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Chama-se Taça da Liga ou Allianz Cup, poderia intitular-se Taça Jorge Jesus. Em 14 edições da prova, entre Belenenses, Sp. Braga, Benfica e Sporting com a passagem pela Arábia Saudita e pelo Brasil pelo meio, teve seis vitórias (quase tantas como as dos encarnados, sete) e mantinha um registo quase limpo num total de 31 encontros realizados, com apenas um desaire no final dos 90 minutos entre 25 vitórias e cinco empates e num num contexto muito específico como aquele que enfrentou na meia-final da última época, sem poder contar com vários jogadores na pior fase do surto de Covid-19 que assolou o grupo de trabalho, em janeiro. No entanto, nem por isso se adivinhavam facilidades, até pelo que se viu no encontro em Vizela, que acabou por ser resolvido só no oitavo minuto de descontos com um golo de Rafa após passe de Pizzi.

Benfica empata em Guimarães num jogo eletrizante e com seis golos que deixa tudo em aberto na Taça da Liga

“É um jogo com características completamente diferentes. Este troféu é uma possibilidade para estas equipas, como o V. Guimarães, poderem conquistar. O Campeonato normalmente é para os três grandes mas na Taça de Portugal e Taça da Liga estas equipas têm como objetivo poderem ganhar. O V. Guimarães já fez um jogo e ganhou 2-0 ao Sp. Covilhã. Se perdermos estamos fora porque só temos mais um jogo e não temos possibilidade de recuperar. Vamos encarar este jogo como a nossa decisão, vai quase fazer com que a equipa continue ou não. Será um jogo extremamente difícil porque o V. Guimarães é forte. Preparados? Já estamos preparados ao longos destes meses, nestes sete jogos não dá para preparar, dá para recuperar”, analisara o treinador das águias, recordando a série de encontros seguidos no calendário.

Passa por um troféu, o primeiro em função da calendarização. Queremos conquistá-lo. Só temos um jogo para definir se conseguimos prosseguir ou não, que é com o V. Guimarães. Tudo isso dá-nos respeito e responsabilidade, de chegar à final e ganhar”, resumiu.

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Até pelo exemplo do FC Porto, que rodou toda a equipa nos Açores e acabou eliminado da Taça da Liga com uma derrota por 3-1 frente ao Santa Clara, Jesus sabia que não se poderia dar ao luxo de fazer descansar o total de jogadores que pretenderia tendo em vista os próximos jogos no Estoril e em Munique com o Bayern mas iria sempre ter de promover alguma rotatividade até pela profundidade de um plantel que apresenta mais soluções do que os outros. E era nesse contexto que surgia a figura de Pizzi, um dos elementos mais importantes nas últimas épocas e que perdeu muito espaço na presente temporada com um figurino tático diferente dentro da mesma ideia de jogo que Jorge Jesus instituiu nesta versão 2.0 do Benfica.

Depois de ter mantido a média de quase 50 encontros dos últimos anos em 2020/21, o internacional levava apenas 14 jogos disputados, sem golos, com apenas três assistências em 490 minutos, a derradeira feita em Vizela para a vitória nos descontos. “Aquilo não foi bem um cruzamento, foi um passe. Ou melhor, um cruzamento-passe. Aquele cruzamento-passe do Pizzi, não é todos os jogadores que o fazem”, elogiou no final Jorge Jesus, antes de explicar também o porquê da sua menor utilização. “O tempo em que jogou foi determinante para o golo mas eu não vejo o futebol e os jogadores como um copo meio cheio, vejo sempre como um copo cheio. Quando jogamos como estou a fazer, com tantos jogadores ofensivos, não posso ter jogadores menos eficazes na reação à perda da bola. Com Rafa e Pizzi, se o Benfica perde a bola… São jogadores que defensivamente, esqueçam. Por isso é que tomo as opções que tomo”, assumiu.

Desta vez, entre as oito alterações feitas em relação ao jogo com o Vizela, Pizzi jogou de início, Rafa ficou no banco e o médio hoje capitão tornou-se o MVP do encontro com uma colocação bem gizada de Jesus no corredor central que destruiu por completo a fase defensiva dos minhotos antes de Pepa começar a mexer e bem na partida que foi dos melhores espectáculos da temporada em Portugal (golos à parte) e que mostrou que o número 21 é sempre uma solução para melhorar o Benfica – e quando saiu foi o problema.

Dificilmente a partida poderia ter começado melhor e ao mesmo tempo pior para o Benfica. Radonjic, numa jogada que começou num erro defensivo de Sacko bem aproveitado por Grimaldo, ficou logo perto do golo com apenas 56 segundos de jogo, mas houve também a parte de má de uma entorse de Taarabt ainda na zona do meio-campo que deixou o marroquino em grandes dificuldades até ter mesmo de ser rendido por João Mário (9′) e a parte muito boa do 1-0 na sequência de um canto na direita marcado por Pizzi e desviado para a própria baliza por Alfa Semedo, que não conseguiu reagir a um primeiro toque de raspão que houve na bola ao primeiro poste perante a cara de estupefação de Pepa no banco minhoto (7′).

