Numa noite dominada pela CDU e os resultados eleitorais que seguem a tendência prevista pelas sondagens à boca das urnas, algumas revelações acabaram por marcar o discurso mediático e a cobertura das eleições na Alemanha, entre as claras discrepâncias de cores no mapa germânico, um “partido de piratas” e o silêncio de Elon Musk.
É um fenómeno que se tem vindo a verificar ao longo dos últimos anos: a histórica ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD), que já havia registado resultados extremamente positivos nas últimas eleições estaduais, com uma vitória inédita — desde a reunificação do país — no estado da Turíngia. Como não poderia ser diferente aos valores contabilizados em setembro passado, apurados os oito círculos eleitorais deste estado, a cor predominante é o azul claro da AfD (38,6% dos votos).
Berlim roxo
Esta foi a mesma realidade nos restantes estados no leste do país, (quando faltava apurar apenas os resultados de três estados) como em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental (35%), Brandemburgo (32,5%), Saxónia (37,3%), Alta Saxónia (37.1%) onde a maioria dos votos foi no partido de Alice Weidel. A única exceção, como tem sido frequente, foi a capital. Em Berlim, os alemães quebram a pintura outrora uniforme dos sociais-democratas do SPD e acrescentaram ao mapa o roxo do Die Linke (19,9%), que não aparece desta forma em mais nenhuma região do país. À frente da AfD (15,2%) ficaram também os democratas-cristãos da CDU (18,3%) e os Verdes (16,8%), ficando para trás o SPD (15,1%).
No maior estado do país, a Baviera, também não houve grande competição. Com 37,2% dos votos, a CSU (partido irmão da CDU) voltou a aumentar a sua popularidade, tal como a AfD que duplicou a sua representatividade nos boletins. No outro lado do espectro, a tendencial queda dos votos na SPD verificou-se ao longo de todo o país, à exceção de Hamburgo e Bremen, os dois estados mais pequenos em que o partido do chanceler incumbente, Olaf Scholz, continuou a ser o mais votado.
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
A não entrada direta de Weidel
Individualmente e apesar do grande sucesso do seu partido, a líder da AfD, Alice Weidel, falhou a eleição pelo círculo onde se candidatou, no sul da Alemanha. Weidel perdeu a votação no círculo de Bodenseekreis, junto à fronteira com a Suíça (no estado de Baden-Württemberg) para o candidato da CDU, Volker Mayer-Lay. Weidel teve 20% dos votos, contra 40% de Mayer-Lay — que já tinha conquistado o círculo em 2021. A líder da AfD falha, assim, a eleição direta para o Bundestag, embora tenha garantida a eleição através do círculo de compensação, uma vez que é a primeira da lista.
No sistema eleitoral alemão, os eleitores votam duas vezes: uma para o círculo no qual residem e outra para o círculo nacional. Assim, 299 dos 630 deputados são eleitos de forma direta (se ganharem o círculo pelo qual se candidatam). Os restantes 331 deputados são eleitos através de um círculo de compensação nacional.
Já os líderes da CDU e do SPD foram eleitos de forma direta. Friedrich Merz ganhou o círculo de Hochsauerland, na região da Renânia do Norte-Vestefália, por uma larga margem. Merz obteve 47,72% e o candidato do SPD, Dirk Wiese, 21,39%. Olaf Scholz, porém, teve mais dificuldade. É verdade que venceu o círculo de Potsdam, embora por uma pequena margem. Teve 21,8% dos votos, enquanto a candidata da CDU, Tabea Gutschmidt, recolheu 20,6%.
À semelhança de Weidel, outros líderes partidários falharam a eleição direta. O líder dos Verdes e vice-chanceler alemão, Robert Habeck, perdeu a votação no círculo de Flensburg-Schleswig, no norte da Alemanha. Também o líder dos liberais do FDP, Christian Lindner, falhou a eleição direta para o Bundestag — mas, aqui, nem o círculo de compensação o salvou porque o partido não conseguiu o mínimo de 5% exigido para conseguir eleger. Terá sido aquele resultado que oficializou a demissão do liberal da liderança do seu partido e da vida política ativa no geral. Lindner foi o ministro das Finanças no Executivo de Scholz, e foi o seu afastamento da tutela que provocou a crise política no final do ano passado e conduziu às eleições antecipadas deste domingo.
