Uma auditoria forense, várias conclusões. Conforme tinha sido anunciado pelo atual presidente André Villas-Boas, quer na campanha eleitoral, quer depois do triunfo no sufrágio mais concorrido de sempre com 80% de votos, o FC Porto levou a cabo uma análise interna para fazer um retrato daquilo que foi a gestão dos dragões e da sociedade azul e branca no sentido de perceber o que aconteceu na última parte do período de Pinto da Costa na liderança do clube. Entre as principais ilações do resumo agora conhecido, são apontados mais de cinco milhões de euros perdidos com a claque Super Dragões, bem como 47% a mais de comissões em transferências de jogadores e vários milhões gastos sem justificação em despesas de representação.

Nos documentos partilhados através do Portal da Transparência, que estão disponíveis para todos os sócios do clube azul e branco, a auditoria começa por revelar “irregularidades relativas aos processos de venda de bilhetes à Associação dos Super Dragões e às Casas do FC Porto”, num montante total de 5,1 milhões de euros ao longo das cinco temporadas desportivas analisadas entre 2017/18 e 2023/24 (a época de 2020/21 fica de fora, tendo em conta que foi uma época marcada pela pandemia da Covid-19).

De seguida, são elencados os montantes em causa: dois milhões de euros de dívida dos Super Dragões por bilhetes cedidos mas não pagos, dívidas na venda de ingressos às Casas do clube sem justificação em termos de documentos, perda estimada de 1,45 milhões de euros em despesas indevidas (ou seja, faturas que não podem ser enquadradas com aquilo que está estipulado nos protocolos assinados por ambas as partes) e “uso indevido de recursos do clube para pagar viagens pessoais a membros e familiares da Direção dos Super Dragões para destinos onde não existiam jogos do clube”, dando como exemplo países ou cidades como Cuba, Cancun, Maldivas, Brasil, Tanzânia, Ibiza ou Sardenha, entre outros.

Em paralelo, acrescem ainda montantes como 800 mil euros em deslocações como visitante mas que se encontravam enquadrados com o protocolo que vigorava na altura, descontos indevidamente aplicados sobre o valor facial dos bilhetes que resultaram numa perda de 850 mil euros, bilhetes atribuídos aquando do aniversário dos Super Dragões e oferta de ingressos em encontros com grande impacto em termos de receita de bilhética, como a receção ao Barcelona, com um impacto negativo para o clube de 340 mil euros. A esse propósito, a auditoria revela quatro pontos que foram entretanto encetados: revisão dos protocolos, controlo da venda de bilhetes, regulamento para Casas do FC Porto e cooperação com os processos judiciais em curso.

Já em relação às transferências de jogadores, a análise feita desde 2014/15 com um total de 879 movimentos de transferências resultaram num total de 158 milhões de euros, sendo que existiram 50 milhões que foram pagos acima dos valores referência da FIFA e do próprio mercado, balizados em 10% no valor de entradas ou saídas e 3% em renovações. Ou seja, houve o pagamento de 47% de comissões em excesso.

De acordo com o trabalho apresentado aos associados portistas, foram acordados 158 milhões de euros em comissões (16 milhões por época), dos quais 46% ligados a saídas de jogadores, 37% a entradas e mais 16% em renovações. “Excesso de comissões em entradas e saídas: 27% dos movimentos de saídas e 61% das entradas têm valores acima dos referenciais, com 38,4 milhões em excesso. Excesso de comissões em renovações: 95% dos casos ultrapassaram o limite de 3% do salário bruto, totalizando 11,5 milhões de comissões excessivas”, destaca a auditoria, que aponta ainda para mais um dado: 50% das comissões foram circunscritas apenas a oito agentes e 35% somente a três intermediários (a Gestifute de Jorge Mendes, a PP Sports e N1 Carreiras Desportivas de Pedro Pinho e a Bertolucci Assessoria). O trabalho dá ainda nota de 16 mandatos de exclusividade a intermediários, “alguns dos quais sobre jogadores chave, restringindo a liberdade de negociação”. Um desses exemplos é o do guarda-redes Diogo Costa.

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Olhando para os principais jogadores da equipa A e B, apenas quatro de 55 transferências tinham toda a documentação de suporte presente, bem como os demais relatórios de scouting e as justificações para contratação, e 41 em 55 envolveram comissões acima dos referenciais FIFA. “Foram identificados pagamentos de comissões pendentes relativos a 23 jogadores, representando obrigações financeiras críticas para um total em incumprimento de 15,8 milhões”, advoga. O que foi implementado a partir de maio de 2024 com a nova administração? Limitar as comissões em transferências, renegociar mandatos de exclusividade, criar um grupo de trabalho multidisciplinar para transferências e publicar todas as comissões pagas.

Num outro âmbito, a auditoria focou também a questão das despesas de representação dos administradores da FC Porto SAD nas últimas dez temporadas, colocando em foco que além da remuneração fixa e variável existia um plafond que era definido pela Comissão de Vencimentos e que “deveria ser utilizado única e exclusivamente em despesas de âmbito profissional ao serviço do FC Porto”. “Os administradores usufruíram de 3,6 milhões de euros em despesas de representação entre 2014/15 e 2023/24 que não são elegíveis em consonância com o regulamento interno, evidenciando um encargo significativo de custos adicionais. Adicionalmente, a sociedade incorreu em custos fiscais de 400 mil euros, decorrentes das despesas de representação”, começa por balizar o resumo das conclusões da auditoria forense.

Depois, são detalhados esses custos “para fins estritamente pessoais”: 1,1 milhões pelo uso simultâneo de vários veículos com usufruto de familiares, 700 mil euros em refeições profissionais sem justificação, 700 mil euros em viagens privadas para destinos não relacionados com a atividade do clube, 70 mil euros em gastos em joalharias e relojoarias. “Os administradores apresentaram despesas que excederam o limite estabelecido pela Comissão de Vencimentos, totalizando cerca de 420 mil euros de excedente nas dez épocas analisadas. Foram identificadas diversas irregularidades de processo, como ausência de procedimentos de aprovação e verificação de despesas ou falta de documentação de suporte. Foram ainda identificadas 5.120 despesas sem qualquer evidência, totalizando 512 mil euros, além da inexistência de um valor máximo para despesas de combustível, estacionamento e portagens, levando a um gasto descontrolado (255 mil euros)”.

Por fim, no resumo de nove páginas que condensa a informação de toda a auditoria forense, é recordado que houve uma redução de 1,4 milhões de euros por ano nos custos do Conselho de Administração e que esse plafond para despesas de representação deixou de existir, sendo obrigatório justificar cada despesa que é realizada. O clube refere também que existem novas regras e controlos formalizados na SAD.