A única coisa que o treinador dos vimaranenses tinha pedido era que não se repetissem os erros do jogo no Campeonato, quando os encarnados passearam na primeira parte perante a autêntica cratera criada pela defesa contrária. A primeira coisa que o treinador dos vimaranenses teve de pedir foi mesmo que não se repetissem esses mesmos erros, também propiciados pela colocação de Pizzi mais no corredor central com Radonjic a dar muita profundidade pela direita e Gonçalo Ramos de quando em vez a cair também na ala. E foi dessa forma que nasceu o segundo golo dos encarnados, com Meïte a trabalhar sem pressão pelo meio, a abrir em Everton, a ver Pizzi a entrar na diagonal e o capitão a rematar cruzado (15′).

A certa altura parecia mesmo que havia uma sensação de dejá vu em Guimarães, que só não se adensou porque uma grande combinação entre Pizzi e João Mário, que isolou o antigo médio de Inter e Sporting, foi travada com uma grande defesa para canto de Bruno Varela. O jogo podia “acabar” ali aos 20′, o jogo ficou relançado logo no minuto seguinte: depois de um trabalho de Rochinha na esquerda para cruzamento na área, André André viu a primeira tentativa prensada na defesa mas marcou à segunda tentativa. Os ânimos voltavam a aquecer no Dom Afonso Henriques, com os minhotos a sentirem que podiam chegar ao empate jogando com linhas mais altas e o Benfica a saber que qualquer transição criava perigo. E assim foi.

Em mais um lance que nasceu das movimentações de Pizzi no corredor central, o internacional português recebeu, virou e assistiu Radonjic que subiu pela direita, fletiu para dentro e rematou de pé esquerdo para um grande golo na estreia a marcar pelos encarnados (28′). O Benfica voltava aos dois golos de vantagem e tentava desta vez ter um maior controlo do jogo com e sem bola mas nem por isso o V. Guimarães caiu em termos anímicos e, já depois de uma meia distância de Alfa Semedo que passou ao lado (38′), conseguiu mesmo chegar ao 3-2 no segundo e último minuto de descontos antes do intervalo: Sacko subiu pelo flanco direito, recebeu de André André, cruzou para a zona da área entre Lucas Veríssimo e Otamendi e viu Estupiñan saltar mais alto para o desvio de cabeça. Foram 20 faltas, 15 remates, cinco golos.

Era pouco provável que, depois do descanso, a partida mantivesse o mesmo ritmo e cadência de lances nas duas áreas pelas correções que os dois treinadores iriam promover ao intervalo mas a realidade trouxe um filme com muitas parecenças ao primeiro tempo e logo nos minutos iniciais, com Pizzi a rematar muito perto do poste depois de uma combinação com Everton (47′) e Marcus Edwards a obrigar Helton Leite a uma defesa apertada num tiro rasteiro de pé direito (50′). Até quando o jogo parecia estar mais “morno” e menos partido as tentativas com perigo apareciam, como aconteceu numa jogada individual de Rochinha da esquerda para o meio em diagonal antes do remate em arco que saiu perto do poste (60′).

Sabendo das dificuldades de apuramento que uma derrota traria, foi o conjunto da casa que arriscou mais com a subida das linhas de pressão (cinco unidades no primeiro terço dos encarnados em algumas fases) e com as substituições, reforçando os processos de ataque à baliza com as entradas de Tiago Silva e Ricardo Quaresma para as saídas de Alfa Semedo e André André e conseguindo resultados quase de imediato: Estupiñan marcou na pequena área após cruzamento de Rochinha na direita mas o golo foi anulado por fora de jogo (68′), Quaresma acertou no poste num lance em que conseguiu surpreender Helton (70′). Bruno Duarte ainda reforço mais o ataque dos vitorianos mas Jesus mexeu também para voltar a equilibrar a partida, lançando em campo Diogo Gonçalves, Weigl e Rafa para dar outras estabilidade à equipa.

O último quarto de hora chegava com todas as decisões em aberto e a perspetiva de golo nas duas balizas sempre em aberto fosse pelo ataque organizado e posicional do V. Guimarães, fosse pelas transições do Benfica. E essa expetativa voltou a não sair furada: na sequência de um remate tendo de Lameiras numa insistência após canto, Bruno Duarte conseguiu empatar de forma oportuna na pequena área perante os protestos da defesa encarnada pela posição num jogo que não teve VAR (83′); Morato foi à área contrária desviar de cabeça ao segundo poste para defesa apertada de Bruno Varela para canto (85′); e o mesmo Bruno Duarte combinou com Lameiras para um remate que saiu perto da trave da baliza do Benfica (89′). Bruno Varela chegou a subir à área do Benfica nos descontos num livre lateral mas o 3-3 não mais voltaria a mexer, deixando tudo em aberto para a última jornada na Luz com o Sp. Covilhã.