O Príncipe Rahim foi, esta terça-feira, o novo Aga Khan, sucedendo ao seu pai, Aga Khan IV, como o imã dos ismailitas, o 50.º de uma linhagem que os crentes desta comunidade de muçulmanos xiitas creem ter descendido do profeta Maomé. A escolha recaiu assim numa figura que há muito se acreditava ser a maior candidata à sucessão e cujo percurso tem estado intimamente ligado à Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, o braço beneficente e humanitário dos ismailitas.

Contrariando o processo como chegou a esta posição — escolhido pelo seu avô, que preteriu os filhos para optar por uma figura jovem para liderar os ismailitas —, sabia-se que Aga Khan IV iria escolher um dos seus filhos homens — Rahim, Hussain e Aly — para sucedê-lo. De fora ficaria sempre a filha Zahra, que apesar de ser mais velha, sendo mulher, não poderia ser a líder espiritual da comunidade.

A leitura do testamento deixado pelo líder — falecido nesta terça-feira, 4 de fevereiro, aos 88 anos — não deu margem para surpresas. Apesar de ser agora o sucessor oficial do seu pai, esta não foi a primeira vez que o nome do Príncipe Rahim foi equacionado como possível líder dos ismailitas. Em 2008, face a um acidente de ski, foi especulado se Aga Khan IV, na altura já com 71 anos, não quereria passar a batuta ao Príncipe Rahim. No entanto, nada mais foi avançado e a liderança permaneceu do lado do progenitor.

Príncipe Rahim nomeado novo Aga Khan

Nascido a 12 de outubro de 1971, o Príncipe Rahim — que terá, assim, o título de Aga Khan V — cumpre a sucessão aos 53 anos, uma idade bastante mais avançada que a do seu pai, eleito imã com apenas 20 anos. No entanto, a chegada durante a meia idade a esta posição permitiu-lhe outro nível de preparação.

A formação do Príncipe Rahim de início pouco teve a ver com o tipo de atividades que levaria a cabo ao longo da vida: tirou Literatura Comparada em 1995 na prestigiada Universidade Brown, nos EUA. No entanto, a esta licenciatura seguiu-se um período ligado ao setor da construção civil, secundado por um programa de desenvolvimento executivo em gestão e administração na IESE Business School da Universidade de Navarra, em Barcelona, concluído em 2006.

Foi a partir desse momento que passou oficialmente a ocupar-se a tempo inteiro das atividades da família, envolvendo-se na gestão da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento e integrando vários órgãos e tornando-se numa das faces visíveis da família em todo o tipo de iniciativas pelo mundo. Por exemplo, o Príncipe Rahim era, até ao momento, presidente do comité executivo do Fundo para o Desenvolvimento Económico (AKFED), supervisionando o ciclo anual de planeamento orçamental da instituição e representando a organização junto de instâncias como o Banco Mundial.

Além disso, presidia também ao Comité para o Ambiente e o Clima, braço empenhado na proteção ambiental e mitigação dos efeitos das alterações climáticas. Foi devido a esta atividade que, por exemplo, participou na cimeira ambiental COP29, no Azerbaijão, ou na cerimónia dos prémios Earthshot, encontrando-se também com figuras políticas como o ministro dos Negócios Estrangeiros da Suíça. Com a sua escolha para imã, reina a incerteza se manterá estes cargos ou se os delegará a outrem.

Sete momentos da vida do Aga Khan, o príncipe sem reino

Num plano pessoal, ao contrário do pai — conhecido como um jet-setter que criava cavalos e era amigo da realeza e de celebridades —, o Príncipe Rahim foi mantendo um perfil bastante mais discreto, não se conhecendo muito para além do seu casamento com a modelo norte-americana Kendra Irene Spears, em 2013, com a conversão desta ao Islão e a sua mudança de nome para Salwa Aga Khan. Tendo tido dois filhos, Irfan e Sinan — de 9 e 7 anos, respetivamente —, o casal separou-se em 2022, tendo o divórcio levantado poucas ondas também.

Residindo oficialmente em Genebra, na Suíça, o Princípe Rahim deverá mudar-se então para Lisboa, já que é na capital portuguesa que se encontra a sede mundial da comunidade ismailita.