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Fazer tudo para chegar a um acordo que o PS ainda acredita ser possível. Caso contrário, a responsabilidade será dos partidos de esquerda — e essa divisão de culpas terá de ficar bem clara. Foi esta a tónica geral da última reunião da bancada parlamentar do PS antes da votação do Orçamento, marcada para a próxima semana, numa altura decisiva em que BE e PCP continuam a pressionar e a troca de culpas sobre uma eventual crise política sobe de tom.

“Temos de esgotar todas as possibilidades de entendimento”. A frase, de um dos deputados que estiveram esta quinta-feira presentes na reunião, no Parlamento, resume o espírito que várias fontes foram relatando ao Observador: é preciso “negociar” e “de um modo geral há vontade de fazer acordo”, explica outro deputado. Até porque é essencial desmanchar uma imagem de intransigência e fazer passar a ideia de que o PS está mesmo a querer chegar a acordo: “Isso tem de ser claro”.

A mensagem é particularmente relevante numa altura em que as acusações à esquerda se acumulam e os partidos vizinhos passam a ideia de que António Costa não estará verdadeiramente interessado num acordo. “Ninguém entende que haja crise”, acrescenta outro deputado socialista. Até porque existem fortes dúvidas de que, num embate eleitoral antecipado, o PS esteja em condições de ganhar, desabafa.

Na reunião, em que intervieram nomes como Jorge Lacão, José Magalhães, Ascenso Simões, Luís Testa ou o secretário-geral adjunto do partido, José Luís Carneiro, e a líder parlamentar, Ana Catarina Mendes, o sentimento foi relatado ao Observador em uníssono: umas eleições nesta altura poderiam representar uma séria dificuldade para o PS — e, mesmo para a esquerda, “fazer prova de vida nesta altura não é o mais avisado”.

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Além disso, acrescenta outra fonte, uma crise seria “altamente lesiva do interesse do país em aplicar de imediato os fundos para recuperação dos danos do Covid e início de reformas estruturais que todas as famílias políticas exigem”. Ou seja: uma crise dificultaria a aplicação e gestão dos fundos europeus que aí veem e traria uma instabilidade política que não é desejável.

A cargo de Carneiro terão ficado sérios avisos sobre o cuidado com as contas públicas e com os efeitos que cedências exageradas à esquerda poderão ter sobre a dívida pública. O discurso de António Costa nos últimos dias tem, de resto, passado precisamente por alertar para esses riscos, classificando as contas certas como um “bem inestimável” para o PS que, não sendo respeitado, “sacrifica o futuro” do país. E, de caminho, avisando que os socialistas têm de se sentir “confortáveis” com a versão final do Orçamento, pós-negociações.

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Se não estiverem… a culpa será da esquerda. É essa a narrativa defendida por boa parte dos deputados: “O ónus de uma crise política tem de ficar associado a esses partidos. Nós estamos a trabalhar para fazer o Orçamento passar. Se não passar, será porque, por pura tática política, querem ir a eleições mais cedo”. O discurso está afinado para a fase final, e a mais dura, das negociações. Até dia 27, o tempo está a contar.