O dia era do Governo e de apresentação do Orçamento do Estado, mas André Ventura fez de tudo para sair como protagonista. Começou por dizer ao Governo que ainda podia voltar atrás e refazer o documento, depois enviou uma carta ao primeiro-ministro exatamente com o mesmo discurso e, por fim, numa entrevista à TVI/CNN em pleno horário nobre, deixou cair uma bomba política ao acusar o primeiro-ministro de mentir, garantindo que Luís Montenegro lhe propôs um acordo para este ano. Acabou desmentido poucos minutos depois pelo próprio chefe do Executivo, que não perdeu tempo e respondeu na mesma moeda: “Mentira.”
Nos primeiros minutos da entrevista André Ventura não escondeu as intenções: “Tenho a acrescentar aquilo que é a história do Orçamento que foi construído e que eu gostava de tornar público, visto que o primeiro-ministro, numa entrevista que deu, disse que o Chega não era um parceiro confiável, que nunca contou com o Chega e que o Chega foi arredado das negociações. Acho que o país não precisa de novelas, mas o país tem de saber que isto é falso.”
O líder do Chega prosseguiria para assegura que Luís Montenegro não só “negociou” e “quis negociar” com seu partido, como chegou mesmo a propor um acordo. “Frente a frente com o primeiro-ministro, o mesmo primeiro-ministro que foi à televisão dizer que nós não somos confiáveis e que com o Chega não se negociava propôs-nos um acordo para este ano”. Ventura assegura que “houve mais” reuniões do que as que foram públicas, até “antes do verão”, mas assegura que terá havido conversas sobre o entendimento nas “últimas três semanas”, nomeadamente na última vez em que se encontraram em São Bento.
Aliás, Ventura vai mais longe para assegurar que o acordo não foi aceite porque o Chega “tem palavra” e tinha proposto um “acordo a quatro anos com transformação e mudança para varrer o socialismo”. “O mesmo primeiro-ministro que estava disposto a que, mais para a frente, o Chega viesse a integrar o Governo“, sustentou o presidente do Chega, enquanto ia subindo o tom para garantir que o partido não é para “descartar”. “Eu represento 1 milhão e 200 mil eleitores que não estão para jogos de bastidores. Talvez o país nunca viesse a saber esta história, mas hoje sabe porque eu estou a contar.”
Sem meias palavras, André Ventura foi perentório: “O primeiro-ministro mentiu. Estou a dizer que mentiu ao povo português. E mentiu porque eu estava lá quando ele quis chegar a um acordo neste ano de Orçamento do Estado.”
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Depois de insistir que Montenegro abriu a porta à possibilidade de o Chega poder vir a integrar o Governo “mais para a frente, num contexto político diferente”, Ventura acusa o primeiro-ministro de ter feito “jogo duplo com o PS e com o Chega para que um ou outro venha a viabilizar um Governo que ele sabe que em 2025 não pode cair por causa das eleições presidenciais”.
“O primeiro-ministro optou por esconder o Chega, dizer que ‘com o Chega nunca na vida’, mas ficar à espera da viabilização do Chega e, ao mesmo tempo, andar a dizer ao PS que ‘com o Chega nunca’ e que queriam estar com o PS. A nós diziam-nos que nunca queriam contar com o PS, mas em público estava-se a dizer que se queria contar com o PS. Isto tem um nome: é mentira e fraude“, acusa o presidente do Chega, com a leitura de que o primeiro-ministro ficaria numa “posição política pública difícil ao voltar atrás” e falar com o Chega e “também percebeu que Pedro Nuno Santos e o PS não seriam o PS muleta que ele imaginou”.
Depois disto, na visão de Ventura, Montenegro “começou a construir uma narrativa em três vertentes: com o PS, com o Chega e preparar os motores para as eleições”. E argumentou que o Governo sabia que com o Chega “as prioridades orçamentais iam ter de ser invertidas” e “optou por fazer jogo duplo”. O Governo, insistiu o presidente do Chega, “escolheu um parceiro preferencial público e um parceiro preferencial privado“.
