Viver há quase 50 anos no Reino Unido — desde 1976 — Samuel Jarrett-Coker está em risco de ser deportado para a Serra Leoa por falta de documentos que comprovem a sua situação regular. Mesmo que não venha a ser expulso, poderá perder a casa onde vive porque fica sem o direito de a arrendar.
Nas redes sociais, o avô de 61 anos, está a ser visto como um exemplo do escândalo Windrush de 2018 que levou a então primeira-ministra Theresa May a pedir desculpas pela forma como estes imigrantes tinha sido tratados.
THE WINDRUSH SCANDAL CONTINUES…
The lastest victim to be publicised in the never-ending Government Scandal.
Samuel Jarrett-Coker says Home Office has not responded to requests to resolve his immigration status since 1980shttps://t.co/hZshTS31c6 @SeemaMalhotra1 @YvetteCooperMP— Laser Mike (@LaserMike33) February 2, 2025
Em 1971, a Lei da Imigração deu o direito aos cidadãos da Commonwealth que viviam no Reino Unido o direito permanente a viver e trabalhar no país. Aqui estava incluída a “geração Windrush” — milhares de pessoas que chegaram ao país entre 1948 e 1971, quando foram convidadas pelo governo britânico, para ajudar a reconstruir o país depois da II Guerra Mundial. A designação vem do nome do primeiro barco a atracar em Essex, com centenas de pessoas das Caraíbas, HMT Empire Windrush. Mas não só: esta lei aplicava-se também a todos os imigrantes de ex-colónias britânicas em África e sul asiático.
O problema surgiu quando em 2018 se descobriu que o Governo não só não tinha o registo das pessoas autorizadas a viver no Reino Unido, como não tinha emitido os documentos que lhes permitiria confirmar o seu estatuto. Mais: tinha destruído os cartões de desembarque destes imigrantes em 2010. Milhares ficam sem acesso à saúde, ao trabalho e a arrendar casa e pelos menos 83 que tinham chegado antes de 1973 foram deportados erradamente. Para além do pedido de desculpas, o governo estabeleceu um regime de compensações.
O que é que este caso tem a ver com Samuel Jarrett-Coker? O avô de 61 anos conta que tentou regularizar a sua situação desde 1980, mas que nunca recebeu qualquer resposta do governo, avançou o The Guardian, neste domingo. E tudo se complicou em 2023 quando a companheira britânica, com quem teve quatro filhos que lhes deram sete netos, morreu: o contrato de arrendamento da casa onde vive estava em seu nome.
O alerta chegou pela Peabody, associação proprietária da casa onde ainda está a viver, na zona oeste de Londres. O advogado de Samuel Jarrett-Coker recebeu um email a avisar que o seu cliente “corre o risco de perder a casa” , refere o jornal britânico. “A não obtenção de um documento de identificação com fotografia impedirá Jarrett-Coker de conseguir o seu arrendamento”, já que não tem passaporte.
“Inicialmente, recebi um carimbo no meu passaporte da Serra Leoa, mas quando enviei o passaporte para o Ministério da Administração Interna [em meados de 2018] para ser atualizado, nunca recebi qualquer resposta e nunca recebi o meu passaporte de volta, apesar de ter escrito várias cartas ao Ministério a perguntar o que se passava”, contou o serra-leonês ao The Guardian.
O seu advogado Naga Kandiah já fez um pedido de regularização ao abrigo do mecanismo Windrush a favor de Jarrett-Coker, na esperança de resolver a situação.
O advogado explicou que, tendo chegado ao Reino Unido aos 13 anos, “passou quase cinco décadas a construir a sua vida aqui [no Reino Unido], estabelecendo raízes profundas com seus filhos e netos”.
Naga Kandiah acrescenta ainda que a “sua família abrange três gerações”, mas que mesmo assim continua na incerteza. “Apesar de ter passado a maior parte de sua vida no Reino Unido, enfrenta desafios constantes para ter acesso ao arrendamento, aos benefícios sociais e outros serviços essenciais”, esclarece, citado pelo The Guardian.
Jarrett-Coker chegou ao Reino Unido com 13 anos, ao abrigo do passaporte diplomático do irmão, 20 anos mais velho, e que trabalhava na embaixada de Serra Leoa em Londres. Frequentou o curso de eletricidade, no Willesden College of Technology. Após concluir a formação, trabalhou como eletricista até ser afetado por problemas de saúde, que o obrigaram a abandonar o trabalho há já alguns anos.
“Não consigo comer, nem dormir”
A situação tem provocado crises de ansiedade a Jarrett-Coker, que diz já ter perdido cerca de 19 quilos. “Não consigo comer, nem dormir. Paguei os meus impostos e segurança social a vida toda e trabalho desde os 16 anos. Tenho orgulho em ter contribuído para a sociedade britânica”, afirma, defendendo que não deve “ser tratado como um imigrante ilegal, após quase 50 anos de residência ininterrupta no Reino Unido”.
Sem “qualquer família ou contacto na Serra Leoa”, a ideia de ser forçado a retornar é “inimaginável”, frisa. “O Reino Unido tornou-se indiscutivelmente a minha casa. Desejo passar o resto da minha vida aqu.i, num ambiente que me é tão familiar”, sublinha. “Tenho muito medo do que o futuro me reserva se for forçado a partir”, confessa.
Ao The Guardian, um porta-voz do Ministério da Administração Interna disse que o Governo “está empenhado em corrigir os erros do escândalo Windrush e garantir que os afetados recebam o apoio que merecem”.
“Continuamos a ajudar as pessoas a aceder e a candidatarem-se [a esse estatuto] para que possam obter a documentação necessária e provar o seu direito a estar no Reino Unido”, garantiu.
Texto editado por Dulce Neto