Apesar da recente derrota com o Barcelona, bem mais complicada de digerir pela forma como chegou entre as duas vantagens de dois golos e o polémico 5-4 no último lance da partida depois de um lance na área dos catalães com pedidos de grande penalidade, o Benfica chegava a Rio Maior com um contexto favorável à redenção. Entrou bem no jogo 100 de Florentino Luís no Campeonato, viu Ángel Di María voltar aos golos de grande penalidade reforçando o estatuto de melhor marcador dos encarnados na presente temporada, tinha esse histórico favorável de confrontos fora com o Casa Pia sempre com vitórias. Depois da meia hora, tudo mudou. É certo que os gansos não perdiam qualquer encontro da Primeira Liga a jogar como visitados desde agosto mas o tamanho do tombo das águias foi bem maior do que o rumo do jogo indicava.

O penso rápido não chegou para curar a ferida aberta (a crónica do Casa Pia-Benfica)

Cassiano marcou o primeiro golo de sempre do Casa Pia em casa diante do Benfica para o empate com que se chegou ao intervalo, quebrando essa série de três desaires pela margem mínima de 1-0 no passado recente. Já no segundo tempo, Nuno Moreira tornou-se mais um na lista de jogadores a marcar aos três “grandes” e Jérémy Livolant fechou as contas no último minuto de descontos para um 3-1 que fica para a história: o Casa Pia não ganhava ao Benfica desde a longínqua temporada de 1938/39, quando bateu os encarnados a contar para o Campeonato de Lisboa (3-2), e somou também o primeiro triunfo de sempre contra “grandes” para a Primeira Liga. Festa de um lado, desalento e críticas do outro numa ronda que pode deixar as águias a seis pontos da liderança no terceiro lugar caso Sporting e FC Porto “cumpram” nas suas partidas.

Sobraram essas imagens que o Benfica menos desejava ver. A irritação de Bruno Lage depois do mau passe na saída a construir a partir de trás de António Silva que valeu o empate, a frustração de Rui Costa depois do 3-1 que fez com que deixasse o seu lugar na tribuna já depois de vários sinais de insatisfação ao longo de grande parte do encontro, os cânticos de “Palhaços joguem à bola” após o apito final. Os encarnados não tinham quatro derrotas à 19.ª jornada desde 2010/11, levam o pior registo em termos de pontos das últimas quatro épocas e atenuam a viragem de tendência com Bruno Lage, que começou com oito vitórias noutros tantos encontros mas teve três derrotas, três triunfos e um empate nas últimas sete partidas.

“Obviamente que aconteceram demasiados erros, infelizmente não fomos competentes. Temos um bom início de jogo, marcámos um golo e mandámos uma bola à trave mas depois cometemos demasiados erros e não podemos cometer. Hoje temos de compreender os nossos adeptos, que estiveram 90 minutos a apoiar-nos. Nós tivemos 60 minutos em que não estivemos bem. Perdemos três pontos, mérito do Casa Pia. Mas depois da nossa entrada, acredito que oferecemos os três pontos ao Casa Pia. Oferecemos não, perdemos três pontos”, comentou o técnico na zona de entrevistas rápidas da SportTV, antes de explicar as opções iniciais.

“São decisões, sentimos que temos jogadores com talento e qualidade. No entanto, há demasiados erros que não podemos cometer. Isto tem de mudar, há coisas que têm de mudar. Há coisas que não passa só por nós, passa por todos. Voltamos a sofrer novamente, o terceiro golo, como sofremos no último jogo [com o Barcelona]. Olhámos para os erros contra o Barcelona, o golo que nos custou imenso e três dias depois voltamos a sofrer um golo idêntico. Era um jogo difícil por diversas razões, por ser o Casa Pia, depois por ser um jogo fora e pelo desgaste que a equipa teve por causa do jogo da Liga dos Campeões. Fizemos algumas alterações para a equipa estar fresca, mas isso não justifica tudo”, destacou Bruno Lage.

“Temos de entender os nossos adeptos e mudar. Mensagem para os adeptos? É isso que eu acabei de dizer, temos de entendê-los perfeitamente porque a equipa que faz o jogo que faz contra o Barcelona e a entrada neste jogo tem de vencer este encontro. Temos de entender os adeptos na perfeição porque tiveram 90 minutos de apoio e nós não correspondemos”, concluiu o técnico dos encarnados na flash interview.

“Individualmente cada um tem de ser responsável pela sua atuação. É um momento para analisar. A derrota dói mas há que virar o momento na próxima partida. Tentámos mas não foi o que costumamos fazer, que é jogar futebol e criar situações de golo, tentar marcar golos. Na segunda parte não fomos o que temos de ser. O que faltou? Criatividade, o querer ganhar que é fundamental nos jogadores. Hoje, por mais que tenhamos tentado ir atrás do resultado, não satisfazemos o nosso povo. Os adeptos têm toda a razão, hoje não fomos a equipa que quer ganhar o campeonato. Para estas coisas tens de ganhar a jogar em casa ou fora. Peço desculpa mas há que olhar em frente. Na quarta-feira, temos uma partida importante. Há que reverter a situação e voltar ao Campeonato”, comentou também o capitão dos encarnados, Nico Otamendi.

Mais tarde, na conferência de imprensa, Bruno Lage abordou também a reação de Rui Costa na tribuna após o 3-1. “Irritação? Saímos todos assim, particularmente eu. Estou zangado e não é nada convosco [jornalistas] mas são 60 minutos que não podemos voltar a repetir. Temos de voltar rapidamente a um nível exibicional aceitável porque a minha exigência e a dos adeptos tem de ser sempre máxima. Há coisas que não se podem aceitar, este jogo tínhamos de vencer. Erros que passam por todos? Falo da equipa técnica e dos jogadores, somos nós que estamos cá diariamente e que jogamos. Se repetirmos erros, temos de mudar, porque voltámos a cometer um erro na construção e num momento de transição em que temos de cometer faltas. Os adversários fartam-se de cometer faltas e nós temos de fazer o mesmo e ter essa experiência”, referiu.

O técnico seria ainda protagonista de mais um episódio na saída do autocarro do Benfica de Rio Maior. As imagens gravadas pelo jornal Record mostram o técnico a deslocar-se com Rui Costa por perto para a viatura vindo dos balneários mas, a certa altura, a ir ao encontro de um dos grupos de adeptos contestatários que ficaram depois do jogo. “Ajudem que eu vou resolver esta m****”, atirou Bruno Lage, visivelmente agastado com a contestação e após uma reação que surpreendeu os próprios seguranças do clube.

Notícia atualizada às 21h15 com as informações depois da saída de jogadores e equipa técnica para o autocarro do Benfica