem oportunidades de golo, com uma transição defensiva lenta e uma dormência inexplicável. Pelo meio, empatou na Sérvia, aquela que é em teoria a grande adversária no Grupo A da qualificação para o Mundial 2022 — e onde uma vitória poderia ser meio caminho andado para o apuramento direto.