Os tempos mudam, os anos passam, há coisas que se tornam preciosidades eternas que de quando em vez têm de sair do baú das recordações havendo contexto para isso. Antes da receção do Sporting ao Bolonha, era inevitável esse puxar de fita atrás até 1991, quando a RTP acompanhou o dia do então presidente dos leões, Sousa Cintra, antes da segunda mão dos quartos da Taça UEFA (para quem nunca viu, basta clicar aqui). Não faltam capítulos engraçados nessa noite que colocou a formação verde e branca orientada por Marinho Peres nas meias-finais da competição (onde iria cair com o Inter de Klinsmann, Matthäus, Brehme e companhia, da chegada a Alvalade à conversa com o homónimo italiano, passando pelo charuto na mão a dar palmadas nas costas dos jogadores antes da entrada em campo. Pelo meio, um diálogo que não mais foi esquecido.

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“Moral sou eu que te dou, confio em ti cegamente. Fui eu que te fui buscar! Tu tens de mostrar a estes gajos que és melhor do que eles, que não és nenhuma m****! Não te esqueças, está toda a Itália a olhar para ti, todo o mundo, este vai ser o jogo da tua vida”, dizia Sousa Cintra a Careca, avançado brasileiro que estava sentado no banco a vestir a camisola número 15 de suplente. Quando entrou para o lugar de Douglas, o jogo estava resolvido com golos de Cadete e Fernando Gomes mas foi um jogador saído do banco que ficou na memória do triunfo do Sporting por 2-0. Agora, quase 34 anos depois, a receção aos italianos também ficou marcada por suplentes que tiveram mesmo um papel ativo no jogo, que terminou com um empate com sabor a vitória perante a possibilidade de garantir o acesso ao playoff da Liga dos Campeões.

“O Gyökeres e o Quenda têm fadiga acumulada, têm tido alguns problemas nesse sentido. Estão os dois em dúvida. Também tivemos de gerir o Quenda. Há outros com essa fadiga, uns com problemas mais específicos. São jogadores que têm de ser geridos no dia a dia. É muito do sintoma. Temos tentado gerir ao máximo, dentro do que achamos, de um diálogo com todos os departamentos do Sporting, que são muito bons. Para tentar o melhor para o Sporting e para a equipa”, referira Rui Borges na antevisão, perante a ausência que se iria confirmar do sueco. “Não é uma lesão no joelho. Tem a ver com a fadiga, com os minutos que tem. É dos jogadores com mais minutos a nível mundial até agora. Tentamos gerir ao máximo, temos departamentos capazes. Aqui todos respeitamos todos, acreditamos muito uns nos outros, e todos são ouvidos. O melhor do Sporting será sempre o melhor para todos nós”, acrescentara sobre o goleador.

“O Sporting vai entrar para ganhar. Queremos ser muito competitivos, o clube assim o exige, toda a história assim o exige. Vamos entrar para ganhar, é esse o objetivo e faremos um bom jogo. Preparámos o jogo para ganhar, qualquer um. Olhámos para o jogo com a dificuldade devida e trabalhámos de forma a sermos superiores. Independentemente de o Bolonha não poder passar, é uma equipa muito competitiva. Têm apenas três derrotas no Campeonato, uma derrota nos últimos 12 jogos. São muito intensos, competitivos, fortes nos duelos. Vamos ser obrigados a estar muito alerta para igualar os duelos individuais. Depois, claro, é sermos capazes em termos coletivos. Vai ser um jogo difícil”, frisara o técnico leonino.

No final, mesmo tentando jogar para a vitória, o empate soube como esses três pontos. Não foi a exibição mais conseguida na era Rui Borges, longe disso, entre o demérito na saída a partir de trás e nas falhas no último passe e o mérito de um Bolonha que se consegue impor pela parte física. Ainda assim, e na hora da verdade, só mudou mesmo o penteado e a vontade. O penteado de quem marcou, Conrad Harder, um jovem avançado também nórdico que está longe de poder fazer esquecer Gyökeres mas que mostra cada vez mais ter uma margem de progressão para ser tão bom ou melhor do que o sueco dentro das características que os distinguem, e a vontade de quem entrou, Quenda e João Simões. Com tanto desgaste físico que se vai notando cada vez mais, são miúdos que sentem o seu clube de formação que apagam os problemas.

