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Alireza Beiranvand era ainda um ilustre desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses até 2018, quando se tornou uma das figuras da seleção do Irão que empatou com a Seleção Nacional na fase de grupos do Campeonato do Mundo. Aí, até por ter conseguido travar uma grande penalidade de Cristiano Ronaldo, passou a ser pelo menos um nome que soava a algo. Contudo, e antes desse encontro em Saransk, o guarda-redes já tinha entrado na órbita de algumas publicações internacionais que se iam deslocando até ao centro de treinos do Lokomotiv Moscovo, onde a formação então orientada por Carlos Queiroz treinava. E, mais do que a evolução como jogador, aquilo que mais impressionava era mesmo a sua história de vida.

Lavou carros, varreu ruas, entregou pizzas mas cumpriu o sonho: a história de Beiranvand, a última barreira de Portugal

Recordando a reportagem do Observador nessa altura na Rússia, o número 1 iraniano, nascido numa pequena vila do Lorestão, e sendo o filho mais velho, desde cedo que começou a ajudar o pai com as ovelhas. Ia à procura de comida para os animais, era pastor. Pelo meio, começava a dar os primeiros passos em dois jogos que sempre lhe despertaram o interesse: o futebol e o Dal Paran, que na forma mais simplista possível tem a ver com o arremesso de pedras o mais longe possível. Sobre o segundo, o pai não dizia nada; sobre o primeiro, nunca achou particular graça. Não achava ele mas achava Ali, como também é conhecido, que um dia pegou na mochila e fez-se à vida à procura de um sonho que fazia por ser o maior possível.

Em Teerão, sozinho, encontrou um mundo de oportunidades. E agarrou muitas, em busca da maior de todas: chegou a não ter casa ficando numa zona onde concentravam imigrantes mais carenciados, ganhava algum dinheiro a lavar carros (um deles do maior jogador de todos os tempos do Irão, Ali Daei, com quem teve vergonha de falar), a varrer ruas, a entregar pizzas. Mais tarde, e para ter um sítio para dormir que fosse “seu”, aquele cantinho onde se ganha forças para continuar a correr por um sonho impossível, trabalhou numa fábrica de roupas. Entre tanta gente que conheceu, houve um que lhe abriu a porta do Naft. Teve a oportunidade, agarrou-a e nunca mais a largou. Quando em 2016, aos 23 anos, passou para o Persepolis, essa oportunidade já era sua. E a partir de agora, tudo o que vier a mais já é um extra: Ali só queria jogar futebol.

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“O meu pai não gostava de futebol e pediu sempre para ir trabalhar. Chegou mesmo a rasgar as minhas roupas e as minhas luvas com as suas mãos variadas vezes. Sofri muitas dificuldades para realizar os meus sonhos mas não tenho qualquer intenção de esquecer o caminho que fiz até aqui”, contou numa entrevista da altura ao The Guardian. Alireza foi considerado um dos 15 melhor guarda-redes da FIFA em 2017 e assumiu-se como uma das principais figuras de um Irão que deu um salto gigante como equipa no período de Carlos Queiroz no comando. Com uma curiosidade: influência ou não do Dal Paran, sempre colocou a bola com grande facilidade à mão no meio-campo contrário. E foi isso que lhe valeu uma marca histórica.

Desde 2020 na Europa, primeiro nos belgas do Antuérpia e agora por empréstimo no Boavista, o guarda-redes que está à beira da 50.ª internacionalização para seleção principal do Irão recebeu esta quinta-feira o registo oficial do livro de recordes do Guinness para o lançamento de bola mais longo num jogo oficial de futebol, conseguido em outubro de 2016 num encontro diante da Coreia do Sul em Teerão. Ao todo, foi um passe com a mão com pouco mais de 61 metros, algo que nunca antes tinha sido registado. E a manhã acabou por ser de festa no Bessa, com o iraniano a partilhar o reconhecimento com toda a equipa.