Ismail saiu do Irão há cinco anos por não querer viver num país onde as mulheres não são livres. Este sábado foi para as ruas de Lisboa com dezenas de outros iranianos, numa marcha de apoio ao povo do seu país.

“Estamos aqui para apoiar o nosso povo iraniano que há mais de oito semanas está na rua num país que está a matar crianças e estudantes e onde não se pode viver em liberdade” , justificou, em declarações à agência Lusa, Ismail, um iraniano a viver em Portugal e que disse “presente” numa marcha que decorreu entre a praça do Comércio e os Restauradores, em Lisboa, que reuniu homens e mulheres que gritavam “liberdade”.

O Irão tem sido abalado por uma vaga de protestos desde a morte, a 16 de setembro, de Mahsa Amini, uma curda iraniana de 22 anos, detida três dias antes pela polícia da moralidade por alegadamente violar o rigoroso código de vestuário da República Islâmica.

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Pelo menos 342 pessoas foram mortas na repressão dos protestos, segundo a ONG iraniana de Direitos Humanos (TIC), com sede em Oslo. Denunciando “motins” orquestrados por forças estrangeiras, as autoridades iniciaram uma ofensiva e detiveram mais de 15.000 manifestantes, segundo uma ONG, várias das quais foram condenadas à morte.

A marcha que este sábado decorreu em Lisboa insere-se numa iniciativa de apoio “à atual revolução nesse país”, que decorreu em simultâneo em 25 países, incluindo Portugal, assinalando a contestação iraniana, bem como a memória das mais de 3.000 pessoas mortas noutros protestos, em 2019.

Em Portugal, a iniciativa é promovida pelo grupo de iranianos residentes e o discurso de abertura do protesto, na Praça do Comércio, coube à embaixadora do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Catarina Furtado, que também acompanhou a marcha.

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“O fogo e o desejo de liberdade das mulheres nunca se tinha apagado, mas reacendeu-se com a morte de Masha Amini”, disse Catarina Furtado numa intervenção em que alertou para os atentados aos direitos humanos no Irão, considerando que a situação está a um passo do genocídio num país com uma ditadura que distorce a religião para cometer atrocidades.

Catarina Furtado referiu que em causa não está uma questão política, mas sim de direitos humanos e dos direitos mais violados em todo o mundo, os direitos das mulheres.

Os relatos que chegam das prisões falam de violência, tortura e violações. Há raparigas que estão a ser violadas antes de serem executadas”, disse.

Ao longo do percurso entre a praça do Comércio e os Restauradores, as dezenas de manifestantes, entre os quais também alguns portugueses que se foram juntando, empunhavam cartazes onde pediam liberdade para o Irão e entoavam a frase “mulher, vida, liberdade”.

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Os manifestantes pedem ainda à comunidade internacional que atue face aos atropelos cometidos contra as mulheres e todo o povo iraniano e que os presos políticos sejam libertados. Nas últimas semanas, funerais de manifestantes mortos na repressão têm dado muitas vezes origem a comícios para denunciar a morte de Mahsa Amini.

Enquanto decorriam marchas por 25 países (Portugal, Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Alemanha, França, Japão, Austrália, entre outros) pelo menos três manifestantes foram mortos no Irão pelas forças de segurança iranianas no noroeste do país durante protestos.