Jimmy Lai já estava na cadeia preventivamente e esta sexta-feira ficou a saber que terá de cumprir 14 meses de prisão. Crime? Ter participado nas manifestações de 2019 contra a crescente interferência da China no estatuto semi-autónomo do território. O conhecido magnata dos media não está só. Com ele foram condenados por um tribunal de Hong Kong a penas de prisão mais oito vozes históricas do movimento pró-democracia na antiga colónia britânica, como a de Martin Lee, considerado “o pai da democracia de Hong Kong”  ou de Margaret Ng, advogada e deputada.

Mas os dois tiveram melhor sorte do que o Jimmy Lai: fazem parte de um grupo de quatro ex.deputados e advogados que, devido à sua idade e contributo para a sociedade, viram as suas penas suspensas, segundo o Washington Post. Lee, que foi o redator da Lei Básica de Hong Kong feita na transferência de Hong Kong do Reino Unido para a China em 1997, tem 82 anos e Margarete 73, por exemplo.  Assim, continuam a ser livres, mas qualquer infração menor pode levá-los a uma detenção imediata.

Hong Kong. Ex-deputados e magnata Jimmy Lai condenados por participação em protestos de 2019

Ao todo o tribunal condenou os nove ativistas a penas que oscilam entre os  8 e os 18 meses de prisão, sob a acusação de terem organizado uma reunião proibida nos protestos de 2019 contra o poder exercido pelo governo central chinês no território.

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Jimmy Lai, fundador da Apple Daily e um feroz crítico da ação do governo chinês, foi condenado a um ano de prisão efetiva. O empresário chinês já tinha sido acusado e preso em Agosto de 2020 por críticas à lei da segurança nacional, tendo visto o seu pedido de fiança negado. Agora, foi condenado a 15 meses de prisão por envolvimento nos protestos a 18 de Agosto de 2019, e a oito meses por ter estado nas manifestações de 31 de Agosto de 2019.  Ficou com 14 meses de prisão efetiva depois de uma redução de penas.

Para além disso, Lai ainda se viu nesta sexta-feira notificado de mais duas acusações: “conspiração com forças estrangeiras” e “conspiração para obstrução à justiça”, por alegadamente ter ajudado Andy Li, um dos 12 ativistas de Hong Kong detidos na China em 2020, quando tentavam fugir para Taiwan, um grupo que incluía um luso-chinês.. E foi ainda ouvido em mais dois processos.

Quatro processos no mesmo dia? Isto é ridículo”, protestou Mark Simon, amigo de Jimmy Lai. “Isto é uma demonstração de que podem esmagar a pessoa que consideram ser a mais poderosa no movimento. Estão a enviar uma mensagem para todos.”

Uma das novas acusações, ligada à lei de segurança nacional, pode ser punível com prisão perpétua. Os media chineses descrevem Lai como um “traidor”.

A juíza Amanda Woodcock baseou a sua sentença no incitamento à marcha ilegal, que começou como uma assembleia legal no “Victoria Park”, mas viria a mobilizar 1.7 milhões de manifestantes, que se espalharam pela cidade num movimento conjunto de revolta contra as políticas do governo central chinês na cidade. A juíza não concordou com o argumento de que o pacifismo das demonstrações deva servir como atenuante. Acredita, pelo contrário, que a perturbação da ordem pública, provocando o encerramento de ruas e trânsito pela cidade, foi determinante na sua decisão. “A prisão imediata é a única opção”, disse, citada pelo Washington Post.

A decisão do tribunal de Kowloon Ocidental, reveste-se de grande significado político: segundo vários órgãos de comunicação social locais, vários ex-deputados (sete dos condenados foram do Conselho Legislativo de Hong Kong) e diplomatas estrangeiros (da União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Suécia, Austrália, Alemanha e França) assistiram à leitura da sentença. A diretora na China da “Human Rights Watch” disse que a decisão do tribunal é uma reivindicação contra “a democracia, a lei e a imprensa livre”:

Condenar Martin Lee, Margaret Ng, Jimmy Lai e outros ativistas é condenar a democracia, a liberdade de expressão, e o estado de direito. Eles serão sempre a consciência de Hong Kong independentemente de quaisquer acusações falsas que as autoridades chineses e de Hong Kong façam contra eles.”

Sophie Richardson acrescentou ainda, num comunicado citado pela imprensa internacional, que “a acusação, condenação e sentença destes ativistas sublinha a intenção do governo de Hong Kong de eliminar toda a oposição política no território”.