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Fernando Santos é o selecionador nacional com mais vitórias. Foi o primeiro e o único a ter conseguido conquistar um troféu internacional. Treinou os três principais clubes portugueses, foi campeão nacional e venceu duas Taças de Portugal e duas Supertaças. Ainda assim, quando é preciso descrever Fernando Santos, o primeiro adjetivo que surge é apenas um: conservador. A ideia de que o técnico não arrisca muito, de que coloca o objetivo de não perder à frente do de ganhar e joga muitas vezes pelo seguro, é frequentemente disseminada e subscrita. Mas é preciso não esquecer que este também é o treinador que, há cinco anos, garantiu que só saía de França e regressava a Portugal depois da final do Euro 2016.

Passaram então cinco anos, mais um do que o suposto, e a Seleção Nacional está prestes a embarcar para a adiada defesa do título. Com uma das melhores gerações de sempre no que toca à qualidade individual, com um lote alargado de jogadores a atuar nas equipas mais poderosas da Europa, com o respaldo de ter finalmente passado do quase para a conquista, Portugal apresenta-se agora como um crónico favorito a vingar nas fases finais das principais competições. Algo que Fernando Santos reconhece quase sempre e rejeita quase nunca. Ainda assim, o facto de a história da Seleção estar marcada por talentosas equipas que caíram no quase — a geração do Mundial de 1966, do Europeu de 1984, do Europeu de 2000 ou do Europeu de 2004 — faz com que seja fácil duvidar da possibilidade de uma repetição da conquista. E foi precisamente isso que o treinador quis explicar na conferência de imprensa de antevisão do encontro particular com a Espanha.

Ficha de jogo

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Espanha-Portugal, 0-0

Jogo particular de preparação para o Euro 2020

Wanda Metropolitano, em Madrid (Espanha)

Árbitro: Craig Pawson (Inglaterra)

Espanha: Unai Simón, José Gayá, Pau Torres (Eric García, 62′), Laporte (Diego Llorente, 79′), Marcos Llorente, Busquets (Rodri, 62′), Fabián Ruiz (Koke, 76′), Thiago Alcântara (Pedri, 62′), Sarabia (Gerard Moreno, 76′), Ferran Torres, Morata

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Suplentes não utilizados: De Gea, Robert Sánchez, Azpilicueta, Jordi Alba, Dani Olmo, Oyarzabal

Treinador: Luis Enrique

Portugal: Rui Patrício, Nélson Semedo, Pepe (Bruno Fernandes, 59′), José Fonte, Raphael Guerreiro (Nuno Mendes, 81′), Danilo Pereira, Sérgio Oliveira (William Carvalho, 59′), Renato Sanches (João Palhinha, 70′), Cristiano Ronaldo, Diogo Jota (Rafa Silva, 70′), João Félix (Pedro Gonçalves, 45′)

Suplentes não utilizados: Anthony Lopes, Rui Silva, João Moutinho, Rúben Neves, André Silva

Treinador: Fernando Santos

Golos: nada a registar

Ação disciplinar: nada a registar

Quando questionado sobre a capacidade dos espanhóis para ter posse de bola, Fernando Santos lembrou que não é possível dizer que Portugal é um dos candidatos a ganhar o Euro 2020 e achar simultaneamente que a Seleção Nacional tem principalmente de defender contra Espanha. “Espanha gosta de ter a bola e nós também. Vamos ver que é que consegue tê-la mais tempo. Como é que estamos sempre a dizer que Portugal tem de ganhar o Euro, que é favorito, e depois a seguir dizem-me que a Espanha é muito forte e que Portugal tem de defender? Ai ai ai. Portugal tem de jogar como sabe. Se formos a Espanha para defender, vamos jogar com todos atrás? Para isso, mais vale nem ir ao Europeu. Acredito que Portugal pode ganhar. Mas depois fala-se de Espanha e de França e dizem que temos de ter medo. Temos de acreditar que esta equipa tem condições para jogar olhos nos olhos com Espanha”, atirou o selecionador nacional.

