A poetisa norte-americana Amanda Gorman, que se tornou mundialmente conhecida a 20 de janeiro pela leitura do poema A Colina Que Subimos durante a tomada de posse do presidente Joe Biden, vai ser publicada nos próximos meses em Portugal pela Editorial Presença com tradução da jornalista e programadora cultural de origem angolana Carla Fernandes. Está prevista a edição ao longo deste ano dos três livros que Amanda Gorman assinou até hoje: dois títulos de poesia, em edição bilingue, e um livro infantil ilustrado, anunciou a editora nesta segunda-feira.

A versão portuguesa de A Colina Que Subimos deve chegar à livrarias até junho e seguirá uma edição americana recente com prefácio da apresentadora de televisão Oprah Winfrey. A partir de setembro, a Presença publicará o poemário The Hill We Climb and Other Poems e o livro infantil Change Sings, ilustrado por Loren Long.

A tradução da obra de Amanda Gorman, nomeadamente o poema da tomada de posse, tem gerado enorme polémica devido às críticas de setores ativistas, segundo os quais é necessário fazer corresponder a identidade de um tradutor à de um autor quando se trata de conteúdos com relevância política e de afirmação identitária.

Caso Amanda Gorman: quem traduz deve ter a mesma identidade de quem é traduzido?

Na Holanda, a escritora Marieke Lucas Rijneveld, de cor de pele branca, foi inicialmente apontada pela editora Meulenhoff como tradutora de A Colina Que Subimos, alegadamente a conselho da própria Amanda Gorman. Perante uma torrente de críticas — nomeadamente um artigo de jornal da ativista negra Janice Deul, segundo a qual a tradutora de um poema destes deveria ser jovem, mulher e negra — Marieke Lucas Rijneveld excluiu-se da tarefa. Dias depois, na Catalunha, o tradutor Victor Obiols foi desconvidado pela editora Barcelona Univers, por afinal ter o “perfil errado” para verter para catalão A Colina Que Subimos.

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Há poucas semanas, a escritora de origem guineense Gisela Casimiro disse ao Observador que esta questão é a “sequência lógica” do debate gerado pelo movimento Black Lives Matter — o movimento que começou nos EUA contra a violência policial sobre negros. Referindo-se a A Colina Que Subimos, Gisela Casimiro notou que o poema “não corresponde apenas a palavras que qualquer um pode traduzir”: “Ela escreveu o poema, ela disse o poema, ela foi vista a dizer o poema. Isto é fundamental, porque os negros não são só um nome ou um número, têm um corpo, uma mente, uma voz. Amanda ocupou um lugar, teve uma presença. Criar um lugar, dar um lugar, ocupar um lugar. Porque é que não queremos entender o que Amanda Gorman quis dizer no poema e o que este momento tem de histórico e fundamental?”

Carla Fernandes, que nasceu em Angola em 1980 e vive em Lisboa, disse esta segunda-feira que está “a trabalhar nas traduções” e “quando as obras forem publicadas será oportuno falar” à imprensa. Carla Fernandes é fundadora e diretora da rádio Afrolis, foi jornalista no serviço de língua portuguesa da rádio pública Deutsche Welle e está a fazer um doutoramento em ciências da comunicação na Universidade Autónoma de Lisboa.

Até à hora de publicação desta notícia não tinha sido possível obter um comentário dos responsáveis editoriais da Presença sobre o processo de escolha da tradutora e as implicações da obra de Amanda Gorman.

Em comunicado divulgado na segunda-feira de manhã, a editora referiu que ao integrar o catálogo da Presença Amanda Gorman se junta a nomes como os de Malala Yousafzai, Bana Alabed, Greta Thunberg e Gitanjali Rao, o que “reforça a aposta da editora em novas e inspiradoras vozes femininas, nas mais variadas áreas de atuação”.

Notícia atualizada às 13h38 com um breve depoimento de Carla Fernandes.