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O vício em raspadinhas tem levado cada vez mais pessoas a pedirem ajuda ao Centro de Apoio a Toxicodepedentes (CAT) e a clínicas privadas. Descrita por alguns psiquiatras como sendo a “droga do século XXI”, a adição afeta principalmente as classes mais vulneráveis, principalmente os idosos e as mulheres, que encaram um jogo como uma distração e uma forma de ganhar dinheiro.

“Cerca de 40% dos meus pacientes são jogadores sem ser de casino físico, uma grande parte de raspadinhas. Em termos percentuais, estão equiparados aos alcoólicos”, descreve Alexandre Inverno, da clínica Linha d’Água ao JN (versão papel). Também no setor público se tem registado um aumento exponencial na procura de ajuda para tratar esta adição. Em declarações ao mesmo jornal, Sofia Pinto, responsável pela Unidade de Psiquiatria Comunitária do Centro Hospitalar Universitário do Porto, indica que o fenómeno é “preocupante” e dá o exemplo de um paciente que se queria atirar da Ponte Arrábida, no Porto, após ter perdido tudo em raspadinhas.

Pedro Morgado e Daniela Vilaverde alertaram para o problema em 2018, através de um estudo publicado na revista científica The Lancet. Em Portugal, existe um “aumento brutal do dinheiro investido” nas raspadinhas, havendo “características que favorecem o estabelecimento de comportamento de jogo problemático ou patológico”. Comprar uma raspadinha é fácil, é barato, e confere uma sensação de gratificação instantânea, que leva rapidamente ao estabelecimento de uma adição.

Segundo um estudo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, 76,6% dos jogadores de raspadinha pertencem à classe social baixa ou média-baixa. Sofia Pinto revela mesmo que já “há casos sinalizados entre beneficiários do Rendimento Social de Inserção [RSI]”, que ficam sem dinheiro por causa do jogo, sendo que a Segurança Social já teve de intervir em alguns casos, referenciando-os para tratamento.

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Governo quer lançar raspadinha, iniciativa não é consensual

A 15 de maio, o ministério da Cultura planeia lançar a “Raspadinha do Património”, com um custo de um euro, utilizando os lucros obtidos no jogo para o Fundo de Salvaguarda do Património Cultural. Iniciativa não tem reunido consenso, sendo que o Conselho Económico e Social já apelou ao congelamento da medida.

Pedro Hubert, do Instituto de Apoio ao Jogador, sinaliza ao JN que devia haver “outras formas” de o Governo “ganhar dinheiro”. “Aquilo que vai contra a raspadinha é o facto de serem os mais vulneráveis a contribuir para o património”, afirma. Também a Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Proteção de Património revelou ao mesmo jornal que é “irónico” que “sejam as classes mais vulneráveis a financiar o património, uma função que devia de ser do Estado”. 

Por seu turno, Edmundo Marinho, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, disse ao jornal que é “excessivo” que se ligue a raspadinha a um eventual problema social. O ministério da Cultura também salientou que não há “quaisquer fenómenos” sociais “associados às  raspadinhas”, ainda que o Governo espere pela conclusão de um estudo sobre lotaria instantânea para ver se avança com a medida.