Era com esta vontade, a vontade de “ser uma equipa com posse” cuja “filosofia” assenta no “ataque organizado”, que Portugal defrontava Espanha esta sexta-feira, na penúltima partida antes do arranque do Euro 2020. Em Madrid, no Wanda Metropolitano do Atl. Madrid e com as portas abertas a 30% da lotação — algo como 15 mil pessoas –, Fernando Santos lançava Danilo, Sérgio Oliveira e Renato Sanches no meio-campo, enquanto que Cristiano Ronaldo, Diogo Jota e João Félix eram os responsáveis pelo ataque. Nélson Semedo era o eleito para a direita da defesa, acompanhando Pepe, José Fonte e Raphael Guerreiro, e João Moutinho, Bruno Fernandes, Rúben Neves e o estreante Pedro Gonçalves começavam todos no banco. Gonçalo Guedes, ainda em isolamento por ter testado positivo para a Covid-19, e Bernardo Silva, João Cancelo e Rúben Dias, que estiveram na final da Liga dos Campeões com o Manchester City, eram as ausências. Do outro lado, Luis Enrique colocava Thiago Alcântara, Busquets e Fabián Ruiz no setor intermédio, para além de Sarabia, Ferran Torres e Morata na fase mais adiantada da equipa, e Azpilicueta, Koke, Rodri, Jordi Alba, Oyarzabal e Gerard Moreno eram suplentes. Adama Traoré, lesionado, falhava a partida.

Num jogo particular que servia como preparação para o Campeonato da Europa mas que era principalmente marcado pela candidatura ibérica à organização do Mundial 2030, cuja apresentação oficial decorreu antes do apito inicial com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, Portugal apresentou-se numa espécie de 4x2x3x1, com Renato Sanches encostado ao corredor direito e Diogo Jota no lado contrário. Não que se tenha visto muito desse setor da Seleção durante a primeira parte. Espanha, com as habituais jogadas rendilhadas e uma pressão muito alta, dominou de forma geral as ocorrências até ao intervalo e teve até cerca de 75% de posse de bola durante o quarto de hora inicial.

Marcos Llorente protagonizou a primeira situação de maior perigo, num lance em que não conseguiu concretizar devido a um corte de Pepe (10′), e Portugal só conseguiu chegar perto da grande área adversária na sequência de desequilíbrios de Jota ou Renato. A seleção de Luis Enrique controlava o jogo com a bola no pé e impedia Portugal de atacar de forma apoiada ou construir lances a partir de trás, conseguindo quase sempre recuperar a posse ainda em zonas adiantadas do relvado. Embora o encontro tenha chegado aos 20 minutos praticamente sem oportunidades de golo, Espanha encostou a Seleção ao próprio meio-campo e a equipa de Fernando Santos pouco ou nada conseguia fazer para o contrariar.

Portugal colocou a bola no fundo da baliza na primeira ocasião de que beneficiou mas o lance foi anulado: José Fonte cabeceou ao segundo poste, na sequência de um cruzamento de Raphael Guerreiro depois de um canto curto na direita, mas o cabeceamento certeiro do central não valeu devido a uma falta sobre Pau Torres no momento do salto (22′). Espanha reagiu logo depois, com Ferran Torres a aparecer ao segundo poste depois de um delicioso cruzamento de trivela de Morata, mas o cabeceamento do jogador do Manchester City saiu ao lado (27′). Cristiano Ronaldo ainda ficou perto de abrir o marcador num lance fortuito em que Unai Simón aliviou contra o capitão português (37′), Nélson Semedo fez o primeiro remate português com um pontapé por cima (41′) mas a verdade é que já pouco aconteceu até ao intervalo, com os espanhóis a manterem o ascendente mas sem asfixiarem totalmente a Seleção Nacional.

