O Liverpool começou com um empate em Londres frente ao Fulham e também não foi além da divisão de pontos na receção ao Crystal Palace. O Chelsea, que até ganhou a primeira partida, cedeu uma igualdade frente ao Tottenham (que perdeu também aí os seus primeiros pontos) no sexto minuto de descontos e foi agora “atropelado” pelo Leeds. O Manchester United foi ainda pior, com uma derrota em Old Trafford com o Brighton antes da humilhação com o Brentford com quatro golos em 35 minutos. Contas feitas, apenas o Arsenal conseguiu prolongar o estatuto de candidato para o campo, ganhando as três partidas realizadas até ao momento (Crystal Palace, Leicester e Bournemouth). O Manchester City tentava o mesmo.

Não pediram mais golos mas pediram o que parece impossível: fica Bernardo (a crónica do Manchester City-Bournemouth)

Se existe um calcanhar de Aquiles no plano interno para a era Pep Guardiola no clube, esse entroncava nas jornadas iniciais. Depois, a meio, aproveitando também o balanço da altura do Boxing Day, a equipa ia conseguindo disparar na frente do Campeonato mas os primeiros jogos deixavam sempre pontos perdidos: uma derrota e um empate nas cinco rondas de 2021/22, uma derrota e dois empates em 2020/21, uma derrota e um empate em 2019/20, um empate em 2018/19 e em 2017/18. Agora, depois dos triunfos com West Ham e Bournemouth sem golos sofridos, seguia-se uma deslocação difícil a Newcastle.

Como seria de esperar, Pep Guardiola não fez muitas alterações na equipa – até porque está ainda num processo de consolidação de uma nova forma de jogar que cria harmonia para a introdução de alguém com as características de Erling Haaland. Ainda assim, teve duas mexidas, com a entrada de John Stones para o lugar de Rúben Dias e a primeira titularidade de Bernardo Silva em vez de Riyad Mahrez. Depois de ter sido colocado com pelo menos um pé fora do clube, o esquerdino voltava a ser uma opção mais certa.

Primeiro foi a opção Barcelona, com o jogador a admitir mudar para a Catalunha e para a Liga espanhola num negócio que não chegou a avançar depois das alegadas promessas de Joan Laporta numa proposta que nunca chegou ao Etihad Stadium (o que deixou o internacional desiludido). Depois surgiram as notícias que davam conta de um interesse do PSG, que estaria disposto a oferecer 70 a 80 milhões pelo jogador. Agora, numa espécie de volte-face a uma novela que quase acabou antes de verdadeiramente começar, a possibilidade em cima da mesa é a de renovar contrato ficando como um dos mais bem pagos do plantel. Alheio a tudo isso, Bernardo Silva colocou a prioridade no jogo. E não demorou a fazer a diferença.

Com apenas cinco minutos de jogo, e no seguimento de uma entrada forte do Newcastle, o internacional português recebeu na direita de Gündogan, trabalhou em finta curta à espera de ter opções de finalização e cruzou de forma milimétrica para o alemão inaugurar o marcador (5′). A enxurrada de futebol ofensivo não ficaria por aí, com Nick Pope a evitar os golos de Kevin de Bruyne (10′) e Phil Foden (15′) antes de Almirón desperdiçar a primeira grande oportunidade do conjunto da casa (18′). O jogo estava eletrizante de tão partido que ficava quando as equipas aceleravam e já com Rúben Dias em campo por lesão de Aké.

O crescimento dos magpies em campo, muito por culpa das ações de Saint-Maximin que deitavam por terra toda a organização defensiva em transições do Manchester City, era cada vez mais evidente e não demorou a trazer frutos até ao intervalo que chegou já com o Newcastle na frente: Almirón fez o empate encostando com a coxa na pequena área depois de um trabalho fabuloso de Saint-Maximin na esquerda entre Rodri e Kyle Walker (23′), Callum Wilson deixou uma ameaça na sequência de um canto (27′) antes de fazer o 2-1 perante a passividade dos centrais contrários após nova saída rápida de Saint-Maximin (39′) e só não houve males maiores (ou ainda maiores) por falta de eficácia. Os citizens, aí, só funcionavam de bola parada, com Pope a defender um livre de De Bruyne e Rúben Dias a desviar por cima após canto.

O Manchester City tinha de fazer algo para inverter o rumo dos acontecimentos e ainda teve uma bola no poste de Erling Haaland, na sequência de uma jogada individual à entrada da área com remate de pé direito (52′). No entanto, e apenas alguns minutos depois, Trippier marcou de forma perfeita um livre direto ao ângulo e colocou o resultado em 3-1 (54′), para delírio de um St. James’ Park que vendeu todos os bilhetes de época e ainda tem mais 30.000 interessados em lista de espera. Jogo acabado? Nem por isso. E com meia hora por jogar, Haaland marcou mesmo na sequência de um canto e reduziu para 3-2 (60′), tendo logo de seguida uma bola de empate isolado na área bem travada por Nick Pope (62′) antes de Kevin de Bruyne ter mais um passe de génio a encontrar Bernardo Silva por dentro para fazer o 3-3 (64′).

Ficava tudo em aberto para um final que podia cair para qualquer um dos lados, sendo que Saint-Maximin ainda mostrou por duas vezes a Kyle Walker que continuava com pilha na bateria e Nick Pope travou o bis de Gündogan antes de um lance em que Trippier foi expulso com vermelho direto após uma falta sobre Kevin de Bruyne mas viu depois o VAR reverter a decisão. Haaland, numa segunda bola após mais uma combinação entre Bernardo, De Bruyne e Gündogan, ficou perto da reviravolta com um remate por cima mas o empate não voltaria a ser desfeito naquele que foi o melhor jogo da Premier até ao momento. E foi o Arsenal que se ficou a rir da igualdade, liderando a prova de forma isolada… 17 anos depois.