Investigadores da Universidade de Genebra (UNIGE) demonstraram, através do estudo das escamas da cabeça dos crocodilos, que as alterações morfológicas da espécie não se devem apenas a fatores genéticos, mas também mecânicos.

A investigação, publicada na quarta-feira na revista especializada Nature, indica que a diversidade destas escamas de acordo com as diferentes espécies de crocodilos não depende da evolução genética, mas de parâmetros mecânicos como a taxa de crescimento ou a dureza da pele.

O laboratório onde foi realizada a investigação, liderada pelo professor de genética evolutiva Michel Milinkovitch, é o mesmo que nos anos anteriores descobriram que as escamas na cabeça dos crocodilos são, na verdade, formadas quando o ‘capacete’ que estes répteis possuem se racha durante o período de incubação.

Num crocodilo do Nilo, a cobertura sólida da cabeça permanece praticamente lisa durante os primeiros 48 dias como um embrião dentro do ovo, mas começa a rachar e, assim, assumir a aparência de escamas irregulares a partir de então, até que esteja completamente formado por volta do dia 90.

Com base nesta descoberta, estudantes de pós-doutoramento do laboratório coautores do novo estudo, incluindo Gabriel Santos-Durán e Rory Cooper, realizaram novas experiências em que injetaram hormonas que ativam o crescimento e o endurecimento da pele em ovos de crocodilo.

A partir daí, descobriram que a distribuição das escamas mudou drasticamente, o que segundo os investigadores sustenta a teoria de um importante papel da mecânica ligada ao crescimento dos tecidos na variedade morfológica entre as espécies.

“Observámos que a pele do embrião cresceu de forma anormal e formou uma rede labiríntica semelhante à do cérebro humano. Surpreendentemente, quando os crocodilos tratados com estas hormonas partiram a casca, mostraram escamas muito mais pequenas, comparáveis às de outras espécies, o jacaré”, explicaram.

O estudo da UNIGE desafia a crença geral de que o desenvolvimento embrionário destes apêndices foi ditado por processos químicos nos quais estiveram envolvidas moléculas resultantes de genes.

“A mecânica dos tecidos pode explicar facilmente a diversidade de formas de algumas estruturas anatómicas em diferentes espécies, sem ter de envolver intrincados fatores genéticos moleculares”, destacou o engenheiro informático Ebrahim Jahanbakhsh, outro coautor do estudo, que também utilizou modelos computacionais 3D para as suas análises.