Ficha de jogo

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Sporting-Bolonha, 1-1

8.ª jornada da Liga dos Campeões

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Benoît Bastien (França)

Sporting: Franco Israel; Fresneda, Diomande, Gonçalo Inácio, Maxi Araújo; Hjulmand, Debast (João Simões, 50′), Daniel Bragança (Geovany Quenda, 62′); Geny Catamo, Francisco Trincão (Matheus Reis, 87′) e Conrad Harder

Suplentes não utilizados: Kovacevic, Callai, St. Juste, Ricardo Esgaio, Alexandre Brito, Felicíssimo, Mauro Couto, Rafael Nel e Afonso Moreira

Treinador: Rui Borges

Bolonha: Ravaglia; Holm (Lykogiannis, 46′), Beukema (Erlic, 46′), Casale, Fabbian; Iling-Junior (Dallinga, 79′), Pobega (Odgaard, 75′), Ferguson (Nikola Moro, 10′), Miranda; Ndoye e Castro

Suplentes não utilizados: Skorupski, Bagnolini e Ravaglioli

Treinador: Vincenzo Italiano

Golos: Pobega (21′) e Conrad Harder (77′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Holm (22′), Beukema (41′), Debast (43′), Iling-Junior (44′), João Simões (66′), Erlic (72′), Hjulmand (87′) e Geovany Quenda (90+3′)

Num jogo que começou com uma primeira tentativa ameaça do Sporting na área contrária, foi o Bolonha que beneficiou da primeira grande oportunidade do jogo na sequência de um canto, com Beukema a desviar de cabeça para a trave (3′). Ficou o aviso dos visitantes, chegou a resposta dos visitados sempre com o mesmo tipo de movimentos à procura de Honrad na frente com espaço. O dinamarquês, esforçado como nunca para andar numa autêntica batalha com os defesas contrários, conseguiu fazer um movimento para dentro com remate à figura de Ravaglia (12′) e testou depois um tiro em força por cima (17′) que deixavam avisos para algo que não se confirmou: mais um canto à direita do ataque do Bolonha, mais uma bola a passar pela linha de inicial de cobertura, mais um desvio de cabeça agora de Pobega que fez o 1-0 em Alvalade (21′).

Esse momento acabou por condicionar o jogo do Sporting, que perante a desvantagem no marcador e essa ideia clara de que assim poderia estar refém de outros para continuar na Liga dos Campeões envolveu-se num período mais errático que se fazia sentir também pelas reações que se iam ouvindo das bancadas. Ainda houve um bom movimento por dentro de Maxi Araújo para um remate prensado no momento chave de definição mas o intervalo chegaria mesmo com o Bolonha em vantagem e, apesar de alguns cartões que iam condicionando o jogo de peças importantes, a jogar na sua zona de conforto pelo contexto no jogo.

Como um mal nunca vem só, Rui Borges optou por manter a mesma equipa mas foi obrigado a mexer logo nos minutos iniciais de novo por questões físicas, desta vez com Debast a sair amparado em ombros para a entrada de João Simões. A pressão homem a homem dos transalpinos continuava a ditar leis, os erros nos passes no primeiro terço foram aumentando, os problemas só não foram maiores porque depois de uma jogada de Ndoye pela direita o remate na passada de Pobega encontrou um Franco Israel ao melhor nível a travar aquele que poderia ter sido um momento decisivo. Fresneda, a tentar dar o mote em mais uma das incursões na frente pelo meio, ainda atirou para defesa de Ravaglia mas as dificuldades mantinham-se.

Quando João Simões conseguiu finalmente agarrar no jogo a partir do meio e quando Geovany Quenda foi lançado em campo, o Sporting entrava na zona de perigo mais indesejada perante os resultados de Dínamo Zagreb e Manchester City. Aí, poderia faltar tempo, forças ou discernimento mas a vontade e a força anímica nunca deixaram de estar presentes. Esse foi o segredo. Houve mais lances que com outra definição poderiam ter empurrado os leões para outro resultado mas o empate a um já no último quarto de hora, com João Simões a cruzar na linha de fundo atrasado após um passe de Maxi Araújo para o desvio ao primeiro poste de Harder, acabou por ser um justo prémio para uma equipa que voltou a fazer das fraquezas forças.