Beniamino Zuncheddu, pastor de 59 anos, foi absolvido pela justiça italiana após passar 33 anos, um total de cerca de 11.958 dias, na prisão por um triplo homicídio que, ficou agora provado, não cometeu. O homem, que sempre se declarou inocente e estava em liberdade desde 25 de novembro devido a indícios de que não tinha sido julgado corretamente, emocionou-se ao conhecer a sentença proferida na sexta-feira pelo Tribunal de Recurso de Roma: “É o fim de um pesadelo”, disse.
Após a justiça de Itália ter decidido retirar as acusações, por considerar que um dos responsáveis pela investigação do crime que ocorreu em 1991 pode ter manipulado a testemunha principal, Zuncheddu deu uma conferência de imprensa onde descreveu, segundo a agência italiana Ria, que se sentiu “como um pássaro preso numa gaiola, sem a possibilidade de fazer nada” durante o tempo que passou detido. “Na prisão diziam-me sempre: ‘Se te arrependeres, damos-te a liberdade’. Mas eu não aceitava porque não tinha nada a ver com aquilo. Porque é que havia de me arrepender se não fiz nada?”, recordou, antes de afirmar que não sente “ódio” pelo que lhe aconteceu porque “os juízes cometem erros”.
Assolto dopo aver scontato trentatré anni di carcere Beniamino Zuncheddu, condannato all'ergastolo per aver ucciso tre pastori nel 1991 in provincia di Cagliari. Il suo unico accusatore ha confessato di aver mentito, imbeccato da un sovrintendente di Polizia pic.twitter.com/E1IWu3mcJu
— Tg3 (@Tg3web) January 27, 2024
Neste momento, após ser absolvido na sequência de um recurso que estava em andamento nos tribunais há quase quatro anos, o pastor confessou que não imagina como será “a vida”. “Queria ter uma família, construir alguma coisa, ser um cidadão livre. Há trinta anos, eu era jovem, hoje sou velho. Tiraram-me tudo. Agora vou descansar, pelo menos mentalmente”, disse, garantindo que “estar em liberdade é uma coisa inexplicável”.
O crime que levou à condenação de Beniamino Zuncheddu ocorreu a 8 de janeiro de 1991, na região de Sinnai, na Sardenha. Três pastores, Gesuino Fadda, o seu filho Guiseppe e um funcionário, Ignazio Pusceddu, foram alvejados e morreram. Uma quarta pessoa ficou gravemente ferida: Luigi Pinna, genro de Fadda.
De acordo com o italiano La Repubblica, Luigi Pinna, testemunha principal dos homicídios, alterou a versão apresentada às autoridades ao longo do mês seguinte ao crime. Primeiro, disse que o assassino estava “de cara coberta” e que não o tinha reconhecido. Depois, mais tarde, apontou o dedo a Beniamino Zuncheddu numa identificação fotográfica: “Era ele”. O pastor italiano foi detido a 28 de fevereiro de 1991 e condenado a prisão perpétua em junho do ano seguinte.
Agora, em novembro do ano passado na sequência do processo de recurso, Luigi Pinna disse ter sido “induzido a caluniar Zuncheddu pelo agente da polícia que conduzia o inquérito”. “Mostrou-me a fotografia do Beniamino e disse-me que ele era o culpado do massacre. Memorizei aquela cara, repeti aquela versão”, continuou, antes de admitir que cometeu “um erro ao ouvir a pessoa errada”. O La Repubblica escreve que foi Mario Uda o polícia que induziu Pinna em erro, uma acusação que o agente negou ao dizer que não mostrou “nenhuma fotografia”.
A organização Errori Giudiziari, que, como o nome indica, lida com casos que envolvem erros judiciais e que esteve presente no processo de recurso de Zuncheddu, afirmou que o pastor é “o protagonista do erro judicial mais longo da história republicana” de Itália. “Quase 33 anos atrás das grades, 12 mil dias de privação, sofrimento, dor, distância dos seus entes queridos e das suas vidas”, lembrou.