Preconizou-se como uma das figuras “alternativas” da Premier League nas últimas décadas e, apesar de agora se encontrar nas divisões amadoras do futebol inglês, continua a dar que falar. Andy Carroll, atualmente com 37 anos, estreou-se no futebol profissional em 2006/07, por via do Newcastle, equipa que representou até 2011, ano em que rumou ao Liverpool a troco de mais de 40 milhões de euros.

Apesar do preço, o ponta de lança não se conseguiu impor nos reds e, em 2012/13, viria a assinar pelo West Ham, que pagou quase 20 milhões pelo passe. Seguiram-se Reading, West Bromwich Albion, Amiens, Bordéus e, atualmente, o modesto Dagenham & Redbridge, numa carreira que contou com a sua presença no Europeu 2012 e com a conquista de uma Intertoto, no Newcastle, e da Taça da Liga inglesa, no Liverpool.

Agora na fase final da carreira como profissional, Andy Carroll lançou a sua autobiografia, Owning It, onde recorda os principais momentos que viveu no futebol. Uma das histórias mais marcantes aconteceu em 2021, quando o jogador foi vítima de agressão sexual por parte de um homem que, mais tarde, foi condenado a três anos de prisão. No livro, Carroll recorda a experiência como “traumática” e admite que “não a consegue esquecer”, tendo inclusivamente hesitado “até ao último minuto” em compartilhá-la no livro. Contudo, depois de uma conversa com a ex-namorada Lou Teasdale, acabou por manter a intenção com o objetivo de ajudar outras pessoas.

“Há outras coisas que eu gostava muito de esquecer, mas não consigo. Foi algo que aconteceu comigo há alguns anos, algo tão traumático que só decidi incluir esse acontecimento neste livro no último minuto. Fui vítima de assédio sexual. É algo difícil até de se pensar. Poucas pessoas sabiam disso até agora. Eu e a Lou passámos muito tempo a discutir se deveríamos mencionar esse facto no livro. Evitei o editor por muito tempo que, provavelmente, ele achou que eu tinha desistido da ideia de escrever o livro. É assustador falar sobre isto, mas contribuiu tanto para fazer de mim a pessoa que sou hoje como todas as coisas boas. E se o facto de eu falar sobre isto ajudar apenas uma pessoa, então terá valido a pena”, escreveu o jogador.

O lado negro de ser jogador, de Andy a Phil

Na biografia, Andy Carroll detalhou ainda que o crime aconteceu na noite que se seguiu a uma partida do Newcastle, realizada em casa. Nessa altura, a então namorada convenceu-o a convidar um “amigo famoso” para assistir a um combate de boxe com o casal, hospedando-o na sua casa enquanto a mulher estivesse fora. Carroll conta que conhecia o homem, mas sentia-se desconfortável porque este bombardeava-o com mensagens depois de ter conseguido o seu número. Antes de se deitar, Carroll lembra-se de se ter sentido “tonto” depois de ter bebido “alguns drinks” e, quando acordou, viu o homem a tentar atacá-lo debaixo dos lençóis. O jogador documenta que lhe deu uma bofetada “com toda a força que conseguiu” e chamou a polícia depois de o expulsar de casa.

O agressor acabou por negar as acusações do jogador, mas viria a ser acusado de crimes de natureza sexual e condenado a três anos de prisão, para lá de ter sido incluído no registo de agressores sexuais e proibido de aceder à zona em que Carroll morava. Contudo, em março de 2026, foi acusado de ter violado a ordem judicial que o proibia de contactar com a vítima, declarando-se inocente no Tribunal de Chelmsford. O julgamento foi marcado para janeiro de 2027.

Para o jogador, o acontecimento foi “humilhante, embaraçoso e absolutamente horrível”, optando por não o partilhar com ninguém. Só algumas semanas depois conversou com Lou. “O trauma do que me aconteceu não desapareceu. Continuo a lidar com isso todos os dias. Se mantemos algo escondido durante anos, é óbvio que não queremos que as pessoas saibam. Ao assumir o que me aconteceu, em vez de tentar enterrá-lo, talvez consiga ter algum controlo sobre isso, em vez de ser isso a controlar-me”, escreveu.

Na biografia, Andy Carroll conta ainda episódios de bastidores dos estágios da seleção inglesa e, numa das histórias, afirma que o quarto de Wayne Rooney era o local onde se bebia álcool e fumava cigarros. “Ele ficava rodeado de maços de cigarros, caixas de cerveja e garrafas de vinho — que pedia ao gerente do hotel para entregar no seu quarto. Em pouco tempo, o quarto ficava cheio de jogadores. Ninguém ficava bêbado, era apenas a maneira como o Wazza [Rooney] tinha de quebrar a monotonia”, recordou. Agora, a imprensa inglesa dá conta que o antigo avançado do Man. United negou todas as acusações e pediu à sua equipa de advogados para contactar a editora do livro a fim de remover essas passagens.

“Queria viver uma vida quotidiana. Sair ao fim de semana com amigos ou ir de férias nas paragens para seleções. Ir a festivais de música e beber umas quantas bebidas a mais, comer um kebab uma e outra vez, fazer asneiras sem aparecer nos jornais. Podemos discutir se tentar levar uma vida normal é incompatível com ser uma figura de sucesso no desporto, mas não faz sentido passar o resto dos meus dias a desejar ter tido uma mentalidade diferente. Tenho a certeza de que me diverti mais do que o jogador comum”, relatou Carroll noutra das suas passagens.