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Todas as guerras necessitam de um primeiro avanço. De um grito, de uma tomada de posição, de um anúncio. Neste caso, foi um comunicado. Curto, lacónico mas com força suficiente para abrir aquela que será uma batalha de fundo no futebol europeu, tendo como contexto a necessidade e possibilidade de ganhar mais dinheiro. Uns, catalogados como os ricos, dizem que não querem tirar aos pobres mas sim partilhar por todos. Outros, que têm por missão defender todos dos pobres aos ricos, garantem que não terão contemplações contra aqueles que já são ricos e querem fazer de tudo para aumentar essa riqueza. Agora é oficial: chegou a Superliga Europeia.

Real Madrid e Manchester United são apontados de forma transversal como os grandes impulsionadores desta nova prova do calendário europeu, sendo que, na última Assembleia Geral dos merengues, Florentino Pérez, presidente do clube deixou claro que era inevitável e necessário encontrar novas fórmulas para a principal prova da UEFA. A empresa Key Capital, neste caso apenas a pedido do campeão espanhol, trabalhou de forma confidencial no projeto que em janeiro terá sido mesmo apresentado a Andrea Agnelli, presidente da Juventus e da Associação de Ligas Europeias. Em Espanha a Marca confirmava as três entradas esperadas de Real Madrid, Barcelona e Atl. Madrid, em Inglaterra o The Times colocava nesse acordo Manchester United, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Liverpool e Tottenham. Estão todos confirmados, juntando-se ainda os italianos da Juventus, do Inter e do AC Milan. São estas as 12 formações que se propõem a arrancar com a Superliga Europeia.

De acordo com o comunicado apresentado na noite deste domingo, estas 12 equipas já estão confirmadas e mais três irão juntar-se também no papel de fundadores, estando na calha para esse papel (assim o aceitem) o Bayern, o B. Dortmund e o PSG. Dessa forma, esta nova prova teria um total de 20 clubes, os 15 fundadores e mais cinco que se iriam qualificar de forma anual para a Superliga Europeia mediante o rendimento na época anterior, com os jogos a decorrerem na mesma durante a semana para as provas nacionais serem jogadas ao fim de semana, num modelo semelhante ao que existe hoje entre competições locais e internacionais.

A nova competição prevê dividir as 20 equipas em dois grupos de dez, para nove jogos em casa e outros tantos fora. Inicialmente foi ventilada a hipótese de haver quase um segundo campeonato como acontece agora com a Euroleague de basquetebol (18 equipas que jogam em casa e fora contra si num total de 34 jornadas, com as oito primeiras apuradas para a Final Eight). Os três melhores classificados de cada grupo avançam para os quartos, os quartos e quintos jogarão um playoff de acesso à fase de eliminar. A partir daí, o modelo é semelhante ao que existe hoje na UEFA, com quartos e meias a duas mãos em casa e fora e a final a jogo único em terreno neutro.

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“Os clubes fundadores esperam manter-se em conversações com a FIFA e a UEFA por forma a encontrar as melhores soluções para a Superliga e para o futebol mundial em geral. A criação da nova Liga acontece num cenário em que a pandemia acelerou a instabilidade do atual modelo económico do futebol europeu. Durante anos, os clubes fundadores tiveram como objetivo melhor a qualidade e intensidade das provas europeias e, em particular, criar um torneio em que os melhores clubes e jogadores possam competir entre eles de forma mais frequente. Os clubes fundadores creem que as soluções propostas pelos reguladores não resolvem as questões fundamentais, que são a necessidade de oferecer jogos de mais qualidade e obter recursos financeiros adicionais para todo o mundo do futebol”, resume o comunicado dos 12 fundadores.

“Vamos ajudar o futebol a melhorar a todos os níveis a ocupar o lugar que merece no mundo. O futebol é o único desporto no mundo com mais de quatro mil milhões de seguidores e a nossa responsabilidade como clubes grandes é responder aos desejos dos adeptos e fãs”, destacou Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e da Superliga Europeia, que terá como vices Andrea Agnelli (líder da Juventus e também da Associação de Ligas Europeias) e Joel Glazer (vice-presidente do Manchester United, outro dos grandes impulsionadores).

UEFA ameaça com exclusões, castigos e o que mais houver, FIFA pede diálogo

Esta tarde, e sabendo o que se passava nos bastidores, a UEFA já tinha feito um comunicado onde criticava de forma aberta aquilo que sem referir nestes termos considerava ser uma traição ao órgão e ao futebol europeu, ameaçando com uma série de sanções a clubes e jogadores que aceitassem entrar nesta ideia “dissidente”.

