Torcemos o nariz à invasão, analisamos os números até ao infinito, confiamos a alma a todas as perceções, mas de que vale a ralação e as rugas se nos servirem um exemplar butter chicken ou um lendário tikka masala? Neste processo de integração dos bárbaros, só não perdoamos um deslize: podem despedir-se dos costumes passíveis de ferir os autóctones, mas por favor tragam as vossas melhores canções. É pelo estômago que um forasteiro aqui chegado nos vence e convence. E é pela banda sonora que nos impõe a mais amarga das contrariedades. Num mundo global, ninguém exige o cúmulo da retidão da playlist, uma obediência do DJ à cartilha da sua pátria, mas ver o empregado a fatiar atum ao som de um Djobi Djoba é coisa que não lembra ao diabo.

Serve isto para vos dizer que no dia em que saí de casa para almoçar esperava chuva, esperava vento, só não esperava certamente ouvir Gipsy Kings numa izakaya (os irlandeses chamar-lhe -iam pub, os norte-americanos saloon e os espanhóis tapas). Mas assim foi. Atrás do balcão, um laborioso trabalho de mise en place, que é tanto um exercício de paciência para quem interpreta como para quem assiste. Alheio a refrões, a faca retalha cebola com precisão mestra para logo seguir para o cebolinho.

Com o passar dos minutos, quem sabe os responsáveis pela sala vão lendo o meu pensamento inquieto – ou avaliando o peso no meu sobrolho. Por fim, o esperado render da guarda artística. Nas colunas de som apresenta-se ao serviço “Mayonaka no Door“, ou “Stay with Me”, ou “Fica Comigo”, o single com que Miki Matsubara debutou, em 1979 (curiosamente o ano em que Los Reyes, como eram chamados, foram fundados, em França). A canção voltou à ribalta em 2020, relançada por uma cantora indonésia que faz versões de canções japonesas – tal como os Gipsy Kings transformaram o “My Way“ do Sinatra em “A Mi Manera” e está tudo bem com isso. Muda a faixa e continuamos em oitentas com Mariya Takeuchi e o seu “Plastic Love”, extraído do álbum Variety, um tema que idem viralizou nas décadas mais recentes, à conta do algoritmo do YouTube. Perdoem-me, mas este mini tratado sobre a pop ligeira japonesa alivia-me, como se os planetas se tivessem por fim alinhado e o cosmos pudesse voltar a segurar os seus pauzinhos com toda a bonomia.

Rebento mais jovem do Sake Miko, o Yoizaru abriu portas recentemente na Rua Cecílio de Sousa, ao Príncipe Real. Apesar do inesperado “Bamboléo” – que eu ADORO, ATENÇÃO, mas em outros contextos – e da pequena casa de banho excessivamente próxima da cozinha (contingências do espaço exíguo), esta poderia tornar-se a minha nova cantina de almoço de segunda a sexta. E porquê? Porque a comida é ótima e parecendo que não, antes de mais, vim para comer e beber. Deixarei a perplexidade com bandas sonoras de restaurantes de Lisboa para outras instâncias. Não quero atrapalhar a distribuição de estrelas pelos pratos.

“CUIDADO, É SAKÉ!” grita-me a empregada, depois de me encher o copo até cima com um conteúdo translúcido. A medo, pouso imediatamente o recipiente, apesar de irmos para lá do meio dia (ou uma da tarde, se nos imaginarmos na feira de Sevilha ao som do “Bem Bem Maria”).

“Estava a brincar”, ri-se a natural de Tóquio há uma década em Portugal, num português invejável para muito bom português.

Reaproximo os lábios e sorrio diante do jarro de água. Junior é espirituosa como o sochu que por aqui se bebe, uma das especialidades e atrações de “Yoizaru”, com o seu duplo significado entre “macaco bêbedo” e um bem comportado primata. Ataco um Chumai, que inclui ainda calpis, shiso, erva príncipe, soda e neste caso particular limão (12 euros). Teve graça, o que vai sendo raro nos novos anfitriões da nossa praça, onde nem sempre atinam com idiomas e níveis de simpatia. Aprecio a vigilância, atenta mas sem ser excessivamente pegajosa.

Se o tasting room e izakaya da Travessa de São Plácido já era bastante recomendável, com o dedo do chef executivo Kazuaki Senno, o mano mais novo promete não ficar atrás. É possível sentar-se ao balcão para uma simples sopa miso ou alinhar numa roda viva de petiscos, aproveitando a mesa corrida ao fundo da pequena sala. Para abrir as hostilidades, chegam-me duas pequenas entradas, entre rábano japonês e beringela e courgette fritos. Ao almoço, garantem-me, a secção Teishoku é a mais popular. Servida com dois acompanhamentos, arroz e sopa, contempla opções como o porco fatiado salteado com gengibre (uma maravilha, ladeada por massa com cenoura e courgette e uma couve roxa marinada, 18 euros), ou o frango frito com molho tártaro – o resultado funciona como um menu que chega e sobra para confortar. Sem grandes desvios, a conta fica tranquilamente sob a linha dos vinte euros.

Também a sanduíche especial do dia ou interpretação da casa do crispy mafia fried chicken burger (14 euros) estão entre as mais procuradas para uma refeição rápida. Para um naipe sobre arroz, há porco panado com caril japonês (20 euros), língua de vaca (13 euros), ou atum akami fresco temperado com gochujang (18 euros). E nos frios, uma seleção de niguiris (9p, 25 euros) ou variedade de sushi e sashimi (35 euros). Nas sobremesas, apenas duas opções, que não contam grande história: com ou sem miso, há cheesecake para rematar (6 euros) que ataco por pura gulocide, mas bem podia ter dispensado.

Ao jantar, a carta cresce e pede companhia para reforçar a arte da partilha. Hamashi com ponzu (16 euros), tempura de camarão ou lulas (16 euros), ramen (18 euros), sashimi de polvo com mostarda japonesa (10 euros) coabitam com porções de pickles caseiros, enguia em vinagre doce com pepino, búzios com molho sumiso ou vieiras de Hokkaido, enquanto a oferta de sushi e sashimi se multipla.

Nas bebidas, há cerveja e wiskey nipónicos, e, claro, um conjunto de cocktails assinatura à base de espirituosas japonesas, como licor premium de alperce japonês ou um negroni com shochu (e ainda versões sem álcool).

Falta referir que é um destino japonês com japoneses entre os clientes regulares, que se calhar estão carecas de escutar hits japoneses de outras eras. Num serão bem regado, quem sabe não saímos todos a tocar castanholas e a bailar o “Volare”.

Yoizaru, Rua Cecílio de Sousa, 85 (Príncipe Real), Lisboa. Quartas só funciona ao jantar. Encerra ao domingo. Restantes dias, das 12h00 às 15hoo e das 18h00 às 23h00.

Silvestre da Silva escreve com muito coração, alguma cabeça e todo o estômago possível. No final, paga sempre a conta. Ainda vai na segunda fase da vida, espera chegar à terceira, e pela primeira vez mostra o que vale como Experimentador Implacável.