Os kiwis, a Jamaica, o Quénia e o semáforo
Na Alemanha, quando se fala sobre possíveis coligações para formar governo, muitas vezes fazem-se associações entre as cores dos partidos e traduções destes esquemas para outros termos. Daí surgiu a coligação “Semáforo” que governava o país: o SPD (vermelho), o FDP dos liberais (amarelo) e os Verdes (verde).
Enquanto Merz se prepara para começar a conversar com os restantes partidos com representação parlamentar, começam também a circular outras bandeiras ou itens que possam descrever as opções governativas do país. O “Kiwi”, que em princípio não será possível concretizar, composto pela CDU (preto) e pelos Verdes, a “Jamaica”, à qual se juntariam os liberais do FDP ao “Kiwi” (que também não será possível porque o FDP não elegeu), ou até o “Quénia”, com a junção do SPD e dos Verdes ao executivo dos democratas-cristãos.
O silêncio ensurdecedor de Elon Musk
“Tal como nos Estados Unidos da América, os alemães cansaram-se da agenda sem senso comum, especialmente em matéria de energia e imigração, que prevaleceu durante tantos anos”. Foi esta a publicação feita pelo Presidente dos EUA quando surgiram as sondagens à boca das urnas, que davam a indicação do triunfo da CDU. Para Donald Trump, a vitória do “partido conservador” é um “grande dia para a Alemanha e para os EUA”.
Este apoio do chefe de Estado norte-americano poderá ter sido interpretado com estranheza por alguns membros do eleitorado republicano, principalmente porque um dos seus homens mais próximos é um apoiante vocal de um outro partido. Responsável pelo Departamento da Eficácia Governamental (DOGE), Elon Musk foi extremamente ativo no seu apoio à AfD ao longo de toda a campanha eleitoral, chegando a entrevistar a candidata do partido na sua rede social X.
No entanto, no momento de celebração do resultado histórico da extrema-direita alemã, o homem mais rico do mundo manteve-se em silêncio. Começou o dia com uma nota de apoio ao partido, mas, à medida que iam sendo publicados os resultados, ficou em silêncio. Não foi um caso de inatividade nas redes sociais, uma vez que Musk publica múltiplas vezes diariamente na sua página do X. Ao longo das horas com resultados conhecidos chegou a publicar mais de uma dezena de “tweets“, mas nenhum referente aos acontecimentos do outro lado do Atlântico.
O Partido dos Piratas
Um outro partido que recebeu manifestações de interesse online, apesar de estas não terem tido tradução em cruzes nos boletins, foi o “jovem” Partido dos Piratas. Com 18 anos de história na Alemanha, o movimento que defende o federalismo europeu e “políticas de pirata”, recebeu pouco mais de mil votos em todo o país, mas o nome e ideais que diferem da norma política alemã fazem sobressair o coletivo.
Não se trata de um exclusivo alemão. O Partido dos Piratas começou, na realidade, em solo sueco, tendo-se expandido por vários países europeus, e chegou a ter representação no Parlamento Europeu. Foi Amelia Andersdotter, a primeira presidente da versão europeia do partido, que chegou a representar os piratas em Bruxelas e Estrasburgo. Agora, desde 2019, a representação do partido na “piscina dos grandes” na Europa tem a sede na República Checa, com a eurodeputada Markéta Gregorová.
O virologista “polémico”
Regressando à representação no Parlamento, o virologista Hendrik Streeck, da CDU, foi o mais votado no círculo de Bonn, com 33,3% dos votos. Streeck, durante a pandemia, foi rotulado por um órgão de comunicação social alemão como o “homem que está constantemente errado, mas é sempre apontado como um especialista da Covid-19“.
Apresentava-se frequentemente contra as afirmações de um outro especialista, Christian Drosten, que emergiu também neste período como uma das principais vozes da virologia na Alemanha. Enquanto a Covid-19 era declarada uma emergência mundial pela Organização Mundial da Saúde, o agora deputado da CDU dizia que o vírus influenza, da gripe, era um risco maior para a sociedade.
Da ciência para a política, Streeck decidiu candidatar-se e a verdade é que conseguiu mesmo um assento no Parlamento alemão.