“Ouvimos que alguns clubes ingleses, espanhóis e italianos ponderam anunciar a criação de uma liga fechada. Se isto acontecer, nós (UEFA, Federação Inglesa, Federação Espanhola, Federação Italiana, Premier League, La Liga e Serie A mas também a FIFA e todas as nossas outras associações) continuaremos unidos no esforço de travar este projeto cínico, baseado em interesses próprios de alguns clubes numa altura em que, mais do que nunca, a sociedade precisa de solidariedade”, destacou a missiva emitida pelo órgão que tutela o futebol europeu.

“Iremos considerar todas as medidas ao nosso alcance, a todos os níveis, tanto judiciais como desportivas no sentido de evitar que tal venha a acontecer. Como foi dito anteriormente pela FIFA e seis Federações, os clubes em causa serão banidos de qualquer outra competição doméstica, europeia ou mundial, e os seus jogadores poderão ser impedidos de representar as respetivas seleções. Agradecemos aos clubes de outros países, nomeadamente franceses e alemães, que recusaram participar nisto. Apelamos a todos os amantes de futebol, adeptos e políticos que se juntem a nós e lutem contra este projeto, se for anunciado. Esta persistente interesse próprio de alguns já foi levado longe de demais. Já chega”, acrescentou o comunicado da UEFA.

Em resumo, a proposta que será esta segunda-feira votada prevê aumentar o número de participantes na Liga dos Campeões de 32 para 36. A ideia é criar mais 100 jogos em relação ao atual modelo, com cada uma das equipas a fazer na primeira fase um total de dez jogos contra rivais dos mais fortes aos que têm menor ranking, cinco em casa e outros tantos fora, divididos em quatro grupos de nove. Os 36 apurados serão colocados em quatro potes diferentes, sendo que cada grupo terá duas equipas do lote A, três do B, três do C e dois dos D. As oito equipas com maior pontuação seguem de forma direta para os oitavos, ao passo que as formações do nono ao 16.º lugar e da 17.ª à 24.ª posição terão de fazer um playoff de acesso à fase a eliminar da prova, que mantém aí o seu normal funcionamento como hoje, com jogos em casa e fora e final a uma só mão.

“A FIFA mantém-se firme na defesa da solidariedade no futebol e num modelo de redistribuição equitativa que ajude a desenvolver o futebol como um desporto. Qualquer competição de futebol deve respeitar os princípios básicos de solidariedade, inclusão, integridade e redistribuição financeira equilibrada. Sem respeitar estes princípios, a FIFA pode apenas manifestar o seu desacordo em relação a uma liga europeia fechada, fora das estruturas internacionais do futebol. A FIFA apela a todas as partes envolvidas nas discussões acaloradas para que produzam um diálogo calmo, equilibrado e construtivo para bem do futebol e no espírito de solidariedade e fair play“, resumiu a FIFA num comunicado conhecido depois do anúncio.

Portugal também está contra a Superliga Europeia, da Federação à Liga

Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, e Pedro Proença, presidente da Liga Portugal, já tinham também comentado esta possibilidade ainda antes de ser oficializada na noite deste domingo.

“A hipótese da criação de qualquer tipo de Superliga Europeia merece o meu completo desacordo e reprovação. Discordo porque viola todos os princípios do mérito desportivo. Tanto quanto sabemos, seria algo para os clubes que se entendem como privilegiados. Merece a minha reprovação porque o mundo está neste momento a enfrentar o seu maior desafio, pelo menos olhando ao último século, e a última coisa que precisamos é de egoísmo e ganância. A Superliga não terá qualquer tipo de apoio em Portugal e, na minha opinião, todas federações devem recusá-la de uma forma clara”, disse Fernando Gomes à Press Association.

“A hipótese da criação de uma Superliga Europeia, pensada e desenhada por uma pequena elite com intenções exclusivas, é algo a que nos continuaremos a opor frontalmente. Uma insanidade que colocaria em causa todos os alicerces fundamentais em que o futebol sempre se desenvolveu. Seguiremos firmes e unidos na defesa das ligas nacionais, do mérito desportivo e de modelos que contribuam para o crescimento de todo o ecossistema do futebol e não apenas de uma reduzida e egoísta elite”, escreveu Pedro Proença no Facebook.