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Morreu esta quinta-feira o fotógrafo britânico Mick Rock, que se notabilizou pelos retratos de David Bowie, Lou Reed ou dos Queen e registos da cena musical rock na década de 1970. A notícia foi confirmada no Twitter oficial de Mick Rock através de uma publicação sem assinatura na madrugada desta sexta-feira. A causa da morte não tinha sido divulgada na sexta-feira de manhã. O fotógrafo deixa uma filha, Nathalie, e a mulher, Pati.

“O nosso querido Mick Rock, que foi um dissidente psicadélico, acaba de entrar na viagem junguiana para o outro lado. Os que tiveram o prazer de viver na mesma órbita dele sabem que o Mick sempre foi muito mais do que ‘o homem que fotografou os anos 70’. Foi um poeta da fotografia, uma verdadeira força da natureza que passou a vida a fazer exatamente o que amava, sempre no seu estilo escandaloso e encantador”, dizia a publicação no Twitter.

Mick Rock continuava a trabalhar até hoje e nas últimas décadas fez retratos e artwork para Madonna, Snoop Dogg, Yeah Yeah Yeahs, Lenny Kravitz, Alicia Keys, Daft Punk, Kings of Leon, Black Lips, Miley Cyrus, Lady Gaga, entre muitos outros. Era utilizador frequente do Instagram e do Twitter, onde partilhava o seu trabalho.

No últimos anos, além de exposições, fez vários livros antológicos. Por exemplo, The Rise of David Bowie, 1972–1973 (2016), Debbie Harry and Blondie: Picture This (2013) e Classic Queen (2007). No cinema foi responsável pelas fotografias de produção e rodagem do filme de culto Shortbus (2006), de John Cameron Mitchell, além de outras participações.

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Mick Rock acompanhou o despontar do glam rock e do punk, tendo ajudado a criar a iconografia escandalosa dos artistas daquele período. Ele próprio aderiu, vivia o que fotografava: a música, a noite, o álcool, as drogas, o sexo — como assumiu em diversas ocasiões.

Terá assinado mais de 100 capas de álbuns. Syd Barrett, David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop, Queen, Sex Pistols, Ramones e Blondie são apenas alguns exemplos dos artistas e bandas com quem trabalhou. Esteve particularmente ativo entre 1972 e 1979.

Fotografou a capa do álbum Pinups, de David Bowie, e realizou os telediscos de “Space Oddity”, “Life on Mars” e “The Jean Genie”, entre outros temas do cantor britânico. Em novembro de 1972, há precisamente 49 anos, uma fotografia de Bowie feita por Mick Rock surgia na capa da revista Rolling Stone.

Para Lou Reed fez as capas de TransformerConey Island Baby. Para os Stooges, de Iggy Pop, fez a capa de Raw Power. No caso dos Queen, criou a imagem do álbum Queen II. Essa mesma capa foi recordada esta sexta-feira no Instagram pelo guitarrista dos Queen, Brian May, segundo o qual Mick Rock os retratou quando ainda não eram muito conhecidos. Brian May escreveu que a imagem, com luz ao estilo Marlene Dietrich, serviu depois de inspiração ao grupo para o vídeo de “Bohemian Rhapsody” e foi bastante imitada ao longo dos anos por outros fotógrafos.

“Todos podem ser grandes fotógrafos”

Michael David Rock nasceu em 1948 em Hammersmith, arredores de Londres. Estudou línguas medievais e modernas na Universidade de Cambridge e durante a adolescência interessou-se pela obra de Rimbaud e Baudelaire. Nessa época começou a fotografar bandas e artistas de Londres, o primeiro dos quais terá sido Syd Barrett, um dos fundadores dos Pink Floyd. A carreira apareceu quase por acaso a partir de 1972, quando se tornou por alguns anos fotógrafo oficial de David Bowie.

Nos últimos 40 anos vivia em Nova Iorque (em Livingston, Staten Island). Foi ali, na companhia da mulher, Pati, e de de dois gatos Maine Coon, que o jornal The New York Times o entrevistou há quatro anos. Acordava às 10 da manhã, fazia exercícios de yoga Kundalini e não bebia álcool nem comia carne havia décadas, apenas peixe.

A vida de Mick Rock foi retratada no documentário Shot! The Psycho-Spiritual Mantra of Rock (2016), de Barnaby Clay, no qual ganharam destaque o consumo de drogas ilegais por parte do fotógrafo e os problemas de coração e rins que quase o mataram em meados dos anos 90 — época em que começou a deixar o ritmo e os hábitos da juventude. O filme passou no festival IndieLisboa em 2017 e a sinopse referia-se a ele como “um criador icónico”, “um homem que formatou a imagem da música e dos músicos do século XX”, “um dos mais importantes fotógrafos da história”.

[trailer de Shot! The Psycho-Spiritual Mantra of Rock]

Numa entrevista à Rolling Stone, a propósito do documentário, perguntaram-lhe em 2017 se sentia que tinha criado uma estética própria na fotografia. Respondeu que nunca analisava as imagens que fazia, mas ensaiou uma análise. “Não sei explicar o processo. Por vezes parece-me que há uma enorme tensão, uma certa atitude, é uma coisa quase obsessiva. Venho do rock’n’roll, não posso ter um estilo apenas. Não sou fotógrafo de moda. As minhas imagens da Kate Moss não são fotos de moda comuns, nem eu as quis fazer dessa forma.”

Na mesma ocasião, referindo-se ao momento atual em que qualquer pessoa faz fotografia graças às câmaras dos smartphones, Mick Rock observou com aparente ironia: “Todos podem ser grandes fotógrafos. Já vi fotografias feitas pela minha mulher e pela minha filha e são tão boas que já lhes disse que tenho de ser eu a ficar com os créditos, para que passem a valer mais dinheiro.”