Era a etapa rainha, era o momento das decisões, era a altura em que a classificação da Vuelta ficaria de vez resolvida. Não estava já? À partida, num plano meramente teórico, sim. Quanto muito, havia somente uma margem para alterações pontuais no top 10 da classificação geral e pouco mais. No entanto, e puxando todo o filme atrás apenas nesta terceira e última semana de prova, era melhor não arriscar prognósticos.

De novo o Star Trek antes do caminho das estrelas até Navacerrada: Mads Pedersen consegue terceira vitória, João Almeida mantém sexto lugar

Remco Evenepoel chegava confiante também pelo triunfo no Alto del Piornal, o segundo da edição, e pelos pouco mais de dois minutos de vantagem sobre o segundo classificado. No entanto, e olhando para o que se passou na chegada a Tomares, tudo podia ser diferente se o furo que teve fosse antes dos três quilómetros finais e se Primoz Roglic não tivesse caído na reta da meta, ficando com lesões que o obrigaram a desistir. Enric Mas, ou a própria Movistar, também não tinham outro caminho que não fosse atacar, arriscando o impossível nesta penúltima etapa sabendo que existiam mais de três minutos de avanço em relação ao terceiro classificado – e havendo ainda essa curiosidade de perceber se era agora que aparecia um dos nomes mais apagados até ao momento na equipa espanhola, Alejandro Valverde. Mas havia mais.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Evenepoel furou, Roglic caiu, Pedersen ganhou: final de loucos na etapa em que Luis Ángel Maté doou mais 175 árvores

Quase todas as equipas tinham vantagens ou distâncias de atraso que permitiam colocar muita tática na corrida, um pouco à semelhança do que aconteceu no Alto del Piornal com a UAE Emirates a ter um papel de destaque nesse dia sobretudo com João Almeida. A Astana queria defender o quarto lugar de Miguel Ángel López olhando para a possibilidade de entrada no pódio apoiado em Nibali e David de la Cruz. A Ineos tentava segurar pelo menos Carlos Rodríguez no top 5 tendo Carapaz e Tao Geoghegan Hart como escudeiros como aconteceu após a queda do espanhol. Equipas como DSM, AG2R Citröen, EF Education ou Bora seguiam com essa vontade sem pressão de fazer os principais corredores subirem o quanto possível no top 10, nomeadamente Thymen Arensman, Ben O’Connor, Rigoberto Urán e Jai Hindley.

O Bota Lume apareceu no dia em que Remco fez xeque à vitória: João Almeida faz top 10 na etapa e fica mais próximo do 4.º da geral

Em relação à UAE Emirates, o facto de ter dois corredores entre os seis primeiros classificados permitia outra margem em termos táticos para explorar várias táticas ou objetivos, sendo certo que seria complicado Juan Ayuso conseguir um lugar melhor do que o terceiro (era preciso uma autêntica hecatombe de Mas) e que as metas mais próximas poderiam passar pela colocação de João Almeida a lutar pela quinta e até mesmo pela quarta posição em alerta para uma eventual necessidade de poder ajudar o espanhol em caso de dificuldades. O facto de ter saída a mais de 90 quilómetros do final no Alto del Piornal mostravam que o português estava confiante e que a equipa queria mexer com a corrida. Chegara o grande dia.

No plano das apostas, naquele habitual Predictor do Eurosport, um nome estava em destaque: Enric Mas. Também havia quem apostassem na falta de pressão de Thibaut Pinot para brilhar e na quase homenagem de Robert Gesink a Primoz Roglic, mas Alberto Contador, Jens Voigt e Dan Lloyd colocavam o espanhol a vencer a etapa até num duelo direto com Remco Evenepoel em que o belga, num sinal de respeito, deixasse o corredor da Movistar passar na frente sem beliscar a sua vitória na Vuelta. Da parte da equipa espanhola, nem um sinal da tática preparada para a chegada ao Porto de Navacerrada. A hipótese de haver uma fuga capaz de se isolar para discutir depois entre si o triunfo na tirada era colocada de parte.

Como seria de esperar, os ataques começaram logo a seguir à saída neutralizada, sem elementos do top 10 nessa fuga mas com as equipas a posicionarem-se para todos os cenários possíveis mais à frente. Clément Champoussin, Rubén Fernández, Xandro Meurisse, Robert Stannard, Dani Navarro, Joan Bou e Simon Guglielmi conseguiram descolar, Jonathan Caicedo e Julien Bernard (que depois acabou por ir cedendo, sendo integrado de forma natural no grupo maior que vinha atrás de si) estavam na perseguição a menos de um minuto, o pelotão chegou aos 2.30 de distância mas não demorou a estabilizar. Acabou por ser mesmo a Quickt-Step a chegar-se à frente no pelotão não só para encurtar distâncias mas também para evitar que nessa fase mais corredores saíssem em fugas quando as movimentações iam aumentando.