Poucos minutos depois do fim da entrevista a André Ventura, Luís Montenegro apressou-se a reagir na rede social X, antigo Twitter, desmentindo o líder do Chega:
“Nunca o Governo propôs um acordo ao Chega. O que acaba de ser dito pelo Presidente desse partido é simplesmente MENTIRA. É grave mas não passa de mentira e desespero.”
O mesmo fizeram vários membros do Governo que estiveram nas televisões a dar entrevistas durante a noite. No Now, Leitão Amaro disse que “é uma mentira dita por alguém que deu o último sinal de que não tem credibilidade nenhuma” e pede que não se leve Ventura a sério; na SIC, Pedro Duarte apelidou Ventura de “muito perigoso” e disse não ter competências para “diagnosticar personalidades com esta oscilação” e, na CNN, Castro Almeida sublinhou que Ventura “não é para levar a sério” e “não tem nenhuma coerência”.
Ainda na entrevista, Ventura garantiu — e a falar no presente — que um acordo entre Chega e Governo “não pode ser de remendos“. “O país deu uma maioria ao Chega e ao PSD e sempre entendemos que devia haver um acordo de legislatura a quatro anos. O primeiro-ministro queria um acordo pontual que fosse evoluindo, em vez de dar estabilidade ao país queria enganar o país ou enganar o Chega”, explicou, sublinhando que “não teria havido esta novela” se o primeiro-ministro tivesse dito “ao Chega, no dia zero”, que não contava com o partido.
“Mesmo com isto tudo nós fizemos questão de evitar uma crise política até ao fim. Hoje, já com o Orçamento em mãos e com este contexto de engano, tivemos a preocupação de contactar com o Governo para dizer que este Orçamento foi negociado e tem a marca do PS, e a dizer para mudarem o Orçamento porque nós tudo faremos para evitar uma crise política”, afirmou, notando que o Governo “já negou que vá abrir qualquer hipótese de fazer um Orçamento negociado à direita”.
Assim, Ventura sublinhou que o Chega ainda vai reunir a sua direção nacional, mas afastou-se mais de uma viabilização: “Acho que o país tem aqui a sua resposta. Estou à vontade porque durante semanas, a seguir às eleições, fiz campanha para que houvesse um acordo, o primeiro-ministro disse que ‘não é não’ e depois quis enganar o Chega e [quis] o nosso voto a favor.”
“Ou se reverte o ‘não é não’, há um Orçamento negociado à direita… este Orçamento é mau, não é nosso e não daremos o nosso aval a este Orçamento.” E questionado diretamente sobre se vai votar contra atirou um “claro”, justificando que o Chega abster-se tem o mesmo significado porque o documento mesmo não passa. Já confrontado com a possibilidade de eleições antecipadas, André Ventura recusa ter medo de ir a votos: “Que se lixem as eleições!”
Antecipando um ano em que há eleições autárquicas, Ventura confirmou que vai levar para a campanha o tema da imigração por considerar preocupante para vários municípios, dispensou coligações (“o Chega funciona bem quando vai sozinho”) e explicou que é “provável” o partido contar com “ex-autarcas de outros partidos” — como já aconteceu em eleições anteriores e como o Observador noticiou aqui.
Já sobre eleições presidenciais, Ventura não quis ir muito longe, mas recusou qualquer possibilidade de apoiar Marques Mendes (“É um político do centro de interesses em que vivemos, representa o centrão dos interesses, nunca será o nosso candidato”) e repetiu que “há dois perfis que até poderiam encaixar” — o almirante Gouveia e Melo e Pedro Passos Coelho. “Não sei se o Chega terá um candidato próprio ou não, mas estarmo-nos a distrair com presidenciais não ajuda nada”, concluiu.