A primeira parte chegou ao fim sem golos, sem grandes oportunidades, com um golo anulado e com muita bola de Espanha para pouca de Portugal. Renato Sanches acabava por estar no melhor e no pior da Seleção, entre as arrancadas que eram o único fator desequilibrador no ataque e a falta de acerto defensivo que acabava compensada com faltas, e a Seleção falhava principalmente na definição dos lances ofensivos. Cristiano Ronaldo não aparecia em zonas de finalização porque recuava para procurar jogo, Diogo Jota era pouco solicitado na esquerda, João Félix tinha pouca influência no corredor central e Sérgio Oliveira parecia algo desconcentrado, com várias perdas de bola no próprio meio-campo. Do outro lado, Ferran Torres estava em evidência, com várias investidas positivas na ala direita e o prolongamento de uma reta final em crescendo ao serviço do Manchester City.

No arranque da segunda parte, Fernando Santos tirou João Félix e lançou Pedro Gonçalves, proporcionando a primeira internacionalização do jogador do Sporting. Portugal teve o primeiro lance mais perigoso depois do intervalo, com Diogo Jota a aparecer na grande área mas a falhar a finalização (48′), e Morata fez o primeiro remate enquadrado da partida ao fugir a Guerreiro para atirar e Rui Patrício defender (50′). A partida abriu no segundo tempo, com a Seleção a ter mais espaço no ataque mas Espanha a desfrutar também de maior mobilidade no último terço, e Fernando Santos não esperou para lá da hora de jogo para voltar a mexer.

Logo depois de Sarabia desperdiçar uma enorme oportunidade para abrir o marcador, com um remate por cima quando Rui Patrício estava fora do lance (58′), Bruno Fernandes e William Carvalho entraram para o lugar de Sérgio Oliveira e Pepe, o que significou que Danilo passou a atuar como central ao lado de Fonte. Diogo Jota teve uma boa ocasião logo depois, com um cabeceamento por cima depois de um cruzamento de Ronaldo (60′), e Luis Enrique mexeu pela primeira vez com uma tripla alteração, lançando Pedri, Rodri e ainda Eric García.

Com as duas substituições, Portugal passou a atuar com um onze particularmente ofensivo. William tinha maior influência com bola do que Danilo, Bruno Fernandes estava vários furos acima de Sérgio Oliveira e Renato beneficiou da entrada dos dois companheiros e do aumento da posse e da pressão da equipa. O espaço em campo foi aumentando com o passar dos minutos e se a Seleção aproveitava para explorar as transições rápidas e as costas da defesa adversária, Espanha conseguia desequilibrar com poucos passes. A 20 minutos do fim, Fernando Santos lançou Rafa e Palhinha para os lugares de Jota e Renato, com Luis Enrique a responder com Koke e Moreno e a ganhar aí o meio-campo até ao apito final, refreando o melhor momento português. Cristiano Ronaldo ainda teve uma boa oportunidade com um cabeceamento ao lado (69′), Rui Patrício fez uma enorme defesa a um desvio de Ferran Torres (88′), Morata acertou em cheio na trave (90+1′) e já pouco mais aconteceu.

O encontro particular entre Espanha e Portugal acabou empatado sem golos, num resultado que não deixa de ser justo entre a maior posse de bola espanhola e as melhores oportunidades portuguesas. O duelo ibérico terminou sem qualquer golo pela terceira vez nas últimas quatro edições e foi visível perceber que Fernando Santos quis principalmente testar soluções — entre Danilo a central, o ritmo de William, a rebeldia de Renato e os bons momentos de forma de Palhinha e Pote. José Fonte acabou por ser o pilar da equipa, entre a solidez defensiva e um golo que até marcou mas foi anulado, e acaba por ter no apelido a maior metáfora para o momento da Seleção Nacional a menos de uma semana da partida para Budapeste e para o Euro 2020: a Fonte portuguesa tem água, tem vontade e tem qualidade mas precisa de intensificar a pressão, de ter mais bola e de não falhar golos.