Quando os sete da fuga passaram pela parte final da primeira subida a Navacerrada, tudo tinha mesmo mexido mais a sério: Marc Soler, Hugh Carthy, Richard Carapaz, Robert Gesink, Thibaut Pinot, Sébastien Reichenbach e Ibai Azurmendi conseguiram ir buscar outros dois corredores que tinham fugido do pelotão mas lá atrás Carlos Rodríguez tinha cedido, perdendo mais de dois minutos a certa altura para o grupo onde seguiam os outros primeiros classificados incluindo Evenepoel e João Almeida. Ou seja, e de forma virtual, o português conseguia subiu ao quinto lugar da geral quando faltavam… 145 quilómetros para o final. Mais: pela forma como se iam formando muitos grupos com corredores de diferentes equipas e objetivos, percebia-se que os principais favoritos teriam de mostrar um plano A, B e C para todo o dia.

Mais uma vez, Marc Soler voltou a destacar-se, colando no grupo da frente e garantindo logo que a UAE Emirates ganhava mais alternativas táticas para jogar depois. Já o grupo perseguidor teve uma junção de Valverde e companhia, ficando bem maior e com 50 segundos de desvantagem. Só depois vinha o grupo do camisola vermelha e mais atrás do de Carlos Rodríguez, que assumiu estar a sentir mais dificuldades após a queda grave que teve no início da 18.ª etapa. Também aqui houve junção, com os quilómetros seguintes a encurtarem o atraso do segundo grupo fugitivo e a colocar quase a cinco minutos o pelotão.

A corrida já tinha chegado a um primeiro ponto de quase anarquia, acalmara entretanto e o foco até passou a ser a luta pela camisola da montanha, com Stannard a conseguir ficar no grupo de fugitivos a liderar a corrida com Marc Soler (mais tarde iriam chegar Mader, Pinot e Mühlberger) enquanto Richard Carapaz continuava a rodar no grupo perseguidor que teve 1.30 minutos de desvantagem mas reduziu para apenas 30 segundos a 60 quilómetros, quando o pelotão estava a quatro minutos após andar a 5.50. Era aqui que começavam as decisões sobretudo pela camisola de montanha que em condições normais iria parar a Jay Vine mas que neste sábado continuava em aberto também para o australiano companheiro de equipa.

Voltava a montanha, voltava o percurso mais duro, chegavam as notícias: Stannard acusou o desgaste de andar na frente e desceu, deixando a classificação da montanha de bandeja para Richard Carapaz; Remco Evenepoel começava a ver vários companheiros de equipa ficarem para trás enquanto Enric Mas seguia com os principais escudeiros; a Bora começava a tentar mexer também na corrida. Tudo com a nuance importante de haver uma diferença de 3.45 do pelotão, que ia encurtando a margem de recuperação. A 45 quilómetros do final, a Movistar foi para a frente do principal grupo. Era altura de decisões.

Nelson Oliveira assumia o ritmo imposto pela Movistar numa fase em que, no grupo da frente, algumas peças começavam a não aguentar o esforço feito até aí com a diferença para o pelotão a baixar para 3.10. Louis Meintjes (Intermarché, que ocupava o 11.º lugar da geral), Richard Carapaz e Sergio Higuita iam ganhando vantagem na frente mais uma vez, o que obrigava também equipas como a DSM, a AG2R, a EF Education e a Bora a trabalharem também de outra forma pela ameaça do sul-africano. A cerca de 40 quilómetros do final, com Remco Evenepoel já sozinho sem companheiros, o ataque acabou por partir o grupo deixando López e João Almeida a cair, Carlos Rodríguez cortado e Arensman a colar nos líderes.

Apesar das dificuldades, todos acabaram por aguentar a onda de ataques na zona mais complicada dessa subida, sendo que a distância para os três da frente era de dois minutos a 25 quilómetros do final. A luta voltaria a abrir apenas a dez quilómetros da meta, com um ataque de López a deixar de novo Rodríguez para trás e a colocar finalmente a diferença para os primeiros abaixo de um minuto, sendo que de seguida foi João Almeida a assumir o ataque nesse grupo dos líderes da classificação. Carapaz tentou de tudo na frente para, já sozinho, fechar a terceira vitória, Arensman saiu para tentar ainda chegar ao primeiro lugar, Ayuso voltou a não fazer o trabalho que seria normal com João Almeida e a etapa estava mesmo feita, com vitória do colombiano e consagração do belga como novo vencedor da Vuelta.

Contas feitas, Carapaz ganhou, Arensman foi segundo a oito segundos e o trio Ayuso, Mas e Hindley fechou o top 5 da etapa à frente de Evenepoel, Meintjes, López e Almeida. Com isso, a única alteração que a penúltima etapa trouxe foi mesmo a queda de Carlos Rodríguez para a sétima posição da geral, com João Almeida a acabar em quinto e Thymen Arensman em sexto. Apesar da grande etapa feita em Navacerrada, Louis Meintjes não conseguiu entrar no top 10, que fecha com o vencedor do Giro, Hindley.