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As autoridades britânicas estão a investigar os relatos de pessoas, sobretudo mulheres, que dizem ter recebido injeções de drogas em saídas à noite. O alerta para estes ataques, que no Reino Unido são denominados de “needle spiking”, surge numa altura em que os casos de pessoas drogadas através de substâncias colocadas nas bebidas voltaram a aumentar no Reino Unido — o “drink spiking”, um fenómeno que em Portugal costuma ser chamado de “minar bebidas”.

Entre 2015 e 2019, as autoridades de segurança em Inglaterra e País de Gales receberam 2.600 queixas de pessoas drogadas em saídas noturnas através de substâncias colocadas em bebidas à sua revelia, diz a BBC. Só nos departamentos policiais das cidade de Avon e Somerset foram 486 os relatos entre 2016 e este ano, avança outro artigo do The Guardian. Vinte e sete pessoas foram detidas por suspeitas de participarem nestes ataques, mas nenhuma chegou a ser julgada em tribunal.

Até agora, o ano de 2018 tinha sido o mais preocupante nesses departamentos, com o registo de 122 casos. Mas, de acordo com o Conselho Nacional de Chefes de Polícia britânico, só em setembro e até 23 de outubro registaram-se 198 casos de pessoas drogadas a partir das próprias bebidas. Quase todas as vítimas são do sexo feminino. E o problema não será exclusivo dos bares e discotecas, desconfia a polícia: em 2020, mesmo com esses estabelecimentos fechados, houve 84 queixas desta natureza.

Em Nottinghamshire, um condado em Inglaterra, dois homens de 18 e 19 anos foram detidos pela polícia na última quarta-feira por suspeitas de drogarem mulheres com agulhas ou a partir de bebidas em discotecas, mas sairam sob fiança. A porta-voz Supt Kathryn Craner disse ao The Guardian que um dos indivíduos estava na posse de “drogas de classe A” — que inclui substâncias como cocaína, ecstasy ou cristais de metanfetaminas — “e de classe B”, como anfetaminas e canábis.

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Segundo o mesmo jornal britânico, uma das alegadas vítimas relatou às autoridades que tinha sentido “uma sensação de arranhão” na pele e suspeitou que a bebida estava contaminada com drogas enquanto frequentava uma discoteca em Nottingham a 16 de outubro.

Outra rapariga de 19 anos descreveu nas redes sociais que, após uma saída à noite na mesma cidade e no mesmo dia, acordou “sem qualquer memória” das horas anteriores. Embora não tivesse uma sensação de ressaca, sentia uma “dor aguda e agonizante” na perna que a impedia de andar sem coxear. Veio a descobrir uma marca na perna e dirigiu-se às urgências, mas desistiu de ser atendida ao fim de oito horas de espera.

Poucos dias antes, uma estudante de 19 anos disse sentir “uma picada na parte de trás do braço” durante uma saída à noite noutra discoteca em Nottingham. A rapariga perdeu a consciência pouco depois e foi levada para as urgências mais próximas, onde foi submetida a análises sanguíneas e colocada em soro antes de receber alta hospitalar.

Supt Kathryn Craner afirma que, neste momento, as forças de segurança acreditam que estes ataques são indiscriminados — os atacantes drogam quase sempre mulheres, mas de modo aleatório. No caso dos indivíduos detidos em Nottingham, a intenção do homem seria a “administração de veneno ou coisa nociva com o intuito de magoar, afligir ou incomodar” mulheres, independentemente de quem fossem.

Não acreditamos que sejam incidentes direcionados”, insiste a porta-voz da polícia da cidade inglesa: “Eles são distintamente diferentes de tudo o que vimos anteriormente, pois as vítimas revelaram uma sensação de arranhão físico antes de se sentirem muito mal“, descreveu a agente.

As autoridades garantem que os casos de mulheres atacadas com agulhas continuam a ser raros quando comparados com os relatos de pessoas que foram drogadas através das próprias bebidas. Segundo o The Guardian, o número de ataques desta natureza aumentou desde que os estabelecimentos como discotecas e bares com pista de dança voltaram a abrir portas no Reino Unido.

Uma página britânica dedicada ao tema, a Drinkaware, recorda que estes ataques podem ser perpetrados com recurso a álcool, às chamadas “drogas da violação” (que, além de ser eliminadas rapidamente pelo organismo, podem não ter odor, sabor ou cor, passando despercebidas ao consumidor), drogas ilegais ou medicamentos com prescrição médica, como estimulantes ou sedativos.

Apesar de alertar que “o drink spiking pode acontecer em qualquer situação, em casa ou numa saída à noite”, o site oferece quatro dicas para evitar os ataques: nunca abandonar a bebida, seja ela alcoólica ou não; não aceitar qualquer bebida de alguém que não se conhece, evitar o consumo excessivo de álcool e andar sempre em grupo, junto de pessoas em quem se confie.

Os sintomas de que alguém foi drogado através da bebida são a perda de equilíbrio, sensação de sonolência, dificuldades visuais, confusão, náusea, vómitos, perda de consciência e alterações comportamentais. Se estiver na presença de alguém que exibe estes sintomas, deve avisar a equipa de segurança ou algum funcionário do estabelecimento em que está, manter a calma e continuar em comunicação com a vítima, chamar uma ambulância se os sintomas se agravarem, nunca deixá-la sozinha no caminho para casa ou na companhia de um desconhecido; e impedir o consumo de bebidas alcoólicas.